terça-feira, 21 de abril de 2026

O fantasma da velha escola -11


 



Marcão pesquisou obsessivamente, lendo sobre espíritos andando ente os vivos, lugares mal-assombrados, obsessão e "poltergeists", dividindo as descobertas com Alfredinho. Lilith, olhando-os de longe, tinha um ar desanimado.

"O que os idiotas estão planejando?" pensava.

Olhava-os de soslaio e eles não ousavam perguntar se José Afonso ainda a assediava.

Finalmente, Marcão viu um ritual na Internet para afastar espíritos perturbados. Animado, anotou-o num caderno e ligou para Alfredinho:

-Alô, Alfredinho?

-Que é, Marcão?

-Sei de um ritual.

-Acha que dá certo?

-Temos que tentar. Eu não aguento mais. Mas há uma coisa que será difícil.

-Qual é?

-O ritual necessita de um médium com elevado grau de cognição.

-Lilith!

-É a única pessoa que conhecemos que possui um altíssimo grau de mediunidade.

-Marcão, será que ela vai concordar?

-Teremos que convencê-la. Eu também tenho um objeto pessoal do José Afonso, um livro que ele tinha me emprestado.

-Sei não, Marcão. A gente nunca fez isso antes. Não será burrada? A Lilith disse que a gente não devia...

-Você quer aguentar o fantasma do José Afonso lhe assombrando pelo resto da sua vida? Até quando teremos que pagar?

-Está bem, vamos arriscar. Tchau.desligou.

Marcão sabia que havia perigo no ritual, mas pensava que não dava mais para retroceder. Não dissera a Alfredinho que o médium que participasse desse tipo de ritual poria sua própria vida em risco.

"Bem, eu não quero a morte da Lilith. Se eu pudesse, chamaria outra pessoa, mas não conheço mais ninguém com esse poder. Pelo que vi, o grau do poder dela é dos mais elevados."

Leu várias vezes o ritual, sabendo que a menor falha podia ser desastrosa e que o medo poderia atrapalhá-lo quando ele mais precisasse acertar. Seria preciso usar de muita persuasão para convencer Lilith para participar do perigoso ritual.

O dia seguinte era quinta-feira, no qual as aulas eram poucas. Marcão e Alfredinho procuraram Lilith no intervalo. Ela estava recostada na parede, o ar pensativo. Ao vê-los, seu rosto adquiriu uma sombra de contrariedade.

-O que vocês querem? Se querem saber se o José Afonso continua aparecendo, já sabem a resposta.

-Por favor, Lilith - Marcão sentou ao seu lado - você tem que nos ajudar.

-Eu não posso ajudá-los. Sabem, eu queria ajudar a mim mesma, porque é horrível... ver o que vejo. parecia à beira das lágrimas.

-Sabe, Lilith, não há cura para essa sua...capacidade.observou Alfredinho.

-Eu sei que não, seus dois idiotas.Assim como sei que o José Afonso tem assombrado seus sonhos todas as noites.

-Por isso, você pode nos ajudar. sorriu Marcão.

-Não, não posso. Se precisam de ajuda, procurem um padre, um pastor ou um centro espírita. Eu não tenho nada a ver com...

-Desculpe, Lilith, mas tem.Você vê o José Afonso, assim como vê várias pessoas mortas, sendo capaz de se comunicar com elas. Seu talento é muito...raro.

-Você acha que é divertido ser como sou, Marcão? Gostaria de que gente morta lhe assediasse? Aliás, quer saber quantas pessoas mortas estão andando aqui agora? Sabe, você pode pensar que está sozinho, mas há várias almas circulando ao seu redor e, no final, quer saber de uma coisa?

-Qual?quis saber Alfredinho.

-Você se dá conta de que, ainda que cercado de tantos espíritos, você está mesmo sozinho. Eu tenho sentido isto desde os quatro anos! Claro que só fui compreender muito depois!

