domingo, 31 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 16


 



Marcão e seus pais voltaram para casa sem trocar nenhuma palavra. Ao entrarem, o pai disse:

-A gente se mata para educar os filhos e eles fazem isso! Marcos, como você foi fazer um ritual pego da Internet? Viu o perigo?

-Eu queria ter paz, pai.

-E se a menina morresse, meu Deus? Eu nunca pensei que você fosse capaz de ser tão idiota, inconsequente e covarde! Eu vou gastar um dinheirão para pagar os vidros quebrados, mas saiba de uma coisa: você vai ficar sem smartphone para ajudar a pagar o prejuízo!

-Pois quer saber, pai? Pode parar de me dar mesada, roupa e tudo o mais! Todas as noites, o José Afonso me assombra em sonhos, acusando-me de covarde e traidor! O que é ficar sem dinheiro? Não é nada, comparado a não ter paz, a não poder dormir! Eu posso ficar sem smartphone, roupa nova e cartão de crédito, mas não posso ficar sem paz!

Quase em lágrimas, Marcão saiu de perto dos pais, trancando-se no quarto. A mãe começou a chorar e o marido a abraçou, lamentando:

-O que fizemos de errado, meu Deus? O que aconteceu? Ele não quis aprender nada do que ensinamos?

-Querido, que faremos quanto à história do fantasma? José Afonso está assombrando o nosso filho e ele não está suportando!

-Não sei, meu bem. Sei apenas que estou totalmente perdido.

Ajoelhado no chão do seu quarto, Marcão escutara a conversa dos pais e falou:

-Muito bem, José Afonso, você conseguiu, não foi? Acabou com a minha vida! Que você pode dizer? Que eu mereço, porque não presto? Está certo, eu não presto, mas você também não, seu fantasma desgraçado! Se eu soubesse que você seria capaz de ser tão vingativo e cruel, eu nunca teria sido seu amigo! Eu odeio você, seu fantasma de merda!

Passou o resto da noite jogado na cama, pensando em como tudo que começara com uma tola brincadeira destruíra todos os alicerces de sua vida. Quem confiaria nele, sabendo o que ele fizera? Este infeliz episódio se tornara uma nódoa, como as marcas na pele de um leproso ou a cicatriz de um ferimento profundo. Nem seus pais confiavam mais nele. Tinham-no, e com razão, como um covarde incapaz de socorrer os amigos e de enfrentar as consequências de seus atos.

"Meu Deus, eu não consigo pensar que vou viver com isso o resto da minha vida! Antes morrer para me libertar deste peso!"

Não! No que ele estivera pensando? Em se matar? Estaria caindo na artimanha de José Afonso ou cedendo a uma tentação covarde? Encolheu-se, chorando.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 15


 


-Eu quero saber o que aconteceu! Quem são vocês e por que a Lilith está tão... abalada?

-Querida, como ela está?

-Esgotada e assustada. Tive de dar um calmante a ela.

-Escute, querida, melhor você se sentar, porque o que vou contar parece impossível.

-Certo mas- olhou Marcão e Alfredinho com ar inquisidor- quem são vocês e por que os vidros da casa quebraram assim?

-Vou explicar tudo.

Marcão e Alfredinho ouviram o pai de Lilith contar tudo, desde as visões da filha aos quatro anos de idade até o ritual daquele dia. Quando ele terminou, a mulher falou:

-C-como?!Mas isso não é possível! Jônatas, essa história é totalmente absurda!

-Não, querida, não é. Tudo isso tem acontecido com nossa filha desde os quatro anos.

A mulher cobriu o rosto com as mãos, chorando.

-E nós sempre nós perguntamos qual o problema com a Lilith! Não entendíamos o porquê dela gritar durante a noite ou se esconder debaixo da cama com a lanterna acesa e perguntamos ao terapeuta infantil o que podia ser! Ele falou que podia ser medo do escuro e que era normal na idade dela! Vocês deviam ver- olhou com ar reprovador para os rapazes- como é para os pais ver que a filha deles não consegue se enturmar! Achávamos que fosse inadequação e sentimento de rejeição por pensar que os pais de verdade não a quiseram!

