domingo, 6 de setembro de 2026

Eu sei que foi você - 7

 


Os pais de Virgínia foram à escola dizendo que haviam visto um vídeo gravado pela filha, no qual ela revelava que não aguentava mais ser perseguida na escola e redes sociais.

-A minha filhinha estava sendo perseguida e vocês não fizeram nada! o pai de Virgínia apontou o dedo para a diretora.

-Calma, o senhor já foi adolescente, sabe como eles são. Eles adoram chatear os colegas.

-Isso não foi chateação, sua negligente! Por causa desses nojentos que humilharam nossa filha, e da inércia de todos vocês, ela deu um tiro no peito e está debaixo da terra! Eles a perseguiram até que ela não aguentou mais! E ela deixou uma lista com os nomes deles, dizendo-nos os nomes obscenos e grosseiros com que a chamavam!a mãe de Virgínia estava à beira da histeria.

-Nós vamos processar essa maldita escola e os pais dos miseráveis que a perseguiram!-prometeu o pai - É por culpa deles e de vocês que nunca mais veremos a nossa filha!

-Senhores - a diretora ainda tentou acalmá-los - eu entendo a dor imensa que sentem.

-Não, você não entende nada da dor que sentimos! Não entende o que é ver sua filha numa poça de sangue e saber que nunca mais a abraçará, não a verá realizar seus sonhos, viver a vida, ter filhos e seguir uma carreira, ao passo que os nojentos que, como você diz, só a estavam chateando, estão confortáveis, sem nem pensar no mal que fizeram a ela! Oh, minha filha, eu preferia estar morto! Minha menina estava se sentindo abandonada e odiada e nós fomos incapazes de ajudá-la e protegê-la! Você não entende esta dor, com a qual teremos que viver o resto da vida!Uma parte nossa morreu com ela e nós lutaremos por justiça!

Enlouquecidos, os pais de Virgínia deixaram a escola e a visita deles não tardou a virar notícia.

-Eles saíram daqui com as caras mais feias do mundo!informou um rapaz, colega de turma de Cassandra.

-Por que será?uma moça ficou curiosa.

-Pergunta mais besta! A Virgínia não se matou? Ela fez isso porque quase todo mundo a estava chamando de piranha depois daquilo que saiu no Facebook dela.

-Ora, se ela não era piranha, por que, então, ela se matou?Michele maquiava os olhos.

Marcelo falou:

-Penso que os pais dela têm razão de estar com raiva. O que fizeram com a Virgínia foi uma sujeira.

-Pois, se ela se matou, é porque era uma fraca.

-Michele - Marcelo a olhou bem nos olhos - você teria aguentado se estivesse no lugar dela?

Narciso era o único que não falava. Ele nunca mais citara o nome de Virgínia após o suicídio da garota. E o constante olhar de Cassandra sobre ele o estava incomodando mais do que ele queria admitir.

"Se ela sabe, como ela descobriu?"

Cassandra, sentada no fundo da sala, lia um livro. Volta e meia, levava a mão à cabeça e franzia as sobrancelhas como se algo a incomodasse.

Após um tempo, Cassandra se levantou, levando muito a mão à cabeça e, de repente, caiu no chão, desmaiada.

Marcelo foi o primeiro a ir até ela, apoiando-lhe a cabeça.

-Cassandra?

Ela abriu os olhos e começou a balbuciar:

-Vozes demais... tantas vozes ao mesmo tempo.

A professora de História entrou na sala e perguntou:

-Que aconteceu?

-A Cassandra desmaiou.

Gentilmente, a professora de História deu água a Cassandra, que continuou balbuciando:

-Eu não aguento...são tantas vozes.

-Calma, querida. Está tudo bem? Alguém chamou a ambulância?

-Não preciso de ambulância...quero ir para casa...só ir para casa, por favor.

-Tudo bem. Vamos à diretoria e a diretora vai chamar seus pais.

Marcelo perguntou se Cassandra podia andar e ela disse que sim.

-Eu vou com você à diretoria, Cassandra.

Marcelo e a professora ajudaram Cassandra a se colocar em pé e a ampararam até à sala da diretoria. Marcelo, que carregava a mochila de Cassandra, sentou ao seu lado. A professora explicou à diretora o que ocorrera e esta ligou para o pai de Cassandra, informando-o do desmaio da filha.

-Pode ficar tranquila, Cassandra. Marcelo lhe deu mais água.

