No intervalo, Marcão foi provocar Alfredinho:
-Ei, CDF, você gostaria de mostrar que é corajoso?
-Por que tenho de mostrar que sou corajoso?Alfredinho estava desinteressado.
-Porque aí não ririam mais de você. falou Marcão com ar desafiador.
-Como eu poderia mostrar? disfarçou um bocejo.
-Teria coragem de passar uma noite naquela escola que foi fechada?
-A que dizem que tem um fantasma?
-Isso mesmo.
-Ah, - Alfredinho deu de ombros - essa conversa de fantasma é lenda urbana.
-Se é, não há por que ter medo de ir lá, não é? sorriu Marcão.
-Você é maluco, Marcão?
-Eu sabia que você é um covardão, um frouxo!
-Ora, vá se catar, idiota!Alfredinho se levantou do banco, com raiva, voltando à sala de aula.
Quando as aulas acabaram, Lilith se aproximou de Alfredinho e perguntou:
-O que o Marcão falou com você? tinha um ar sério.
- Ele queria saber se eu teria coragem de ir àquela escola que fechou para passar a noite lá.
Lilith ficou mais séria do que o habitual e falou em voz baixa e firme:
-Não vá lá, eu peço.
-E por que eu iria?Lilith, você é estranha mesmo. tinha o ar zombeteiro.
-Quem não encontra descanso, está cheio de revolta e de ódio, porque não se conforma e se sente injustiçado. Ninguém é mais perigoso do que o que deseja vingança.
Alfredinho riu amarelo, pois a seriedade com que Lilith falara o perturbara um pouco. Ela prosseguiu:
-Os que não se conformam com a morte têm raiva dos que estão vivos, mesmo quando os vivos não são culpados pela morte deles.
Tentando disfarçar o nervosismo, Alfredinho retrucou:
-Olha, Lilith, eu sei o que é os outros rirem da gente, e é por isso que nunca mexi com você. Mas você, com essa conversa maluca, dá motivo para lhe chamarem de estranha.
A menina estreitou os olhos com raiva e replicou:
-Eu sei quem sou e o que posso ver, seu idiota! E por isso mesmo estou lhe avisando: não vá além de nenhum limite! Se você ultrapassar, irá se arrepender para sempre!
-Ultrapassar que limite, Lilith? Alfredinho se chocara por ver que ela acreditava no que lhe dizia.
Ela o olhou com hesitação, como se soubesse de algo terrível demais, cuja revelação fosse impossível de suportar. Demorou um pouco mas terminou falando:
-Você não precisa saber nada, apenas que não deve ir à velha escola para saber se há um fantasma lá.
-Que mal um fantasma poderia me fazer, Lilith?riu com incredulidade.
Olhando-o com mais seriedade, Lilith falou num tom funesto de advertência:
-Você gostaria de descobrir, seu idiota?
Lilith saiu da sala de aula bastante zangada e Alfredinho se perguntou se ela não seria mesmo meio louca, enquanto pegava seus livros. Escutou a voz de José Afonso perguntar em tom de troça:
-O que aquela maluca falava com você?
Dando de ombros, Alfredinho disse:
-Ela disse que não devo ir à escola que fecharam.
-A do fantasma?
-Sim.
José Afonso pensou e teve uma ideia maldosa, dizendo a Alfredinho:
-E se a gente fosse para a velha escola? Você provaria que não é apenas um nerd medroso e que não há um fantasma lá. Eu tenho uma câmera e posso lhe filmar.
-Mas você acha que é uma boa ideia irmos a um lugar abandonado?
Alfredinho fez cara de quem não achara a ideia boa.
-Tenho certeza de que não há nada além de ratos.
-Odeio ratos! fez uma careta de nojo.
-Tem medo deles?
-Não, só nojo.
-Pois então, se topar ir, nós dois vamos. Eu filmo você, fazemos um vídeo e postamos na Internet. Você ficará famoso por ter ido investigar a velha escola que dizem que tem um fantasma.
-Não sei não..hesitou Alfredinho.
Alfredinho se foi e José Afonso foi procurar Marcão, que comia um sanduíche na cantina.Sentou-se em frente a ele, um sorriso perverso nos lábios finos.
-Sabe, Marcão, acho que a gente pode dar uma lição naquele nerd bocó que se acha melhor que todo mundo porque tira as notas mais altas.
-Que lição?Marcão sorriu com malignidade.
-Que tal a gente fazer com que ele vá à velha escola fazendo-o pensar que ele fará um filme? Eu vou com ele e você vai atrás, disfarçado de fantasma.
O rosto de Marcão se iluminou ante a oportunidade de humilhar Alfredinho. Começou a rir.
-Imagina o palerma molhando as calças, correndo e gritando de medo! Ah, ah, ah!
Os dois caíram na gargalhada, prevendo a humilhação que fariam o pobre Alfredinho sofrer.
-Ele nunca vai esquecer! Ah, ah, ah! Marcão quase engasgou com o sanduíche.
Deixaram a cantina e saíram da escola, rindo e falando muito em voz baixa. Quando dobraram a esquina, Lilith saiu de trás da árvore de onde se escondera e ficou olhando muito tempo para a esquina, balançando a cabeça com ar desanimado.
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