domingo, 22 de fevereiro de 2026

O fantasma da velha escola - 4


 



Ao acordar, surpreendeu-se por ver que dormira. Levantou-se e foi tomar o café da manhã. A mãe estranhou seu rosto:

-Meu filho, está tudo bem?

-Sim, mãe.

-Você não acordava. Pensei que podia estar doente e toquei seu rosto para ver se tinha febre.

-Por que não me acordou, mãe?

-Não vai haver aula hoje, meu filho.

-Não?! - esforçou-se para dar à voz um tom de surpresa - Por que não?

-Ligaram para mim dizendo que um colega seu está desaparecido. Alfredinho, você está pálido!

-Acho que estou doente.

-Quer que eu não vá trabalhar hoje para ficar com você?

-Não mãe, obrigado.

-Está bem, eu vou trabalhar, mas telefone se se sentir mal, certo?

-Certo.

A mãe o beijou e foi tirar o carro da garagem. Alfredinho não sabia o que faria.

O telefone tocou. Atendeu com a mão trêmula.Era Marcão, quase chorando.

-O José Afonso está desaparecido, Alfredinho! Meu Deus, ele morreu! Ele só pode ter morrido!

-Calma, Marcão.

-Como posso ter calma quando meu melhor amigo está morto? Os pais dele ligaram para casa perguntando se eu sabia de alguma coisa!

-Mas você disse que não, não é?

-Sim, disse que não, mas quase contei a verdade! Alfredinho, eu estou morrendo de vergonha e de remorso por não ter sido capaz de fazer nada por meu amigo!

-Marcão, se nós confessarmos, isto mudará o que houve? Não. O dano já está feito, Marcão. Nada do que fizermos agora vai trazer o José Afonso de volta.

Soluçando, Marcão desligou o telefone e Alfredinho ligou a televisão, sentando sem realmente assistir a nada. Gostaria de se livrar daquela horrível sensação de culpa que se enraizara nele. Como fora capaz de concordar com algo tão estúpido? Ir lá, com ou sem fantasma, era uma tremenda estupidez.

-Como fui concordar em sair de casa à noite, escondido de todo mundo, para me aventurar numa escola abandonada? Eu, que sempre me gabei de ser tão inteligente, fiz uma burrice inacreditável! E na hora do aperto, só pensei em mim, fui incapaz de ajudar quem precisava!

Pouco depois, Alfredinho escutou o interfone. Atendeu-o.

-Quem é?

-É a Lilith, Alfredinho.

-Lilith, o que veio fazer aqui?

-Eu acho que você sabe perfeitamente por que estou aqui. Melhor me deixar entrar.

O tom não era ameaçador nem severo. Apenas insistente. Mas Alfredinho sentiu medo.

-Lilith, você...

-Eu só quero conversar. Depois, você tira suas conclusões.

Alfredinho foi abrir o portão. Lilith não estava de preto nem usava maquiagem. Era estranho vê-la sem pintura e roupas pretas. Parecia nua.

-Entre,Lilith.

Entraram e sentaram no sofá. Alfredinho ficou muito tempo olhando para as próprias mãos e Lilith começou:

-Recebi o telefonema dizendo que não haveria aula.

-Horrível que o José Afonso tenha desaparecido, não é?

-Alfredinho, você sabe tanto quanto eu que o José Afonso morreu. E que vim falar sobre isso.

Um suor frio começou a pingar na testa de Alfredinho, que riu, falando com displicência:

-Lilith, você está maluca?

Lilith olhou para Alfredinho com pena e incredulidade e perguntou:

-Por que você não ficou surpreso quando eu falei que ele morreu?

-O-ora, Lilith - tentou mostrar despreocupação - o José Afonso está apenas desaparecido.

-Você sabe que foi ela que o matou. Eu avisei para você não ir lá, mas você foi.

Alfredinho ficou mudo olhando para Lilith. Ela continuou:

-Eu fui lhe avisar sabendo do risco de você me chamar de maluca e não acreditar em mim! Quem acredita numa gótica com cara de esquizofrênica?

-Lilith, o que é que você sabe? Fale. segurou a mão para que não tremesse.

-Foi ela que matou o José Afonso.

-Ela? Então...

-Realmente, há um fantasma na velha escola. Ela caiu da escada e quebrou o pescoço. O corpo foi enterrado, mas o espírito dela está lá, querendo vingança.

-Vingança?!

-Eu não falei que os mortos às vezes têm raiva até de quem não tem culpa pela morte deles? Muitas pessoas que são infelizes têm ódio dos felizes, ainda que os felizes não tenham culpa pelos seus problemas. Ela tem ódio porque sente que foi abandonada por todos e porque não fará nada do que sonhava.

-Isso não faz sentido, Lilith!

-Não faz, mas é real!

-Lilith, eu...

-Você, o José Afonso e o Marcão fizeram a maior burrice de ir lá! Agora, o José Afonso está morto e com muita raiva!

-Raiva?!

-Marcão e você o deixaram lá, não foi? Ele está com raiva de você, mas com mais raiva do Marcão!

Por um momento, Alfredinho escondeu o rosto nas mãos, querendo chorar. Foi necessário um grande esforço para se controlar, encarar Lilith e perguntar:

-Como você sabe dessas coisas, Lilith?