A menina o olhou um pouco, dando um sorriso débil e Marcelo falou sem querer:

-Você tem um sorriso bonito, Cassandra.

-Obrigada por ter me ajudado.

-De nada.

-Sabe, poucos foram tão legais comigo assim como você está sendo.

Ele queria perguntar sobre as vozes a que ela se referira, mas achou melhor se calar. Nunca estivera tão perto dela antes e percebeu que gostava de estar ao seu lado.

O pai de Cassandra não demorou a aparecer. Ao ver a filha, foi logo abraçá-la.

-Estou aqui, querida.

-Pai, este é o Marcelo, meu colega. Ele me ajudou.

-Muito prazer, rapaz. Obrigado.

-De nada, senhor.

-Vamos, querida. Pode andar?

-Posso, pai.

Marcelo permaneceu um longo tempo olhando para Cassandra abraçada ao pai, homem de olhos castanhos muito escuros e voz grave. Ambos saíram e Marcelo, pensando no seu pai, voltou para a sala. Um colega o cutucou:

-A Cassandra é estranha mesmo, hein, cara. Que desmaio!

-Não, ela não é estranha. E qualquer um pode desmaiar.

-Eu a escutei falando sobre vozes.

-Talvez fosse tanta gente conversando.

domingo, 30 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 6

 


Narciso estava esperando dar o sinal do fim do intervalo. Nos últimos dias, andava quieto e distraído, afastado dos amigos e colegas porque não tinha com quem dividir o que andava a perturbá-lo. Como estava de cabeça baixa, não escutou os passos sutis de alguém indo na sua direção, o que o fez se assustar ao ouvir:

-Eu sei que foi você!

Teve um sobressalto, não acreditando que a pessoa que lhe falara naquele tom tão acusador era Cassandra.

-Ca-Cassandra?!Do que está falando?

-Estou falando que eu sei que foi você, seu covarde mentiroso!

-Eu não sei o que você está dizendo, Cassandra!

-Mas sabe o que fez! E o que você fez não pode ser desfeito, não é?

Um murro na boca do estômago não teria atingido Narciso mais do que aquelas palavras pronunciadas com tanta virulência e, desta vez, ele se levantou do banco, perturbado.

-Cassandra, você não pode chegar e falar essas coisas! O que você quer dizer? Do que está me acusando?

-E você, Narciso? Você pode chegar e fazer algo como o que você fez? O que você queria que acontecesse? Queria que ficassem apontando alguém, humilhando e acusando até este alguém não aguentar e achar que não podia continuar?

-Pare, Cassandra!

Atordoado, Narciso estava quase em lágrimas. Cassandra o fitou sem pena.

-Por que está quase chorando, Narciso? Remorso ou medo?

-Você está...

-Não estou imaginando ou inventando nada, Narciso!

Ele quase deu um pulo para trás. Cassandra dissera o que ele pensara antes mesmo dele falar. Era como se...não, impossível.

-Cassandra, você devia tentar chamar a atenção de outro jeito, não desse! Ficar falando coisas sem nexo não vai fazer você se tornar popular!

-Diga o que quiser, covardão, mas isso não muda que eu sei que foi você!

-Você não sabe de nada, Cassandra! Sabe o que você é? Uma maluca que quer atenção!

-Pouco me importa o que você acha! Você devia ter vergonha de ter feito o que fez!

-Ora, vá se tratar!

Andando abruptamente, Narciso queria escapar de Cassandra e de seu olhar acusador.

"Como ela poderia saber, como ela poderia saber?"

Sim, não havia como ela saber. Não havia como ninguém saber.

Deu o sinal do fim do intervalo e Narciso voltou para a sala, cabeça baixa.

-O que houve, Narciso? Parece que viu um fantasma!

Marcelo, que andava estranhando o comportamento de Narciso, espantou-se com sua palidez.

-Nada, Marcelo.

-Nada? Rapaz, você devia se ver no espelho! Parece que tiraram todo o sangue das suas veias! Está doente?

-Não, cara, estou bem! Por que não fica na sua?

-Meu Deus, eu só fiz uma pergunta e você vem com quatro pedras na mão! Diabos, Narciso, você está insuportável ultimamente! Ninguém pode dizer ou fazer nada que é como se você tivesse levado um choque!

Marcelo saiu de perto de Narciso, cheio de raiva.

"Preferia o Narciso cheio de si que só falava em meninas."

