No dia seguinte, José Afonso voltou a provocar Alfredinho:
-Vamos, homem, aceite o desafio. Pense bem, nós vamos juntos. Eu vou filmar você e todo mundo vai saber que a história do fantasma da velha escola não passa de lenda urbana.
Pela primeira vez, Alfredinho pareceu pensar seriamente na ideia. Ele podia estar pensando na chance de deixar de ser o CDF boboca, o nerd que vivia com o nariz enfiado nos livros e se tornar o corajoso, o que tinha coragem de ir a um lugar abandonado e supostamente mal-assombrado para provar que fantasmas não existiam. Olhando bem para José Afonso, ele falou com uma firmeza que ninguém ouvira antes:
-Pois bem, vamos.
José Afonso, contendo a vontade de zombar do palerma que caíra na armadilha que Marcão e ele haviam preparado, disse:
-Ótimo, você não vai se arrepender. Vamos fazer um filme e tanto.
-Como vamos iluminar a escola? É óbvio que a eletricidade foi cortada.
-Eu vou levar uma lanterna. Não se preocupe, pensei em tudo.
"Pensei em tudo mesmo, seu paspalho", pensou José Afonso.
Quando tocou o sinal do intervalo, José Afonso foi falar com Marcão:
-O tonto topou.
-Então, vamos preparar tudo. os olhos de Marcão brilharam de maldade.
Os dois riam e riam, não vendo Lilith a espiá-los de longe. Ela vira José Afonso conversando com Alfredinho e, ainda que não tivesse ouvido o que haviam falado devido à distância, adivinhara que fora sobre o que fora ao ver a expressão vitoriosa no rosto de José Afonso. Os olhos escuros da menina adquiriram uma expressão pesarosa de quem previa acontecimentos indesejados.
À noite, José Afonso saiu às escondidas de sua casa e foi à casa de Marcão. Ligou o celular e Marcão atendeu.
-Marcão, estou aqui, como combinamos.
-Já vou.
Marcão saiu. Usava um casaco com capuz para ocultar o rosto. José Afonso perguntou:
-Fez direito a maquiagem?
-Claro, rapaz. Veja.desceu o capuz.
O rapaz usara tintas branca e preta para dar ao rosto a aparência de uma caveira. José Afonso fez o sinal de polegar para cima.
-Horrível, meu!
-Tem que ser, ou senão ele não morrerá de medo. E a câmera?
-Está aqui, escondida debaixo do meu agasalho. Agora, vamos pegar o paspalho.
Enquanto andavam, Marcão sentiu um frio estranho na espinha, o que o colocou em alerta. Por que estava sentindo aquilo? Não entendeu,principalmente depois que lhe ocorreu o inexplicável pensamento de que os destinos de José Afonso e Alfredinho estavam ligados ao dele. Afastou a ideia de sua cabeça, consciente de que precisava prestar bastante atenção para que a brincadeira desse certo.
Quando estavam perto da casa de Alfredinho, Marcão foi se esconder atrás de um muro e José Afonso ligou seu celular.
-Alô, Alfredinho? É o José Afonso. Pode vir?
-Claro. Espere.
Esperaram pouco tempo. Alfredinho abriu o portão, saindo. Carregava uma lanterna. José Afonso perguntou:
-Está pronto?
-Mais do que pronto.
-Vamos.
Foram andando e, sem que Alfredinho visse, José Afonso fez um sinal para Marcão, que foi seguindo a uma certa distância. Alfredinho esfregou as mãos e parou de andar por uns segundos.
-Que foi? José Afonso estava impaciente.
-Frio.
-Não está tão frio assim, ora!
-Mas houve outra coisa.
-Que coisa?
-Sinto que somos seguidos.
José Afonso olhou para trás, fingindo que verificava. "Diabos, ele sentiu que o Marcão está atrás de nós?".
-Não há ninguém. Vamos.
Finalmente, alcançaram a escola. José Afonso disse:
-Chegamos. Agora, vamos subir o muro. Você consegue?