Marcão resolveu ir direto ao assunto:

-Mas você prefere que a maioria dos vivos não saiba, não é? Você estaria bem pior se seu segredinho se espalhasse. Todos olhariam você e não mais pensariam que você é uma esquisita. Teriam certeza.

Desta vez, Marcão se arrependeu de suas palavras. Lilith lhe deu um tapa na cara e, com os olhos mais escuros e a pele lívida, disse:

-Pois não perca seu tempo falando com uma esquisita!

-Lilith, desculpe o Marcão. Ele...

-Ele é um grosso! E um chantagista! Por que está me chantageando? O que você quer? Não é coisa simples, percebo isso!

Marcão esfregou a face dolorida e falou:

-Desculpe, Lilith. Eu não devia ter falado assim. Bem, deixe eu falar. O Alfredinho e eu faremos um ritual para afastar espíritos obcecados e vingativos.

-Isso é idiotice, Marcão. E um perigo. Já ouviu falar de exorcismo?

-Claro, Lilith. Quem não viu O Exorcista?

-Pois bem. Não é qualquer padre que pode expulsar demônios! Apenas os que se especializaram, porque o exorcismo é muito perigoso.

-Pois o ritual que faremos, Lilith, requer um médium com alto grau de sensitividade. Poucos o possuem, Lilith, mas você o tem.

O rosto de Lilith se converteu numa máscara de fúria. Ela balbuciou:

-Se-seus dois covardes desgraçados! Não podem me obrigar! Eu nunca quis participar desses rituais!

-Calma, Lilith, pense bem. Se você nos ajudar, o José Afonso para de perturbar a todos nós. opinou Alfredinho.

-E mais, gatinha. Ou você nos ajuda ou eu espalho seu segredo.Marcão a olhou com ar vitorioso.

-Vocês não têm prova. Será minha palavra contra a de vocês. Lilith ergueu o queixo, desafiando-os.

-Mas todos adorarão ter mais o que falar sobre você, não?Marcão lhe devolveu o olhar.

-Isso não está certo! Não podem me chantagear assim! E vão mexer com os espíritos usando um ritual pego da Internet?! Nem sabem se o site é sério!

Marcão lhe segurou o queixo, obrigando-a a olhar bem nos olhos dele.

-Lilith, pense bem. Você nos ajuda e, se tudo der certo, o José Afonso vai embora e nós ficamos em paz. Se você não nos ajuda, eu espalho na Internet. E você sabe como o povo não quer saber se é mentira ou verdade.

Uma lágrima desceu do olho de Lilith, que xingou Marcão:

-Cachorro nojento! Eu devia...

Alfredinho teve pena dela, que parecia muito vulnerável e abatida. Pôs a mão no seu ombro.

-Lilith, nós não queremos seu mal. Só queremos ter paz.

Marcão resolveu falar com brandura:

-Olha, Lilith. Eu imprimi o ritual e, se fizermos tudo certo, nada dará errado. Eu cuidarei disso.

-Por isso mesmo eu não estou segura.

Alfredinho e Marcão se entreolharam e o último riu amarelo, comentando:

-Você tem uma língua afiada, gatinha.

-Como posso confiar em vocês dois depois de todas as burradas que fizeram?

-Tudo bem, princesa. Mas você vai ou não vai nos ajudar? Marcão levantou as sobrancelhas, impaciente.

-Está bem, eu vou.deu-se por vencida.

-Sabíamos que nos ajudaria, princesa.

-Não enche, Marcão. Vocês me chantagearam, foi golpe baixo.

-Calma, Lilith. Logo, tudo vai acabar.prometeu Alfredinho.

-E ninguém mais vai lhe perturbar, gatinha. Alfredinho, vamos voltar para a sala.

Lilith os viu se afastar, tomada por um mau pressentimento. Olhou à sua direita e falou baixo:

-Por que você está rindo? Isto não é brincadeira!