O pai continuou:

-Sempre tentamos fazer com que a Lilith visse com que a amamos como se fosse nossa filha de verdade e não entendíamos o que havia com ela. Eu pensava que fosse depressão e me preocupei mais quando ela começou a se vestir só de preto. Mas o terapeuta disse que provavelmente era só fase e nos aconselhou a não proibir. Recentemente, estávamos com medo de que ela estivesse com anorexia nervosa, não, querida?

Os pais de Lilith falavam mais para si mesmos, não dando muita atenção a Marcão e Alfredinho, que estavam embaraçados.

A mãe secou os olhos e olhou para eles, raivosa:

-Seus dois idiotas! Vejam o que fizeram! Eu nem quero imaginar o que podia ter acontecido com a minha filha!

-Senhora, nós... Marcão começou.

-Cale-se, rapaz! Você tem sorte de não ser meu filho, senão eu lhe daria uma surra! cortou o pai de Lilith.

Os pais de Marcão vieram e perguntaram:

-O que aconteceu?

O pai de Lilith se apresentou e lhes pediu que sentassem.

-Não querem tomar algo? perguntou a mãe de Lilith.

-Não, senhora, obrigado.

A mãe de Marcão olhou para os vidros quebrados espalhados pela casa, sem entender o que acontecera e se perguntando de que maneira seu filho, que estava de cabeça baixa, poderia estar envolvido naquilo.

Devagar, o pai de Lilith começou a contar tudo ao casal surpreso e incrédulo. A mãe olhou para Marcão, aflita:

-Marcos, meu filho, é verdade?

Marcão continuou de cabeça baixa, sem coragem de olhar seus pais, que escutavam a história horrorizados. O pai dele protestou:

-Não, eu não acredito que vocês fizeram tamanha burrice! Crescem para quê? Fale alguma coisa, Marcos, fale!

Marcão não falou e o pai de Lilith disse a Alfredinho:

-Fale da visita que minha filha fez à sua casa, rapaz.

Envergonhado, Alfredinho falou da visita e da conversa que tivera com Marcão.

-Isso não é possível! a mãe de Marcão não queria acreditar.

Ouviram a campainha. Era a mãe de Alfredinho, que também se assustou com os vidros quebrados. A mulher se adiantou:

-Tenho certeza de que meu filho não fez nada de errado. Foi um engano.

Os pais de Lilith e Marcão a puseram a par de tudo, mas ela não quis acreditar.

-Não, meu filho Alfredo é um rapaz maduro. Jamais se envolveria com isso. E que história é essa de gente morta? Isso é impossível! Alfredo não é de fazer isso!

O pai de Marcão falou:

-Eu também não consigo acreditar que tudo isso aconteceu.

Marcão resolveu falar:

-Mas é tudo verdade, pai. Veja o ritual. deu um papel ao pai, que o leu de olhos arregalados.

Curioso, o pai de Lilith pegou o papel e, após lê-lo, vociferou:

-O médium que participa do ritual põe sua vida em risco?! A Lilith sabia disso, rapaz?

Envergonhados, os rapazes balançaram as cabeças negativamente.

-Meu Deus, Marcos! Veja tudo o que aconteceu! Vocês foram a um lugar abandonado de noite, deixaram o José Afonso morto ali, não contaram a ninguém e ainda fizeram essa porcaria de ritual?! Fale alguma coisa, Marcos! O José Afonso era seu amigo e você fez isso? E ainda fez essa menina correr perigo?

A mãe de Alfredinho se revoltou:

-Meu filho é um bom menino, não tem culpa de nada! A culpa - olhou para Marcão - foi sua e do seu amigo, que estavam cheios de más intenções! Meu Alfredinho foi uma vítima em toda essa história! E também posso dizer que foi culpa dessa menina!

-O quê?! os pais de Lilith se enraiveceram.

-Eu já vi sua filha muitas vezes ao deixar ou pegar meu filho na escola e ele me falou que a chamavam de doida. Aliás, qualquer um vê que ela não tem o juízo certo! E que pessoa em seu juízo certo ficaria falando de fantasmas para assombrar os outros como ela fez? Assombrou o meu filho!

