sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O fantasma da velha escola - 5

 




Vestindo-se apressadamente, Alfredinho saiu para ir encontrar Marcão. Ao chegar, sentou num banco, nervoso. Será que Marcão acreditaria?

Marcão não demorou. Chegou e sentou ao lado de Alfredinho, perguntando:

-Como a Lilith sabe, Alfredinho?

-Não posso dizer em poucas palavras.

-Tudo bem, mas diga.

A aparência de Marcão era péssima: rosto cansado e olhos inchados, provavelmente de tanto chorar. Alfredinho teve uma certa pena dele.

-Você não dormiu, não foi?

-Acha que eu iria dormir? perguntou Marcão com agressividade.

-Claro que não, Marcão.

-Fale logo, meu Deus!

Pausadamente, tentando evitar um tom dramático, Alfredinho contou sobre a conversa com Lilith. Marcão disse com desconfiança:

-Ah, aquela maluca inventou essa história.

-Marcão, não acha que é coincidência demais?

-Você acredita nessa história, Alfredinho? A Lilith vê gente morta e o José Afonso apareceu para ela?

-Por que ela iria para casa contar tudo isso, Marcão?

-Isso não faz sentido!

Os olhos de Marcão estavam injetados. Alfredinho falou com calma:

-Marcão, há outra explicação para a Lilith ter ido à minha casa contar isso? O José Afonso está morto e com raiva de nós dois!

-Ah, mas a ideia de irmos lá foi dele! Ele que quis, desde o início, convencer você a ir lá para o assustarmos!

Morrendo de raiva por lembrar da armadilha, Alfredinho rebateu:

-E você adorou a ideia, não foi? Nem você nem o José Afonso foram legais!

-Quer parar de nos esculhambar? Você foi melhor do que nós, foi? Na hora H, foi um covarde!

-E você não foi covarde também, seu nojento?

-Fui, Fui covarde sim, seu nerd metido a besta, que sempre se achou melhor do que todo mundo!

Alfredinho viu que a discussão estava caindo no nível da baixaria e tentou acalmar Marcão:

-Marcão, se toda vez que tocarmos no assunto lembrarmos dos erros que cometemos, vamos brigar.

-Tem razão.

-Mas pense numa coisa: não podemos deixar o corpo do José Afonso ali e, se o que a Lilith disse é verdade, o espírito dele está furioso conosco.

-O que você propõe?

-Por que não vamos à polícia e contamos tudo?

-Você ficou maluco, Alfredinho? Está tão maluco quanto a Lilith?

Muito sério, Alfredinho olhou para Marcão e argumentou:

-Marcão, se é verdade que a Lilith vê pessoas que morreram, ela não é maluca.

-Então, ela é o quê? Bruxa, médium?

-Seja o que ela for, o que importa é que temos de fazer algo.

-Que tal não fazermos nada?

-Marcão!

-Vamos ficar quietos. Se ninguém souber de nada, será melhor.

-E o corpo do José Afonso ali na velha escola, Marcão? Os pais merecem isso?

-Não podemos fazer nada, melhor que ninguém saiba.

-A Lilith sabe.

-Pelo que vemos, não é do interesse dela espalhar a história, ou todos saberiam do segredinho dela, não é?

Alfredinho sabia que tinha que fazer algo em relação àquilo tudo, mas o medo era sufocante. Pensou no que ocorreria se soubessem de tudo. Na escola, Marcão e ele seriam olhados de soslaio, lembrados como os covardes que haviam abandonado o colega. A vida se tornaria insuportável. Porém, ele conseguiria viver daquele jeito, corroendo-se de culpa e guardando aquele segredo infame? Olhou Marcão de esguelha e era evidente que o amigo de José Afonso estava sofrendo, talvez até mais do que ele. Decidiu:

-Está bem, Marcão. Não falemos nada. A Lilith não vai nos dedurar, porque sabemos o segredo dela.

-Será? Ela sabe demais.

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