Narciso se perguntou se devia pedir desculpas a Marcelo, mas não teve coragem e preferiu ficar no seu lugar. Voltou-se para trás, espiando Cassandra,que estava de olhos baixos, aparentemente alheia à barulheira dos colegas. Porém, como se avisada por uma voz, ela subiu aqueles olhos estranhos e os fixou nele.

"Ela não demonstra nenhuma surpresa! Eu diria que sabia que eu a estou espionando antes mesmo de olhar."

Instintivamente, Narciso se descobriu com medo de Cassandra, em cujo olhar podia ler perfeitamente: "Eu sei que foi você."

domingo, 23 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 5

 


As aulas estava transcorrendo normalmente até que a diretora entrou dizendo que tinha uma triste notícia. O professor de Matemática parou de escrever no quadro e a diretora falou:

-Lamento dizer que Virgínia, aluna desta escola, perdeu a sua vida de maneira trágica. Ontem à noite, ela pegou o revólver do pai e se matou com um tiro no peito.

Todos ficaram assombrados num silêncio constrangido. A diretora comunicou onde seria o enterro e informou que não haveria mais aula naquele dia, retirando-se.

Marcelo comentou:

-Eu tenho certeza de que ela fez isso porque não aguentou o que estavam fazendo com ela.

A mão de Narciso tremia um pouco e Marcelo perguntou:

-Tudo bem?

-Sim.

Os alunos foram pegando seus pertences para sair. Cassandra arrumou sua mochila e foi até a carteira de Narciso, olhando-o de cima a baixo por um certo tempo com indisfarçável desprezo.

-O que há, Cassandra? Narciso se sentiu levemente intimidado.

Ela não respondeu, afastando-se.

Um rapaz se perguntou:

-Ué, o que deu nela? Cada dia, acho essa moça mais estranha.

Marcelo disse, pensativo:

-Narciso, ela parecia estar lhe acusando.

domingo, 16 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 4

 


Uma manhã, Virgínia foi à escola, ressabiada, os braços agarrando os livros e cadernos como se sentisse a necessidade de se apoiar em algo. As outras meninas olhavam para ela dando risadinhas e os meninos se aproximavam dela dizendo:

-Puxa, Virgínia, eu não acredito que você é tudo isso, hein.

-Sai de perto de mim, seu nojento!

-Ué, mas você...

-Cai fora! Não dei liberdade para falar comigo assim!

-Como não, Virgínia? Pensa que a gente não viu o seu Facebook?

-É tudo mentira!

-Ah, pois eu quero...

A menina correu, agoniada. Foi sentar junto de duas amigas, que se afastaram.

-Ei, esperem!

-Não dá, Virgínia.

-Mas a gente sempre foi amiga.

Cassandra olhou de muito longe e entrou na sala onde estudava. Michele conversava com umas amigas.

-Quem diria que a Virgínia, hein.

-Essas meninas quietinhas são as piores.

Desta vez, Cassandra se dirigiu até elas e disse:

-Tudo mentira. Tenho certeza que a Virgínia foi vítima de alguém que entrou na conta dela e inventou tudo!

-Ah é, esquisita?

-É sim. E eu espero que logo se descubra quem foi.

-Por que você a está defendendo? Ela não é sua amiga!Michele se enraiveceu.

-Porque o que vocês estão fazendo com ela é errado! Inventaram uma mentira contra ela e vocês, sem nem saberem se é verdade, ficam atacando a coitada.

-Vá ficar no seu canto, sua esquisita!retrucou uma moça.

Narciso entrou na sala e notou que Cassandra olhava para ele. Resolveu brincar:

-Como vai, gatinha? Gosta de minha jaqueta nova?

-...

-O que foi? Está sem fala? Ah, adoro esse seu jeito tímido. Você está um encanto!

-Vem, Narciso. Pare de zoar com ela!chamou Marcelo.

Indo sentar ao lado de Marcelo, Narciso se gabou:

-Vê que ela está caidinha por mim, Marcelo?

-A Cassandra?! Ela nem olha para você!

-Estava olhando agora.

Discretamente, Marcelo espiou Cassandra. A moça olhava para onde Narciso e ele estavam sentados e Marcelo entendeu que ela sabia que eles falavam dela e ele a espiava. Desconfortável, parou de espiá-la e reclamou:

-Ah, Narciso, você fala muita besteira!