-Senhora, está na minha casa! Não tem o direito de ser grossa! gritou o pai de Lilith.

-Sou mãe e vou defender meu filho! Ele me falava muito que esse rapaz - encarou Marcão com raiva - e o rapaz morto zombavam dele, chamando-o de nerd. Tinham inveja,isso sim, porque meu filho era o primeiro da turma e eles sempre foram péssimos alunos!

-Senhora - o pai de Marcão tentou contemporizar - todos erraram nessa história. Meu filho errou, o José Afonso errou e o seu errou. Se meu filho fazia bullying com o seu, peço desculpas por isso e também me envergonho, porque eu o ensinei a respeitar os outros e vejo que ele não quis aprender, mas não use isso para diminuir a responsabilidade do seu filho nessa história. Ninguém mandou seu filho ir à escola abandonada ou tomar parte num ritual. Ele é um rapaz crescido e tem que ser responsável pelo que faz.

-Pois eu vou embora daqui! Alfredinho, vamos para casa!

Assim que Alfredinho e a mãe se foram, o pai de Marcão perguntou ao de Lilith:

-Contamos aos pais do José Afonso?

-Não, melhor que não saibam. Apenas sofreriam mais.

-Quero que me passe a conta do prejuízo, por favor. observou os cacos de vidro espalhados pela casa.

-Não se preocupe com isso. Eu só quero que seu filho não chegue mais perto da minha filha.

-É uma exigência justa. Bem, nós vamos embora. Marcos, vamos.

Sempre de cabeça baixa, Marcão foi embora com os pais.

Vendo os vidros quebrados, os pais de Lilith concordaram em recolhê-los. De todos os problemas com que teriam de lidar, aquele, sem dúvida, era o menos grave.

-Precisamos pensar em como ajudar a Lilith, Jônatas.

-Antes de tudo, mostremos a ela que não está sozinha e que nós a apoiaremos sempre.

Passaram pelo quarto de Lilith. Ela dormia.


terça-feira, 19 de maio de 2026

O fantasma da velha escola -14

 




-Marcão, será que ela...

-Vamos ver! aproximou-se dela.

-Meus Deus, todas as janelas quebraram! O que faremos?

Marcão viu que Lilith respirava e tinha pulso.

-Ela está viva! Lilith, Lilith!

Sacudiram-na e ela abriu os olhos, confusa. Sua palidez era assustadora e lágrimas escorriam das laterais dos seus olhos.

-Lilith, você está bem? indagou Marcão.

Lilith olhou para os dois, atordoada e, repentinamente, começou a chorar de forma desesperada.

-Calma, Lilith. pediu Alfredinho.

Os dois, debruçados sobre Lilith, não viram nem ouviram o pai dela chegar e abrir a porta, deparando-se com um horrível espetáculo: a filha estendida no chão, dois desconhecidos ajoelhados ao lado dela e todas as janelas quebradas.

-Seus desgraçados! Que estão fazendo com minha filha?

Assustados, Marcão e Alfredinho saíram de perto dela. O pai se aproximou, preocupadíssimo.

-Lilith, querida, o que aconteceu? Que fizeram a você?

Um pouco mais calma, Lilith respondeu:

-N-não foram eles...

Com ar severo, o pai de Lilith olhou para os rapazes e perguntou:

-O que aconteceu aqui? Por que as janelas da minha casa estão quebradas e a minha filha está assim?

-P-pai, e-eu p-posso ex-explicar...

-Calma, vamos para o quarto. Vocês dois esperem aqui, porque vou querer uma explicação!

Com muita delicadeza, o pai pegou a filha nos braços, carregando-a até o quarto, onde ficaram conversando por um longo tempo e, durante esse tempo, Marcão e Alfredinho esperaram sentados no sofá, sem ousar dizer nada. Escutaram o pai abrir a porta e falar:

-Está tudo bem, querida. Vou ligar para a sua mãe e chamá-la.

-Pai, está zangado?

-Não, eu entendo. Fique deitada. Está tudo bem.

-E os rapazes?

-Vou conversar com eles. Descanse, certo?

