quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Maldito espelho



Quando eu tentei dizer ao Tobby que havia algo errado com o que a Maria Clara tinha comprado naquele dia, ele não me deu ouvidos e simplesmente foi brincar. Às vezes, eu perco a paciência com ele. Ele pode ser um excelente companheiro, mas sinceramente não é muito esperto. Bem, o que se pode esperar de um labrador que passa o tempo todo brincando e destruindo o que vê? Os cachorros, assim como os seres humanos, pensam que nós, os gatos, nada fazemos além de dormir. É verdade que eu, uma bela gata, passo um bom tempo no sofá, porém é isso que me permite observar o comportamento dos nossos donos. Tobby acha papai um ótimo homem, coisa com a qual não concordo. É verdade que ele não nos maltrata  e é  bom para sustentar a casa, no entanto nunca gostei de como ele sempre tratou a Maria Clara, a filha mais velha. E mae, infelizmente, se deixava dominar por papai e quase nunca o contestava. 

Desde que eu era uma filhotinha malhada eu via papai implicar com Maria Clara. Chamava-a de gorda, desajeitada e idiota e mamãe ou ficava calada ou concordava com ele. A outra filha, Agatha, era um horror de irmã. Eu dizia isso a Tobby porém ele dizia:

-Não fale isso da Agatha. Ela é minha dona. Morgana, você pode gostar da Maria Clara, até porque foi ela que achou você e trouxe para casa. Mas Agatha é minha dona. 

A questão era que eu odiava vê-los tratando Maria Clara, a minha dona,  como uma idiota.  Mamãe nunca mandou Agatha dobrar um lençol mas Maria Clara tinha que ajudar em casa e constantemente eu os escutava dizer coisas como:

-Maria Clara, não adianta você querer esse vestido. Você é muito gorda, minha filha, muito desajeitada. Nem sabe andar direito.

Outra vez, Maria Clara falou que sonhava ter uma festa de quinze anos, vestir-se como uma princesa. E mamãe falou algo muito cruel:

-Você não vai primeiro tirar essa barriga enorme não?

Papai foi ainda pior:

-Você, uma princesa? Você está mais para bruxa. Pior foi ouvir voce dizer que queria ter cabelos longos como os das sereias quando você está mais para baleia.

Frequentemente, Maria Clara me pegava no colo e ficava chorando, perguntando por que os pais faziam questão de chamá-la de feia e gorda. E Agatha adorava provocá-la. Ela era horrível. Só o bobo do Tobby para não perceber.  Eu ainda ficava mais triste porque sabia que mexiam com ela na escola. E papai e mamãe nada faziam além de dizer:

-Se você não comesse tanto e não estivesse enorme de gorda, ninguém mexeria com você. 

Entretanto, Maria Clara começou a mudar quando, num fim de tarde, voltou animada para casa e me pegou no colo, dizendo:

-Morgana, minha lindeza, veja o que comprei numa loja de antiguidades!

Eu prestei atenção: era um espelho enorme, desses que ocupam um belo espaço. Mamãe e papai não acreditaram que ela comprara um espelho, pois ela sempre odiara espelhos e Agatha provocou:

-Esse espelho vai mostrar bem suas banhas, baleia.

Mas Maria Clara, normalmente tão sensível e doce, teve uma reação diferente da usual: em vez de chorar e correr para o quarto, ela xingou Agatha:

_-se foder, sua vaca nojenta! Quem quer alguém como você como irmã?

Tanto papai quanto mamãe, Agatha e eu ficamos surpresos. Até mesmo Tobby não acreditou. Mamãe reclamou:

-Maria Clara, como pode falar assim? Não foi essa a educação que eu lhe dei!

E Maria Clara, olhando para mamãe, rebateu:

-Ora essa, mamãe. Você sempre silenciou quando essa nojenta me chamava de baleia, feia, burra e desajeitada! Tanto você quanto papai nada fazem além de dizer coisas que fazem eu sentir vergonha de mim mesma!