-Ela gosta de se fazer de difícil.

-Você é muito besta, Narciso!

Quando chegou o intervalo, Cassandra foi à biblioteca, onde procurou o canto mais afastado para ela. Sentou no chão, pernas cruzadas, um livro aberto no colo.

Ali, naquele ambiente silencioso, seu semblante ficou mais suave e ela respirou fundo, como se aliviada.

domingo, 19 de julho de 2026

Eu sei que foi você - 3


 



Marcelo e Narciso jogavam no mesmo time de futebol da escola; o primeiro, como zagueiro e o segundo, como meia. As meninas costumavam assistir aos treinos e Narciso sempre aproveitava para se exibir, jogando beijos ou ficando sem camisa. Michele era a mais empolgada e se comentava que Narciso e ela estariam juntos.

As meninas realmente tinham uma queda por Narciso, por ser alto, de cabelos escuros e olhos azuis. Ele vivia sorrindo para elas e adorava se gabar de suas conquistas aos colegas, relatando como fazia:

-Ah, a Marília é um estouro. Eu a peguei no cinema e, juro a vocês, nunca vi menina com tanto fogo!

Os rapazes tinham inveja do sucesso de Narciso. Marcelo o ouvia enfastiado, mas não reclamava.

Não demorou a notarem que Cassandra era a única na sala que não prestava atenção a Narciso, e isso não passou despercebido ao rapaz, que tentava lhe chamar a atenção com sorrisos e olhares. A moça o olhava por um breve tempo, mas logo baixava a cabeça, desinteressada.

Além de Cassandra, havia outra menina que não olhava para Narciso: Virgínia, que estudava em outra turma. Talvez por isso mesmo, ele a assediava com força, mas ela o repelia:

-Cai fora, idiota!

Os colegas riam e Narciso, para disfarçar a raiva, falava:

-A gatinha gosta de ser difícil.

Naquele dia, após o treino, Marcelo foi ao bebedouro, morto de sede. Viu Cassandra debruçada tomando água. Como ela estava de costas, ficou a observá-la em silêncio. Quando ela terminou e se virou, olhou um pouco para ele, que disse, desconcertado:

-O-oi, Cassandra.

-Oi, Marcelo.

-Você não quer ver o treino de futebol?

-Não, obrigada. É barulhento demais.

-Mas você se acostuma com o barulho. E pode achar divertido. De certa forma, é bom fazer uma coisa diferente. Viver na biblioteca deve ser meio...meio...

-Meio chato demais, não é?

Marcelo encarou Cassandra, um tanto surpreso. Ele pensara exatamente naquelas palavras e não sabia se devia dizer para não ser grosso, mas ela falara sem o menor sinal de chateação.

-Eu não queria dizer isso, Cassandra. Eu...

-Tudo bem, Marcelo. Temos o direito de pensar o que queremos. De qualquer forma, obrigada por me convidar. saiu.

Após tomar água, Marcelo pensou:"Cassandra, qual o seu segredo?"

-Eu não acredito nisso, Marcelo!

Dando um pulo, Marcelo viu quem falara: Michele.

-Ei, Michele! Quer me matar de susto?

-Você está apaixonado pela esquisitona da Cassandra, Marcelo?

-Não é isso, Michele. Eu...

-Por favor, Marcelo, não negue! Todo mundo vê que você não tira o olho dela! Por que será? Por ela ser magrela como uma tábua, de cabelo liso demais e ter olhos de cores diferentes?

-Não, Michele, você não está entendendo!

-A Cassandra é muito feia, Marcelo! Feia e desenxabida!

Michele foi a um canto do pátio retocar a maquiagem, sentando num banco. Ouviu alguém se aproximar e sentar ao seu lado e tirou os olhos do espelho. Gelou de medo. Era Cassandra, fitando-a como se estivesse vendo através dos seus olhos.

-Ca-Cassandra, que surpresa!

-Uma surpresa nada agradável para você, Michele.

-Ora, eu...

-Vamos, Michele. Não é agradável sentar ao lado de alguém como eu, não é? Eu sou feia e desenxabida, não sou?

A moça deixou o batom cair no chão. Teria Cassandra ouvido o que ela dissera?

Imperturbável, Cassandra se levantou, andou um pouco e olhou para trás, encarando Michele:

-A gente ouve principalmente o que não quer, Michele.

domingo, 12 de julho de 2026

Eu sei que foi você - 2


 


Cassandra não era dada a conversar com os colegas e os que haviam zombado dela no primeiro dia de aula perceberam que ela os olhava com frieza, como se soubesse que não haviam simpatizado com ela.