Viram o pai sair e fechar a porta do quarto, indo até onde eles estavam. Encolheram-se. Ele era um homem muito alto, de cabelos grisalhos e barba bem-aparada.

-Co-como ela está?atreveu-se Marcão.

O rosto do homem era uma esfinge.

-A Lilith vai ficar bem? perguntou Alfredinho.

-Quem de vocês é o Alfredinho?

-Eu. respondeu Alfredinho.

-Então, você é o Marcão. o homem voltou-se para Marcão.

-Sim, sou eu.

-O que a Lilith me contou é difícil demais de digerir.

-O-o que ela contou ao senhor? Marcão não ousava olhá-lo nos olhos.

-Ela me contou sobre o... que ela tem visto desde os quatro anos e me falou sobre o fantasma da menina, o que assombra aquela escola e o que aconteceu com o José Afonso. Então, você e o José Afonso queriam pregar uma peça uma peça no Alfredinho, não é? a voz engrossou.

Marcão baixou a cabeça, e o homem insistiu:

-Responda, rapaz!

-Sim, a gente queria pregar uma peça no Alfredinho.

-Agora, você, Alfredinho. A Lilith avisou para você não ir à escola, não foi?

-Foi, senhor.

-Fale-me o que ela disse e o que ocorreu na velha escola. Aliás, quero que me contem tudo.

Alfredinho contou sobre o aviso de Lilith para que ele não fosse à velha escola, a morte de José Afonso e a visita que Lilith fizera à sua casa.

O pai de Lilith escutou com o rosto inexpressivo. Depois, perguntou:

-A Lilith disse a vocês dois que o José Afonso queria ser enterrado, não é?

-Sim, senhor. responderam os rapazes.

-Mas pelo visto, vocês não iriam fazer nada e o corpo do José Afonso iria apodrecer lá se ela não tivesse ligado anonimamente para a polícia, eu suponho. a voz demonstrava asco.

-Senhor, queremos que entenda que...

-Quero que continuem contando a história!

Vendo o olhar do pai de Lilith fixo sobre ele, Alfredinho contou que Lilith o procurara no velório de José Afonso para avisar que o morto não queria Marcão e ele no funeral.

-A Lilith me contou que o morto falou com ela no velório. Sabe, naquele dia, a mãe e eu a ouvimos falando com alguém e não entendemos. Ela não quis dizer o que era no dia, mas disse hoje que ele estava dizendo que assombraria vocês até o fim de suas vidas.

-Ele estava fazendo isso, senhor. adiantou-se Marcão.

-Como?

Marcão e Alfredinho foram contando tudo sobre os pesadelos. Nesse tempo, a mãe de Lilith chegou e, ao ver os vidros quebrados, assustou-se.

-Jônatas, o que é isso? O que houve com a Lilith?

Ele foi até a mulher e pediu:

-Querida, sei que é tudo muito estranho, mas prometo que vou explicar. Agora, vá ficar com a Lilith.

-Ela...?

-Ela está bem.

A mulher foi ao quarto de Lilith e o homem, olhando os vidros quebrados, falou:

-Agora, expliquem o que foi isso na minha casa!

-Bem, senhor...

-Falem, eu estou esperando! Não escondam nada, entenderam? Quero a verdade e não tentem mentir!

-Nós resolvemos fazer um ritual para afastar o espírito do José Afonso. esclareceu Marcão.

-E o que vocês são para fazer isso? Padres, exorcistas? Têm ideia do que fizeram? Mas como a Lilith se envolveu nisso?

-O ritual precisa de um médium, senhor.

-E minha filha entrou nisso por vontade dela?

Os dois se entreolharam e o homem os pressionou:

-Ela quis participar disso?

-Hum... os dois não ousaram responder.

-Ou vocês fizeram chantagem para convencê-la, dizendo que, se ela não concordasse, espalhariam o segredo dela, não? Não precisam se preocupar, ela falou que até disse a você, Marcão, que você não poderia provar, mas você disse que todos na escola adorariam ter mais uma razão para chamá-la de esquisita! Você disse isso?

-Senhor, eu não pretendia fazer isso, juro! A gente estava desesperado para se livrar do problema. Não temos nada contra a Lilith. jurou Marcão.