Minha dona, diante dos olhares espantados de todos, foi para o quarto e eu a segui. Ela colocou o espelho num canto e eu fui observá-lo. Pude me ver. Lá estava eu, uma gata negra, peluda, com olhos amarelos e peito e patas brancos. Entretanto, algo não me parecia bem. Embora fosse meu reflexo, era como se não fosse eu, porque eu estava muito mais magra do que realmente sou. Então, Maria Clara foi se olhar no espelho e o que eu olhei me espantou: o reflexo dela era ela e ao mesmo tempo não era. No espelho, ela estava magra, esquelética, com as faces encovadas como as de uma caveira, a pele acinzentada, marcas roxas ao redor dos olhos, cabelo seco e sem vida como o de um cadáver. Eu já estive em dois velórios e sei bem como é cabelo de cadáver. 

-Puxa, Morgana, o espelho é fantástico. Eu me vejo tão bonita nele.

Eu não podia entender e senti medo daquele espelho. Saí correndo do quarto como uma louca, encontrando Tobby na sala. Contei tudo a ele e ele disse que eu estava vendo coisas. Mas eu podia sentir que havia algo errado naquele espelho. Assim como Maria Clara foi mudando aos poucos, de forma gradual. Primeiro, ela foi ficando agressiva com Agatha, papai e mamãe e emagrecendo sem motivo aparente. Ela sempre gostara de escrever poesias, ler e ver filmes e foi deixando de lado tudo que gostava e passando a falar muitos palavrões. Uma vez, no jantar, papai começou:

-Maria Clara, como você continua comendo tanto quanto sempre comeu e está perdendo peso?  deve ter perdido uns cinco quilos.

-Não é da sua conta. 

Papai e mamãe reclamaram e mamãe ameaçou:

-Fale direito conosco ou vai levar uma surra! Lembra de quando eu lhe dava chineladas quando você me respondia?

-Claro que lembro, sua velha! Lembro sim! Lembro de você sempre me chamando de tapada, burra, lerda e gorda! Lembro de como eu queria que meu pai me chamasse de princesa e dissesse que sou bonita e ele nunca perdeu uma chance de me chamar de feia, bruxa, baleia jubarte e tudo o mais! Ameace me bater agora, velha inútil! Aliás, bata! Bata e eu chamo o Conselho Tutelar! Pense no escândalo! Vou contar ao Conselho sobre todas as surras! Quer que eu fale também de como essa inútil aí - apontou Agatha - nunca perdeu uma chance de ser cabueta, dizendo a vocês o que eu tinha feito para vocês me baterem? Ou de como ela me provocava de propósito para depois ir dizer a mamãe que eu tinha batido nela para mamãe me bater bem muito com o chinelo? Lembro dela vendo vocês me baterem enquanto ria!

Papai a mandou se calar e eu, observei, horrorizada, Maria Clara berrar:

-Não vou me calar porque me calei por muito tempo! Veja você, mamãe! É uma covarde que diz que aguenta papai por suas filhas quando não o deixa porque não tem coragem de lutar para se sustentar! E veja esse velho! Um frustrado que não conseguiu terminar o doutorado e casou com uma mulher sem estudo porque tem complexo de inferioridade e casou com uma mulher com pouco estudo para poder se sentir superior e dizer que é um homem culto que casou com uma ignorante! Olha a Agatha! Não passa de uma mimada egoísta! Só pensa nela! Mas foram vocês que a criaram!

Mamãe começou a chorar, papai ficou olhando espantado, Agatha e Tobby não acreditavam e eu sabia que tudo era por causa do espelho. Maria Clara saiu de perto deles, passou por mim, acariciou minha cabeça e foi até seu quarto. Eu a segui discretamente e espiei pela porta entreaberta, vendo-a falar com o espelho. Ela dizia:

-Só você me entende. Meus pais e minha irmã não gostam de mim, na verdade a minha gata, a Morgana, gosta de mim. O cachorro não conta. Eu queria ficar sozinha, sem eles. O que faço?

Apavorada, tentei de novo dizer a Tobby e ele dessa vez ficou assustado, entretanto disse que não adiantava tentar avisar os outros. Os humanos não iriam nos entender. Que poderíamos fazer? Éramos apenas uma gata e um cachorro. Ele falou:

-Infelizmente, algo muito ruim vai acontecer.