Alfredinho tentou, mas não conseguiu. José Afonso se ajoelhou, colocando as palmas das mãos para cima:
-Vamos, eu lhe ajudo.
"Esse idiota não serve para nada mesmo."
Logo, Alfredinho pulou o muro e José Afonso fez um sinal para Marcão se aproximar. José Afonso subiu e pulou o muro e, reunindo-se a Alfredinho, acendeu sua lanterna e pegou a câmera.
-Pronto?perguntou a Alfredinho, que também acendera sua lanterna.
-Sim.
-Vamos à parte leste. Dizem que é onde fica a escada de onde a menina caiu.
-Certo.
Marcão escutou os passos deles se afastando e subiu o muro. Porém, quando pulou, caiu de mau jeito, torcendo o pé. Tapou a boca para não gritar de dor.
-Ai, eu não vou poder assustar o paspalho!resmungou, sentando no chão de pedra.
José Afonso e Alfredinho foram ao lugar onde ficava a escada. Não era uma escada muito grande.
-Vamos subir, Alfredinho.
As lanternas iluminavam a escuridão. Alfredinho teve o cuidado de segurar o corrimão.
-A escada tem corrimão. Só alguém muito descuidado cairia dela, José Afonso.
Haviam chegado ao primeiro andar. Viram que havia várias salas fechadas. José Afonso filmava. Esperava que Marcão estivesse aguardando no começo da escada. Viu que Alfredinho parecia sentir calafrios.
-Que foi?
-Você não sente, José Afonso?
-Sinto o quê?
-O frio.
-Não, não sinto frio nenhum.
"Que cara fraco, meu Deus! É friorento e não sabe pular um muro!"
-Aliás, Alfredinho, aqui não há nada.
-Então, vamos descer.
-Você desce primeiro. Eu vou ficar mais um pouco. Desça e me espere embaixo.
-Certo. Por que vai ficar mais um pouco?
-Quero filmar mais. Isso vai render um vídeo e tanto que vou postar no Youtube. Por acaso, está com medo de ficar só?
-Eu não. Vou descendo.
-Desça com cuidado.
"Já estou imaginando os gritos que o tonto vai dar."
Alfredinho desceu e ficou esperando, mãos se esfregando com força. Achava aquele frio estranho. Ele nunca fora friorento e estava sentindo frio como se estivesse doente. Ficou andando em círculos, esperando por José Afonso. Por que ele não descia? Foi andando mais e escutou barulhos como se fossem gemidos. Apurou os ouvidos e tremeu. Seria o fantasma da menina?
"Não, os gemidos são masculinos. E parecem os de alguém que se machucou. São gemidos de gente viva, não parecem de fantasma".
Caminhou na direção deles e viu um vulto sentado, segurando o pé e gemendo. Aproximou-se.
-José Afonso, eu torci o pé.
-Marcão?! O que você está fazendo aqui? Alfredinho reconhecera imediatamente a voz de Marcão.
-Alfredinho?!
Alfredinho iluminou o rosto de Marcão com a lanterna e, ao ver a maquiagem do colega, adivinhou tudo e a surpresa deu lugar a uma raiva imensa.
-Seu cachorro safado! Você e o José Afonso queriam me pregar uma peça, não é? Trouxeram a câmera para me filmar levando um susto! Queriam espalhar o vídeo na Internet para todos na escola zombarem de mim! Tudo só para me humilhar!
-Alfredinho, torci o pé. Por favor, me ajude.
-Por que eu deveria? Você e o José Afonso não valem nada, são dois nojentos!
-Cadê ele, aliás?
-Ficou lá em cima! Acho que está estranhando porque não me ouviu gritar de medo do fantasma fajuto do amigo dele!
-Vamos chamá-lo e ir embora. Ajude-me.
Hesitante, Alfredinho ajudou Marcão, oferecendo o ombro para ele se apoiar.
-Credo, como você pesa, seu fantasma!