-Certo, vocês não têm nada contra ela, o que não os impediu de usar o ponto fraco dela para envolvê-la nessa burrada! Aliás, essa história começou com uma burrada sem tamanho! Como vocês saem à noite, escondidos de suas famílias, para ir a um lugar abandonado? Vejam o que houve! O rapaz está morto! Morto numa idade em que tinha toda a vida pela frente! Meus Deus, vocês não são criancinhas! Como foram fazer uma idiotice dessas? E depois tentam resolver com outra burrada, envolvendo minha filha? Ela não tem nada a ver com o grave erro que o rapaz morto e vocês cometeram! E de onde pegaram esse ritual?

-Da Internet. confessou Marcão.

-Da Internet?! Vocês pegam um ritual da Internet, com quem pega uma receita de bolo, sem saber o perigo?

-Tomamos as precauções necessárias para nos protegermos. protestou Alfredinho.

-É - o homem olhou ao redor, os olhos cheios de ironia - vejo que tomaram! - Olhem a minha casa, vejam como a Lilith está!

-O-o que o senhor vai fazer?

-Vou chamar os pais de vocês e eles vão saber a verdade!

-Não, por favor! imploraram os rapazes.

-Vejam o que fizeram com a minha filha! Tudo porque foram burros de ir de noite a uma escola abandonada e depois, covardes para enfrentar as consequências dos seus atos!

Marcão estava quase chorando ao dizer:

-Senhor, todos os dias, eu sinto culpa por ter deixado meu amigo para trás.

O pai de Lilith não se comoveu.

-Sua culpa não o impediu de silenciar sobre o que houve com seu amigo e fazer o que fez com minha filha!

-Mas senhor, isso causará muito sofrimento a nossos pais! Alfredinho tentou argumentar.

Irredutível, o pai de Lilith mandou que os jovens fizessem os telefonemas e, pouco tempo depois, a mãe de Lilith desceu, o olhar de quem exigia explicações.

domingo, 10 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 13



O fantasma da velha escola - 13

Terminada a oração, Marcão molhou as mãos na água, aspergindo Lilith, Alfredinho e a si mesmo. A menina estava calma, mas Alfredinho parecia nervoso. Marcão lhes disse:

-O que eu disser, vocês repetem. Agora, vamos nos dar as mãos e fechar os olhos.

-Ok.concordou Alfredinho.

Deram-se as mãos e fecharam os olhos e Marcão começou:

-Nós lhe pedimos, pobre espírito atormentado, se estiver entre nós, manifeste-se. Chamamos a você para que reencontre o caminho da paz.

Pareceu aos jovens que o ar se tornara pesado, porque sentiram muito peso nos ombros. A mão de Alfredinho tremeu e Marcão continuou:

-Manifeste-se, pobre espírito atormentado. Mostre-nos que está entre nós, pois desejamos que dê um sinal da sua presença.

De repente, as mãos de Lilith agarraram as de Marcão e Alfredinho com força e eles perceberam que se contorciam. A água na jarra se agitou e a chama da vela se intensificou. Marcão controlou o medo e bradou:

-Se está entre nós, pobre espírito, diga seu nome e o que deseja.

As mãos de Lilith soltaram as deles, que abriram os olhos, assustando-se com o que viram: os olhos dela estavam brancos como se houvessem entrado nas órbitas. Ela mexeu os lábios, falando:

-Por que me chamaram?

Os dois se assombraram. Era a voz de José Afonso! Marcão começou:

-Ó espírito errante,

que entre os dois mundos caminha,

pedimos que diga o seu nome.

Lilith gargalhou uma gargalhada grossa e falou:

-Vocês não sabem quem eu sou, seus dois animais? Vocês me deixaram para trás!

-Diga-nos seu nome!insistiu Marcão.

-Não precisam que eu diga meu nome. Precisam é sentir medo!

-Pedimos que se dispa dos sentimentos de raiva ou ódio que porventura o prendam ao mundo material, pobre espírito atormentado.disseram Marcão e Alfredinho.

