domingo, 8 de fevereiro de 2026

O fantasma da velha escola - 2


 



No intervalo, Marcão foi provocar Alfredinho:

-Ei, CDF, você gostaria de mostrar que é corajoso?

-Por que tenho de mostrar que sou corajoso?Alfredinho estava desinteressado.

-Porque aí não ririam mais de você. falou Marcão com ar desafiador.

-Como eu poderia mostrar? disfarçou um bocejo.

-Teria coragem de passar uma noite naquela escola que foi fechada?

-A que dizem que tem um fantasma?

-Isso mesmo.

-Ah, - Alfredinho deu de ombros - essa conversa de fantasma é lenda urbana.

-Se é, não há por que ter medo de ir lá, não é? sorriu Marcão.

-Você é maluco, Marcão?

-Eu sabia que você é um covardão, um frouxo!

-Ora, vá se catar, idiota!Alfredinho se levantou do banco, com raiva, voltando à sala de aula.

Quando as aulas acabaram, Lilith se aproximou de Alfredinho e perguntou:

-O que o Marcão falou com você? tinha um ar sério.

- Ele queria saber se eu teria coragem de ir àquela escola que fechou para passar a noite lá.

Lilith ficou mais séria do que o habitual e falou em voz baixa e firme:

-Não vá lá, eu peço.

-E por que eu iria?Lilith, você é estranha mesmo. tinha o ar zombeteiro.

-Quem não encontra descanso, está cheio de revolta e de ódio, porque não se conforma e se sente injustiçado. Ninguém é mais perigoso do que o que deseja vingança.

Alfredinho riu amarelo, pois a seriedade com que Lilith falara o perturbara um pouco. Ela prosseguiu:

-Os que não se conformam com a morte têm raiva dos que estão vivos, mesmo quando os vivos não são culpados pela morte deles.

Tentando disfarçar o nervosismo, Alfredinho retrucou:

-Olha, Lilith, eu sei o que é os outros rirem da gente, e é por isso que nunca mexi com você. Mas você, com essa conversa maluca, dá motivo para lhe chamarem de estranha.

A menina estreitou os olhos com raiva e replicou:

-Eu sei quem sou e o que posso ver, seu idiota! E por isso mesmo estou lhe avisando: não vá além de nenhum limite! Se você ultrapassar, irá se arrepender para sempre!

-Ultrapassar que limite, Lilith? Alfredinho se chocara por ver que ela acreditava no que lhe dizia.

Ela o olhou com hesitação, como se soubesse de algo terrível demais, cuja revelação fosse impossível de suportar. Demorou um pouco mas terminou falando:

-Você não precisa saber nada, apenas que não deve ir à velha escola para saber se há um fantasma lá.

-Que mal um fantasma poderia me fazer, Lilith?riu com incredulidade.

Olhando-o com mais seriedade, Lilith falou num tom funesto de advertência:

-Você gostaria de descobrir, seu idiota?

Lilith saiu da sala de aula bastante zangada e Alfredinho se perguntou se ela não seria mesmo meio louca, enquanto pegava seus livros. Escutou a voz de José Afonso perguntar em tom de troça:

-O que aquela maluca falava com você?

Dando de ombros, Alfredinho disse:

-Ela disse que não devo ir à escola que fecharam.

-A do fantasma?

-Sim.

José Afonso pensou e teve uma ideia maldosa, dizendo a Alfredinho:

-E se a gente fosse para a velha escola? Você provaria que não é apenas um nerd medroso e que não há um fantasma lá. Eu tenho uma câmera e posso lhe filmar.

-Mas você acha que é uma boa ideia irmos a um lugar abandonado?

Alfredinho fez cara de quem não achara a ideia boa.

-Tenho certeza de que não há nada além de ratos.

-Odeio ratos! fez uma careta de nojo.

-Tem medo deles?

-Não, só nojo.

-Pois então, se topar ir, nós dois vamos. Eu filmo você, fazemos um vídeo e postamos na Internet. Você ficará famoso por ter ido investigar a velha escola que dizem que tem um fantasma.

-Não sei não..hesitou Alfredinho.

Alfredinho se foi e José Afonso foi procurar Marcão, que comia um sanduíche na cantina.Sentou-se em frente a ele, um sorriso perverso nos lábios finos.

-Sabe, Marcão, acho que a gente pode dar uma lição naquele nerd bocó que se acha melhor que todo mundo porque tira as notas mais altas.

-Que lição?Marcão sorriu com malignidade.

-Que tal a gente fazer com que ele vá à velha escola fazendo-o pensar que ele fará um filme? Eu vou com ele e você vai atrás, disfarçado de fantasma.

O rosto de Marcão se iluminou ante a oportunidade de humilhar Alfredinho. Começou a rir.

-Imagina o palerma molhando as calças, correndo e gritando de medo! Ah, ah, ah!

Os dois caíram na gargalhada, prevendo a humilhação que fariam o pobre Alfredinho sofrer.

-Ele nunca vai esquecer! Ah, ah, ah! Marcão quase engasgou com o sanduíche.

Deixaram a cantina e saíram da escola, rindo e falando muito em voz baixa. Quando dobraram a esquina, Lilith saiu de trás da árvore de onde se escondera e ficou olhando muito tempo para a esquina, balançando a cabeça com ar desanimado.


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