-Ele me contou. O José Afonso está xingando Marcão e você de covardes e dizendo que quer ser enterrado.

-Lilith, como ele lhe contou?

-Ele apareceu para mim, no meu quarto, dizendo tudo. Disse que sentiu um empurrão e, depois que caiu da escada, viu você e o Marcão fugindo e ficou a chamá-los, pedindo que o ajudassem.Mas vocês correram e ele ficou sozinho. Foi então que ele viu a menina. Falou que ela não parava de rir, divertindo-se com a confusão dele. Foi então que ele viu o próprio corpo morto e caiu em desespero.

-Não!

-Alfredinho, ele quer ser enterrado. Disse que vocês não podem deixar o corpo dele apodrecendo ali!

-Lilith, se o Marcão e eu confessarmos, o que será de nós?

-Tivessem pensado nisso antes de fazer a burrice que fizeram! Agora, vocês têm que dizer às autoridades onde está o corpo dele.

-Não podemos!

-O José Afonso está muito magoado, principalmente com o Marcão.

O medo de Alfredinho era imenso, mas ele se dominou e perguntou:

-O fantasma da menina apareceu para você?

-Várias vezes. Ela tem ódio demais.

-E aquela história da mãe do dono da padaria?

-Ela veio me dizer que começou a passar mal, mas que ele se fechou no quarto dele em vez de socorrê-la.

-Você disse isso a ele?

O rosto de Lilith dava sinais de abatimento.

-Ela me mandou dizê-lo ou não me deixaria em paz. Apareceu para mim falando do filho ingrato que a deixara morrer!

-O José Afonso:

-Alfredinho, ele tem me atormentado!

-Você não pode dizer a ele que o Marcão e eu sentimos muito?

-Penso que nada do que for dito vai diminuir a raiva dele. Não agora. Ele sentiu que vocês o abandonaram. Disse-me que podia esperar isso de você, mas não de Marcão.

-Meu Deus, que devo fazer?

Lilith ficou pensativa por uns minutos, depois falou:

-Fale com o Marcão sobre o que você e eu conversamos. Vocês têm que consertar o erro que cometeram. O que vocês não podem é ficar parados sem fazer nada enquanto o corpo do José Afonso apodrece ai e a família dele se desespera.

-Por que você não vai à polícia e conta tudo?

O rosto de Lilith, já muito branco, ficou mais lívido de raiva e os olhos escureceram, adquirindo um tom próximo do negro.

-Que ideia mais idiota! Que quer que eu diga? Que o José Afonso me apareceu contando tudo? Será que está com medo de encarar as consequências por ter algo a perder? Isso é nojento da sua parte!

-Mas, Lilith, é que...

-Eu não tenho nada a ver com essa história, mas acabei me envolvendo por causa da burrice de vocês três!

-Se você contar à polícia...

-Vão querer saber como eu sei, idiota! E como vou dizer que sei?

-Você pode dizer que o José Afonso disse a você que queria investigar a velha escola.

-Como vão acreditar que ele diria isso a mim e não ao Marcão, o melhor amigo dele? Você quer se safar mesmo, não é? É melhor você procurar o Marcão e vocês dois resolverem isso!

-Lilith, eu...

-Você está com medo!

-Você não tem medo desses espíritos que lhe aparecem?

-No começo, eu tinha muito medo de todos eles. Eu me escondia debaixo da cama com a lanterna acesa e de olhos fechados, pedindo para eles irem embora.

-E hoje?

-Hoje, muitos deles ainda me dão motivo para ficar apavorada.

-Os seus pais...sabem?

-Não, quando eu era bem pequena e comecei a ver e ouvir os espíritos, meus pais me pegaram várias vezes dormindo debaixo da cama e pensaram que fosse medo do escuro. Às vezes, eu acordava no meio da noite e via um espírito de pé, ao lado da cama. Eu gritava e meus pais vinham me perguntar o que era e, se eu dizia o que tinha visto, falavam que tinha sido pesadelo. Quando eu soube o que era, decidi que nunca dividiria com ninguém.

-Puxa, você sofreu horrores, não?

-Acha que deixei de sofrer? Sabe o que é não ter escolha, Alfredinho?

Alfredinho a acompanhou até o portão e, depois que Lilith foi embora, sentou no sofá da sala, pensando no que faria. Teria coragem de ir á polícia e contar tudo?

-Vou ligar para o Marcão.

Discou os números e uma voz enjoada atendeu:

-Alô?

-Alô, eu queria falar com o Marcão.

-Pai ou filho? O pai saiu para trabalhar.

-Não, senhora. quero falar com o filho.

-Certo, espere um momento.

-Alô?

-Marcão, sou eu, Alfredinho.

-Meu Deus, que aconteceu?

-Temos que conversar sobre o que houve.

-O que foi que aconteceu, Alfredinho?

-Marcão, a Lilith esteve aqui há pouco tempo.

-Como é? E o que a Lilith iria fazer aí na sua casa?

-Ela sabe o que aconteceu, Marcão.

-Como ela saberia?

-Não posso falar por telefone. Onde podemos nos encontrar?

-Na pracinha perto da escola onde estudamos. Pode ser?

-Pode, vou já.

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