-Calem-se, seus dois covardes mentirosos!o rosto de Lilith se contorceu e ela se levantou da cadeira, andando até Marcão, que quase fugiu, mas ficou sentado e pediu:

-Sente e nos fale o que o atormenta.

Lilith avançou até Marcão, gritando com a voz de José Afonso:

-Cale-se, Marcão! Nós éramos amigos, mas você abandonou o meu corpo ali! Você e esse outro covarde! Como pude acreditar na sua amizade, Marcão?

Alfredinho tremia de puro pavor e Lilith sorriu:

-Veja você, seu nerd covarde! No final, eu provei que estava certo a seu respeito, não? Você é mesmo um covarde!

Marcão se sentiu atingido pela culpa por ter traído José Afonso, entretanto, dominou-se e continuou:

-Pai, Senhor Supremo,

acolhe com Teu infinito

amor essa alma perdida

e tão necessitada

de Tua misericórdia.

Lilith avançou contra Marcão, apertando-lhe a garganta. Ele lutou, mas a força dela era imensa. Alfredinho tentou ajudá-lo e Lilith o esmurrou, fazendo-o cair no chão. A voz de José Afonso saiu cheia de ódio:

-Seus dois merdas inúteis! Pensam que podem manipular o mundo espiritual conforme sua vontade? Vocês são dois imbecis, mexendo com forças desconhecidas! Eu vou acabar com vocês! E vou levá-los para a velha escola, onde ficarão comigo e a menina! Ela quer companhia!

Marcão mal conseguia respirar, mas conseguiu falar para pedir:

-José Afonso, por favor, perdoe-me. Eu não devia ter fugido. Eu sei que fui covarde.

Alfredinho também pediu:

-Perdoe-me, José Afonso.

A resposta foi uma gargalhada amarga.

-Eu precisei morrer para saber quem vocês são, não é? Se a Lilith, cujo corpo estou ocupando, não houvesse feito a ligação anônima, meu corpo teria apodrecido ali e meus pais nunca saberiam o que tinha acontecido comigo! Vocês seguiriam vivendo suas vidas, seus dois ratos!

Estranhamente, uma força pareceu puxar as mãos de Lilith da garganta de Marcão e a voz que saiu foi a dela:

-P-pare, José Afonso, por favor! V-você está indo longe demais!

Marcão e Alfredinho ficaram paralisados de puro pavor. Lágrimas desciam dos olhos de Lilith, que suplicou:

-Saia de dentro de mim, José Afonso!

Então, Lilith se contorceu, dando um rugido animalesco que petrificou os dois rapazes. Quando ela abriu a boca, a voz era a de José Afonso:

-Cale a boca! Você viu o que eles fizeram comigo, Lilith! Eles vão ficar sem punição?

Lilith se dobrou sobre si mesma, gemeu e rugiu e pediu com voz chorosa:

-E eu, José Afonso? Que eu tenho a ver? Eu ajudei você, não ajudei? Acabar com eles vai mudar algo?

Alfredinho foi se esconder atrás de um sofá, tentando não ceder ao medo que o sufocava. Marcão, sentado no chão, não ousava se mexer. A voz de José Afonso ecoou, alta e soturna:

-Eu estou morto e estes desgraçados estão vivos! Vão seguir suas vidas enquanto nunca realizarei meus sonhos? Deixaram-me para trás e nem quiseram saber se eu estava vivo! Eu queria que sentissem o que senti: abandono, solidão e todas as minhas esperanças destruídas!

O corpo de Lilith se contorceu de novo e ela gemeu dolorosamente, falando com sua própria voz:

-José Afonso, liberte-se de sua raiva! E pense nisso: quem foi responsável por sua morte? Foi a menina! E por quê? Porque ela não suporta ver os outros vivos enquanto ela está morta! Mas quem teve culpa da morte dela? Ninguém! Ela caiu sozinha! José Afonso, pare com essa vingança irracional! Quer ser como a menina?

A voz de José Afonso soou conformada:

-Está bem, vou parar agora. Mas Marcão, saiba que não mais considero você alguém que se possa chamar um amigo! Alfredinho, você é um bosta covarde! Vivam o resto das suas vidas sabendo que não valem nada!