Marcelo reparou que ela preferia ficar sozinha e evitava lugares com muitas pessoas,passando os intervalos na biblioteca da escola. Michele sempre dava um jeito de trombar com ela e pedia desculpas por ter pisado no seu pé ou batido o braço nela e, um dia, Cassandra retrucou:

-Por que pede desculpas pelo que faz de propósito?

-Não é de propósito, querida. Juro que não é.

-Não precisa fingir que gosta de mim.

-Quem não gostaria de você, Cassandra? Você é tão bonita e simpática.

Cassandra sacudiu a cabeça, falando com neutralidade:

-Eu sou tão bonita e simpática quanto você é boa mentirosa, Michele. Você e os outros me acham sem graça.

Michele se afastou, assustada.Era verdade que todos achavam Cassandra sem graça, mas ninguém havia falado para ela. Os colegas ficaram calados por ver que ela falara aquilo sem nenhuma surpresa, como se soubesse, desde o início, o que pensavam dela.Marcelo foi o único a não dizer nada, mas Narciso disse:

-Que mina atrevida, hein. Fica olhando para nós como se soubesse o que se passa em nossas cabeças.

-Ora, Narciso, e não é verdade que todos dizem que ela é estranha e sem graça?

-Menos você, não é, Marcelo?foi a resposta de Narciso.

-Para mim, ela não fede nem cheira. Por que vou me...

-Sei não, Marcelo, mas você não tira o olho dela.

-Ela é diferente, apenas isso.

domingo, 5 de julho de 2026

Eu sei que foi você - 1


 



Quando viram a nova menina que estudaria com eles entrando na sala, acharam que ela não tinha nada de especial. Não era, de acordo com a opinião geral, uma menina muito bonita e andava de olhos baixos, como se não quisesse ver os novos colegas diretamente nos olhos. Ergueu-os apenas quando foi apresentada à turma e a diretora disse:

-Esta é Cassandra, sua nova colega.

O nome também não lhes pareceu marcante. A menina ficou parada olhando para eles enquanto a diretora dizia de que cidade ela viera. Então, eles viram que a menina de cabelo escuro liso e feições comuns tinha uma característica notável: um olho verde e outro castanho. O verde era claríssimo, ao passo que o castanho era muito escuro, quase negro, formando um contraste que não podia passar despercebido.

A diretora terminou de falar e se retirou e Cassandra foi sentar. Michele, que sentava atrás, havia comentado com outra colega:

-Tirando esses olhos, ela não tem nada de especial. É toda sem graça.

As duas falavam baixo e a colega com quem Michele comentara sobre Cassandra alertou:

-Michele, a novata está olhando para nós.

-Como é?

-Ela está olhando para a gente, Michele.

Michele se virou e viu que Cassandra realmente olhava para elas. A novata as olhava de uma maneira estranha, o que era incômodo.

-Bem, que olhe.

Um dos rapazes, chamado Narciso, falou para os colegas perto dele:

-Ela é meio feinha, não é? Não tem peitos, tem dois olhos de cores diferentes, o cabelo é liso demais...

-Não é nenhuma gatinha.riu outro.

-Ah, vamos, isso é maldade - reclamou Marcelo, que sentava à direita de Narciso - Ela não é feia.

Marcelo percebeu que a novata estava olhando para Narciso e eles e o cutucou:

-Narciso, ela sabe que você está falando dela.

-Como pode saber?

-Ela está olhando para nós.

Narciso olhou para onde ela sentava e percebeu que Marcelo não se enganara. Ao notar que Narciso a encarava, Cassandra lhe devolveu o olhar, desafiadora.

-Que mina estranha! riu Narciso.

-Senhor Narciso, preste atenção!exclamou a professora de Português.

Chateado por ter sido repreendido na frente de todos, Narciso voltou sua atenção para a aula.

Discretamente, Marcelo começou a olhar para Cassandra. A menina se limitou a prestar atenção e anotar o que a professora dizia.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - epílogo


 



O fantasma da velha escola - Epílogo

Lilith estava diante do túmulo de Alfredinho. Ela não fora ao enterro e seus pais a haviam transferido da escola logo após a tragédia. Também não vira mais Marcão. Soubera apenas que se dissera que Alfredinho morrera por causa da maldição do fantasma da velha escola. Mas não teve muito tempo para divagar pois escutou passos em sua direção e se virou, surpreendendo-se.