-Por favor, Alfredinho, não acha que já fui bem castigado?
Caminharam devagar. Marcão se apoiava em Alfredinho, que o xingava com os piores nomes.
-Alfredinho, não judia!
Pararam ao escutar um grito de puro terror.
-Ahhhhhhhhhhh!
Entreolharam-se, apavorados. Fora José Afonso que gritara.
Logo em seguida, escutaram o barulho de um corpo caindo e, por um minuto, não conseguiram dizer nada.
-Marcão, o José Afonso caiu da escada! Temos que ver como ele está!
Não puderam fazê-lo. Um medo paralisante fizera seus pés se colarem ao chão.
-Alfredinho, será que o fantasma da menina o fez cair?
Alfredinho só conseguia pensar em Lilith. Ela havia dito que ele não fosse lá, mas ele fora. Agora, José Afonso podia estar morto.
-Alfredinho, vamos embora!
-E José Afonso?
-Se ele morreu, que vamos fazer? E o fantasma pode estar lá, à nossa espera!
Alfredinho sabia que abandonar alguém era errado, além de pura covardia. Insistiu:
-Mas, e se ele estiver vivo?
-Ele não pode ter sobrevivido! Vamos!
Embora Alfredinho soubesse que deviam ver se José Afonso estava vivo, o medo do que pudessem encontrar foi maior e ele concordou.
-Tem razão. Vamos.
Marcão, apoiado em Alfredinho, começou a sentir algo muito diferente do medo imenso: remorso. Sabia que José Afonso podia estar vivo e precisando de ajuda, mas estava abandonando o amigo. Imaginou-o estendido no chão após rolar pela escada, sozinho e desamparado, sem poder pedir ajuda enquanto agonizava. Ou morto.
Andaram e, ao chegaram perto do muro, Alfredinho precisou ajudar Marcão, o que fez reclamando:
-Você pesa demais, Marcão.
Depois, com muita dificuldade, Alfredinho conseguiu subir o muro e, depois de descer, ajudou Marcão, que pediu que o ajudasse a voltar para casa.
-Por acaso eu deveria depois do que você e o José Afonso fizeram?
-Por favor, Alfredinho.
Com má vontade, Alfredinho amparou Marcão até chegarem à casa dele. Marcão abriu o portão de sua casa e entrou.
-Obrigado.
-O que dirá a seus pais sobre seu pé torcido?
-Não sei.
-Os pais de José Afonso vão sofrer com o desaparecimento dele.
-Vão sim. O que vamos fazer?
-Não sei.
-E se chamarmos a polícia?
-Todos saberão que fugimos e o abandonamos, Alfredinho. É isso que você quer que aconteça?
-Ele é seu amigo, Marcão. Seu melhor amigo.
Os olhos de Marcão se encheram de lágrimas.
-E pensa que não estou pensando nisso? Que na hora que meu amigo precisou de mim, eu fugi como um covarde? Eu não fui capaz de ajudar o meu amigo! Vou me odiar pelo resto da minha vida!soluçou.
Pela primeira vez, Alfredinho pensou que ele também fora covarde e sentiu um nó na garganta. Disse:
-Vou para casa. afastou-se sem olhar para trás, cheio de medo e remorso.
"Coitado do José Afonso. Quis armar para cima de mim e se estrepou. E eu fui até pior do que ele. Deixei-o sozinho sem saber se ele está vivo ou morto".
Andou com passos tímidos, sabendo que estava sozinho na rua em uma hora perigosa.
"Por que eu topei? De todas as coisas idiotas que já fiz ou farei, nenhuma será pior do que esta! A Lilith me avisou! Se ela avisou, é porque ela sabe o que há naquela escola!"
Conseguiu chegar a sua casa e entrou. Sua mãe dormia no quarto dela. Entrou no seu quarto, pensando que nunca mais teria coragem de se olhar num espelho.
"Sou um monte de merda, não valho nada! Sou covarde, sou fraco!"