Lilith se ajoelhou e gritou, desabando como um saco vazio. Marcão e Alfredinho foram se aproximando, mas recuaram ao vê-la levantar e gargalhar, fitando-os com um olhar maligno.

-Lilith?! É você? perguntou Marcão.

Uma voz infantil respondeu:

-Não, eu não sou a Lilith. Sou a menina que caiu da escada. Querem brincar comigo?

-Ahh!gritou Alfredinho.

-Cale a boca, seu frouxo!gritou Marcão.

-O que vamos fazer? A menina veio aqui!

-Venham brincar comigo.

Marcão encarou Lilith, aterrorizado. Que faria? O ritual não dera certo, como ele pudera ver.

-Vá embora, seu fantasma! Não queremos brincar com você! Você matou o José Afonso!

A vozinha respondeu, chorosa:

-Eu estou sozinha, por isso, convidei seu amigo para brincar comigo, mas ele não quer! Ele diz que acabei com a vida dele! Mas eu morri, todos me esqueceram!

-O que você quer, fantasminha egoísta? Que todo mundo morra porque você está morta? Não! A vida segue! Quer que tudo pare por você estar morta? revoltou-se Marcão.

Lágrimas desceram dos olhos de Lilith que, parecendo fazer um esforço descomunal, bradou:

-Saia de dentro de mim! Saiaaaaaaaaa!

Logo depois, os lábios de Lilith deram uma gargalhada aguda e perversa e a vozinha falou:

-Está bem, Lilith. Vou sair de dentro de você. Lembra de quando você passou em frente à velha escola e lhe chamei para brincar comigo? Você não quis, não foi? Pois vou fazer você sofrer um pouquinho antes.

Então, Lilith gritou a plenos pulmões:

-Saaiiaaaaaaaa!!!

Petrificados, Marcão e Alfredinho perguntaram-se se o que viram era real: Lilith, ajoelhada, de olhos arregalados e lacrimejantes, berrando como uma possuída enquanto os vidros da casa se quebravam.

-Q-que está a-acontecendo? As janelas, os objetos de vidro...

Ao final, Lilith caiu no chão, desmaiada. Marcão e Alfredinho mal respiravam.

 

domingo, 3 de maio de 2026

O fantasma da velha escola -12





Marcão e Alfredinho resolveram estudar juntos o ritual para ter certeza de que não errariam. Alfredinho resolveu confessar:

-Sabe Marcão, e se isto que pretendemos fazer não for mesmo uma burrada?

-Resolveu amarelar agora, seu bosta?

-Não é isso, é que esses rituais nunca são seguros. A Lilith está certa, afinal, estamos mexendo com o mundo espiritual.

-É um risco que temos que correr, Alfredinho.

-Eu me lembrei de uma história que um primo meu contou.

-Como ela é?

-Já ouviu falar desses tabuleiros ouija?

-Sim, já assisti a filmes em que essa coisa aparece.

-Houve um filme em que eu vi que a protagonista usa a tábua ouija e depois um dos personagens a alerta que essas tábuas teriam tido antes o nome de tábuas de bruxas, porque as bruxas as usariam para chamar os demônios.

-E...?Marcão grunhiu, aborrecido.

-Aqui, no Brasil, o mais comum é o jogo do copo, que é uma variante da tábua ouija.

-Sei.

-Meu primo conheceu uma pessoa que gostava de fazer esse jogo e que...enlouqueceu.

-É?Marcão disfarçou a custo o medo.

-É. Marcão, se você quer desistir, estamos em tempo. Talvez haja outra solução...

Disfarçando a intranquilidade, Marcão cortou:

-Eu não vou desistir!

-Onde pretende fazer esse ritual? Na velha escola?

-Não se fala de nenhum lugar específico, por isso faremos na casa da Lilith.

Os olhos de Alfredinho se arregalaram.

-Marcão, será que aí já não é...

-Quer fazer na sua casa?

Diante do tom sugestivo de Marcão, Alfredinho resolveu:

-Certo, será na casa dela. Como faremos?

-Eu vou falar com ela e trato de convencê-la.

Alfredinho olhou para Marcão.

-Que é, Alfredinho?