Tobby, sempre otimista, estava certo na sua previsão pessimista. Maria Clara foi emagrecendo a olhos vistos, ficando mais agressiva, falava de um jeito que fez mamãe, que é evangélica, dizer que ela parecia que estava possuída. Um pastor veio aqui e Maria Clara riu dele e respondeu:

-Você não sabe de nada, seu arrogante. Nem essa velha que lhe trouxe aqui sabe. A sua esposa sabe sobre uma mulher que tem dois filhos e que sempre vai à igreja?

O pastor, assombrado e com faces rubras,  orou e orou e disse a mamãe que Maria Clara certamente estava sofrendo a ação do Inimigo. Mamãe orou muito, papai chamou pessoas da família dele, que é católica. Queriam levar Maria Clara ao médico porque viam que ela tinha manchas roxas no corpo, estava com olheiras, perdendo peso rapidamente e dizendo palavrões e impropérios. Mas ela dizia que estava feliz e ia para o espelho e falava:

-Eu nunca me senti tão bem. Agora eu me vejo e gosto do que vejo. Eu estou bonita.

-Como você pode dizer que está bonita? Está com problema de vista? Agatha não acreditava.

Uma manhã, eu dormia de costume com Maria Clara, que há tempos não ia à escola e ouvi mamãe chorando e gritando. Abri os olhos. Maria Clara, deitada na cama, estava de olhos abertos. Papai, Agatha e Tobby vieram e eu fui para bem junto da minha querida dona, entendendo que ela estava morta. Chamaram a ambulância e a morte dela foi confirmada. Mamãe uivou de dor, culpando-se e dizendo que fora uma péssima mãe e papai também chorou mas eu achei inúteis as lágrimas dos dois. Tobby foi para perto do corpo de Maria Clara, lambendo-lhe a mão morta.  Agatha  foi para seu quarto e pude ouvi-la chorar. De que adiantava chorarem tanto? Só sei que deitei sobre minha dona, sentindo uma dor imensa. Eu a perdera para sempre.

Mais tarde, houve o velório. Agatha levou Tobby mas eu fiquei e mamãe, dizendo que cuidariam de mim porque era a vontade de Maria Clara, deixou água e comida para mim embora eu quisesse ir com eles já que nunca mais veria Maria Clara. Sabia que ela seria colocada debaixo da terra.

-Vamos cuidar bem de você agora, gatinha. Infelizmente, vamos passar o dia fora. Mas vou deixar água e comida para você. Saiu chorando.

Só sei que tudo fora culpa do maldito espelho. O que eu deveria fazer? Não sabia. Depois de muito pensar, levantei do sofá, fui ao quarto de Maria Clara, vi o maldito espelho posicionado ao lado da mesa de cabeceira. Daria para quebrá-lo? Resolvi tentar. O terrível objeto poderia depois acabar com a vida de outra pessoa como acabara com a vida de Maria Clara. Talvez o vendessem ou dessem a alguém, que teria a vida destruída por ele. Pulei na mesa de cabeceira. O espelho era pesado, só que eu podia mexer nele com uma de minhas patas, fazendo com que caísse. E foi o que eu fiz. 

Então, o maldito espelho virou e caiu no chão, partindo-se em vários pedaços. Eu não ouvi apenas o ruído do vidro se quebrando, mas também vários outros barulhos, que pareciam gemidos. E algo inesperado aconteceu: vi Maria Clara surgir na minha frente, bonita e sorridente como nunca a vira. Ela veio até mim e disse:

-Adeus, Morgana. Você quebrou o espelho e me libertou.

Assim, minha amada dona foi embora, andando para longe e sumindo devagar. Eu queria chorar, mas nós gatos não choramos.

Muito mais tarde, mamãe, papai, Agatha e Tobby voltaram e mamãe ficou pasma com o espelho quebrado, olhou para mim  porém nada disse e pegou vassoura e , varrendo os cacos e levando tudo para jogar no lixo, dizendo:

-A Maria Clara era uma menina tão doce e mudou o estranhamente depois que comprou este espelho. Ah, minha filha, eu queria tanto ter sido uma mãe melhor.

Depois, contei a Tobby o que acontecera e ele ficou aliviado. Estava tudo acabado. Infelizmente, Maria Clara se fora e eu nunca mais a veria