-Marcão?!

Ela mal o reconheceu. Estava muito magro e com um ar doentio.

-Oi, Lilith. Não pensava que a veria de novo.

-Meus pais acharam melhor que eu saísse da escola.

-Eu também saí, porque não aguentava mais ver aquela... escada e...

-E o que, Marcão?

-Todo mundo me colocou na geladeira depois que soube que fugi e não tive coragem de fazer nada por meu amigo. Os pais do José Afonso apareceram lá em casa, xingando-me e culpando-me e a mãe do Alfredinho me chamou de assassino! Ela disse que matei seu único filho!

Lilith sentiu pena de Marcão. Ele podia ter errado, mas merecia ser tão punido?

-Sinto muito, Marcão. Eu não acho que você merece isso.

-Agora, o Alfredinho também aparece nos meus sonhos. Mesmo durante o dia, sei que estou sendo rodeado por esses malditos fantasmas, Lilith. Voltaram a aparecer para você?

-Não. Acho que pensam que não precisam me dizer mais nada.

-Você mal me reconheceu. Estou horrível, não estou?

-Está precisando se cuidar.

-Meus pais já me levaram até a um templo evangélico. Por sinal, vejo que nunca mais botou preto.

-Cansei de curtir tristezas, Marcão. Depois que me abri com meus pais, eles têm me ajudado, mas nunca será fácil.

-Você ainda...?

-Sim. Vou ver até morrer. Não posso fazer nada. Se pudesse, nunca mais veria. Marcão, estou indo.

-Lilith, desculpe pelo que lhe fiz.

-Está tudo bem. Você estava com medo, eu entendo. Cuide-se. Gostaria de poder lhe ajudar, mas ainda não consigo ajudar nem a mim mesma. Até mais.

-Até.

Apressando o passo, Lilith saiu do cemitério. Podia ver espíritos aqui e ali. Alguns lhe eram indiferentes. Outros, vendo que ela podia vê-los, acenavam.

-Aprenderei a viver com isto. Espero que Marcão consiga ter paz, também.

Sim, viver! Era tudo que ela podia fazer. Viver e enfrentar o que lhe aparecesse.

domingo, 21 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 19


 



Tapar os ouvidos foi inútil. Lilith ouviu perfeitamente Marcão e Alfredinho discutindo feio, acusando-se e dizendo as palavras mais impronunciáveis.

-Tudo culpa sua, cavalgadura!

-Mas você concordou, não foi, sua besta?

-Concordei porque você me convenceu!

Lilith fechou os olhos. Mesmo assim, continuou vendo os fantasmas da menina e de José Afonso a rir sardonicamente, Marcão e Alfredinho se insultando e os alunos olhando, loucos para saber qual seria o resultado da briga que estava se tornando uma baixaria completa.

-Pois quer saber, Marcão? Sou mesmo uma besta! Só uma besta como eu para se deixar convencer pelo José Afonso e por você!

-Cale a boca, seu nerd de merda! Todos estão nos olhando!

-Pois que olhem, ouçam e saibam! Eu estou farto de guardar isto tudo!

-Guardar o quê, Alfredinho? perguntou uma menina.

-Alfredinho está só viajando, gente. desconversou Marcão.

-Não, seu covarde idiota! Não estou viajando! É bom que todos saibam que você e eu não valemos nada! Cansei de ser covarde, ouviu? Nós somos dois lixos, e o José Afonso também era!

-Do que você está falando? a menina não se aguentava de curiosidade.

-Muito bem, a verdade é que o José Afonso me convenceu a sair escondido e ir com ele à velha escola para investigarmos se ela é mesmo assombrada! O que eu não sabia é que o Marcão e ele estavam planejando me pregar uma peça para me filmar com medo e me expor na Internet!

-O quê?! Alfredinho, como você entrou nessa? Acreditar no José Afonso? Todos sabem que ele adorava pregar peças nos outros! observou um rapaz.

Marcão estava vermelho de pura raiva por ver os olhos de todos sobre ele.

-Então, vocês estavam com o José Afonso? indagou outro rapaz.