-É que eu... não consigo deixar de pensar que não estamos sendo legais com ela. Veja, Marcão, quando ela soube que pretendíamos ir à velha escola, ela se preocupou em me alertar, e depois, ajudou a achar o corpo do José Afonso. E a gente, desde o início, não fez nada certo.

O rosto de Marcão ficou sombrio e ele concordou:

-É, não estamos sendo legais, mas não se trata de nada pessoal.

-Ela sabe que porá a própria vida em risco?

-Não, eu não falei.

-Eu não quero que nada aconteça a ela, que não fez nada de errado.

Marcão olhou para Alfredinho e pegou seu celular, ligando para o de Lilith.

Lilith atendeu com raiva e respondeu:

-Alô, Marcão.

-Lilith, você tem como dizer a seus pais que uns amigos vão estudar na sua casa?

-Tenho. Mas vocês não vêm aqui para estudar, não é?

-Você passa as tardes em casa?

-Passo. Mas diga uma coisa: isso demora?

-Não demora muito, eu garanto. Se tudo der certo, terminaremos antes de seus pais voltarem e todos nós estaremos livres.

-Certo.Você pode vir amanhã. Tchau.

-Tchau.

Lilith desligou e Marcão disse:

-Alfredinho, vai ser amanhã. Esteja preparado.

-Você está preparado, Marcão?

-O que você pensa?

Sabendo o que Marcão queria dizer, Alfredinho se calou.

Na sexta-feira, Marcão e Alfredinho mal prestaram atenção às aulas e não procuraram Lilith, que agiu como sempre. Depois, as aulas acabaram e Marcão ligou para casa, dizendo que iria estudar na casa de Alfredinho, o qual não se preocupou em ligar para sua mãe porque ela passava o dia fora.

Os dois viram Lilith indo embora e Marcão a chamou:

-Lilith.

Ela os olhou e perguntou:

-Já?

-Sim.respondeu Marcão.

-Vou pegar o ônibus. Vocês têm como pagar suas passagens?

-Temos.

-Então vamos.

Alfredinho notou que Lilith emagrecera e pensou:"Será que ela vai sobreviver a um ritual desses?"

Esperaram o ônibus, que não demorou muito. Lilith sentou perto do local de saída e Marcão e Alfredinho sentaram no banco atrás.

-Lilith - Alfredinho tentou cortar o gelo - você está com medo?

-Estou.

-Mas não precisa - respondeu Marcão - vai dar tudo certo e José Afonso nos deixará em paz.

-Você tem certeza demais não?rebateu a menina.

-E você sempre sabe dar uma resposta, não? sorriu Marcão.

-Bem, não vamos discutir. resolveu Alfredinho.

Desceram quando Lilith disse que haviam chegado. Não tiveram que andar muito até à casa dela, um sobrado simples. Ela abriu o portão.

-Hoje, meu pai volta cedo. Então, sejamos rápidos.

-Qual a profissão do seu pai, Lilith?perguntou Marcão.

-Ele é professor universitário no curso de Engenharia Elétrica.

-E sua mãe?interessou-se Alfredinho.

-Ela é terapeuta ocupacional.Bem, querem comer algo?

-Não, comemos na escola.

-Entremos.

Havia uma mesa pequena na sala de jantar. Marcão decidiu, pondo nela o livro de José Afonso:

-Será aqui. Lilith, será bom que você tome um banho e ponha roupas claras. O médium tem que estar limpo.

Lilith mandou que sentassem e foi tomar um banho, voltando pouco depois com uma roupa azul-clara. Marcão pediu que ela enchesse uma jarra com água e, quando ela voltou, falou:

-Teremos primeiro que fazer um ritual para nos protegermos, porque o que pretendemos fazer é perigoso. Vamos nos dar as mãos e fechar os olhos.acendeu uma vela.

Alfredinho e Lilith obedeceram e Marcão orou:

-Ó Santo Deus de Misericórdia,

pedimos que nos proteja

do mal, ajudando-nos a

encontrar a Luz divina

que provém da Tua Bondade

Infinita. Estende sobre nós

Tua mão poderosa e protetora.

Amém.