Um rapazinho que passava longe viu e comentou com um colega:

-Aquela ali não é a doida da Lilith?

-É sim.

-Eu acabei de vê-la falando sozinha.

Os garotos saíram rindo, sem ver que Lilith os percebera e os observava.

-Não sei o que diziam de mim, mas não era algo bonito.

terça-feira, 14 de abril de 2026

O fantasma da velha escola - 10



No intervalo, Marcão e Alfredinho procuraram Lilith, que os rechaçou:

-Não venham me incomodar!

-Lilith - Marcão fingiu não ouvir - o José Afonso ainda aparece para você?

-Não vou responder!

-Talvez fosse melhor você dizer, gatinha. A gente nota de longe que você está cansada.

Com raiva, Lilith respondeu:

-E por que vocês querem saber?

-Lilith, o Alfredinho contou que o José Afonso lhe disse que não nos queria no velório. E eu sonhei com ele! Foi um sonho horrível! Por que fazer segredo, menina? Nós três estamos metidos nisso!

Lilith pareceu se ofender com as palavras de Marcão, respondendo:

-Eu estou metida nisso?

Alfredinho apoiou Marcão:

-Você está tão envolvida quanto a gente sim, Lilith.

-Afinal, você podia ter se calado, não podia? Por que foi nos dizer que o José Afonso apareceu para você?

Marcão viu que Lilith ficara furiosa, pois os olhos escureceram de repente, fixando-se nele de forma desafiadora.

-E vocês podiam não ter feito a burrada que fizeram, não podiam? Por que foram lá? Agora, a menina quer mais almas lá!

-Como é? os rapazes se assustaram.

-Não vou dizer mais nada!

-Lilith, por favor.Marcão a segurou.

A menina falou com raiva:

-A menina morta matará qualquer um quer for à velha escola. Depois que matou o José Afonso, quer matar mais.

-E o José Afonso?

-Ele quer assombrar vocês até dizer chega. No velório, eu pedi a ele que desistisse, mas ele não mudará de ideia tão cedo.

Alfredinho resolveu contar o sonho que tivera com José Alfredo. Quando ele terminou, Lilith tinha um ar preocupado que Marcão não deixou de perceber, principalmente enquanto Alfredinho narrara sobre a canção que José Afonso cantara sobre Alfredinho virar uma caveirinha.

-Lilith, o que será que isso significa? Alfredinho estava angustiado?

-E-eu não sei.

-Meu Deus- Marcão sentou no banco - será que ele vai nos torturar para o resto da vida? Lilith, não há nada que possamos fazer? Você podia...

-Marcão, Alfredinho, eu já pesquisei sobre isso e digo uma coisa: não devemos mexer com o mundo espiritual. Portanto, não se metam. Qualquer coisa que fizerem na tentativa de resolver o problema só servirá para piorá-lo.

-E vamos deixar o José Afonso nos perturbando?

-Cale a boca, Marcão. O José Afonso anda me atormentando de uma maneira que beira o insuportável. Lilith se levantou e saiu de perto deles.

Sozinhos, eles ficaram olhando um para o outro.

-Que vamos fazer, Marcão? O José Afonso está muito furioso!

-Bem, a Internet tem tudo, não é?

-Que está pensando em fazer?

-Qualquer coisa.

-Mas não será perigoso?

Nos dias que se seguiram, Marcão e Alfredinho foram tendo pesadelos. Em um deles, além de ver um José Afonso decomposto, Alfredinho ouvia uma risadinha de menina, maliciosa e zombeteira. Depois, uma vozinha perversa dizia:

- Venha, Alfredinho, venha ficar conosco. É divertido.

E Alfredinho, sem entender, andava até à escada, puxado por um poder irresistível, parando ao ver o corpo de uma menina de uns oito anos, caída de lado e vestindo um uniforme escolar. A menina tinha cabelos longos e escuros, era alta e de pernas longas. Alfredinho despertou gritando.