-Sim, o José Afonso e eu tínhamos subido a escada onde a menina teria caído e, como não vimos nada de anormal, achei melhor descer, mas ele ficou, dizendo que filmaria mais um pouco! Então, eu desci e fiquei esperando por ele. Foi então que ouvi um gemido e fui ver o que era. Era o Marcão, que tinha torcido o pé pulando o muro. Sabem o que vi ao iluminar o rosto dele com uma lanterna? Que ele estava maquiado igual a uma caveira! Então, adivinhei o plano dos dois!

-Foi nessa noite que o José Afonso morreu? uma mocinha estava incrédula.

Marcão se ajoelhou, derrotado, enquanto Alfredinho, quase histérico, bradou:

-Foi! O Marcão e eu o ouvimos gritar e cair e fugimos como dois covardes! Esta é a verdadeira história! Fugimos sem saber se ele estava vivo ou morto e não íamos dizer nada!

-Marcão, o José Afonso era seu amigo! horrorizou-se a mocinha.

-Será que não foi o fantasma da menina que empurrou o José Afonso? Então, a escola é mesmo assombrada! gritou alguém.

Lilith se sentia como se estivesse em um pesadelo, pois via claramente Marcão e Alfredinho se encarando com ódio mortal e os outros estudantes a olhá-los com surpresa e horror.

-Meu Deus, não quero mais ver. pediu Lilith, lágrimas descendo dos seus olhos.

Inútil. Ela continuou vendo os dois jovens se lançando farpas pelos olhares furibundos, xingando-se:

-Maldito!

-Cachorro! Cachorro sem-vergonha, covarde e nojento!

Um dos dois se cansou e falou:

-Vou embora daqui! Não piso mais nesta escola!

-O que, covarde? Você vai fugir e me deixar sozinho aguentando todos me odiarem? Não, você vai ficar aqui, pagando também!

-Eu já paguei, portanto, vou embora!

O que dissera que não ficaria mais na escola foi se afastando, indo até à escada. Lilith adivinho e berrou:

-Não, não desça a escada!

Ela sabia que era inútil gritar, pois ele não podia ouvi-la.

Ao chegar até à escada, o rapaz olhou para trás, falando para os colegas:

-O que é que vocês estão olhando?Vão para o inferno, ouviram? Nenhum de vocês é grande coisa! Na hora H, cada um só pensa em salvar a própria pele!

Olhando para trás enquanto começava a descer, ele tropeçou e caiu diante dos olhares dos rapazes e moças que o viram rolar escada abaixo.

-Meu Deus! gritaram todos.

Lilith começou a gritar, porque sabia antes de todos os que estavam fisicamente presentes que ele morrera.

A mãe de Lilith entrou no quarto às pressas, vendo-a caída no chão, de olhos arregalados e berrando:

-Ele morreu! O Alfredinho morreu!

-Lilith, querida, o que está havendo? a mulher se ajoelhou, abraçando-a.

De repente, Lilith saiu do transe e, olhando para a mãe, falou entre lágrimas:

-Mãe, o José Afonso e a menina mataram o Alfredinho! Ele caiu da escada como eles caíram!

-Calma, minha filha. Eu estou aqui.

Por um longo tempo, a mulher ficou abraçada à menina, que chorava, sentindo uma dor além de qualquer consolo. Delicadamente, a mãe ajudou Lilith a levantar, colocando-a na cama.

-Querida, tente se acalmar.

Lilith não prestou atenção à mãe, que lhe segurava uma das mãos e acariciava seus cabelos, mas a Alfredinho, cujo espírito, contemplando seu corpo inerte de olhos arregalados, ajoelhava-se e gritava num desespero completo:

-Eu estou morto! Seus desgraçados, vocês me mataram!

José Afonso e a menina riam do desespero de Alfredinho, que chorava de joelhos ao lado do seu cadáver enquanto os estudantes se amontoavam, gritando:

-Ele está morto!

-Foi a maldição! Foi o fantasma daquele escola!

-Vai assombrar esta escola agora!

Marcão, atordoado, desabou,mergulhando num estado de catatonia.

-Não, eu não quero mais ver! Lilith se debateu nos braços da mãe, que perguntou, extremamente preocupada:

-Lilith, o que você não quer ver? Quem matou quem?

A visão foi se desfazendo e Lilith olhou para a mãe, que estava assustada.

-Lilith, você está suando frio!

-Mãe, o Alfredinho está morto! A menina e o José Afonso o empurraram da escada!

-Calma, querida. Você já me falou, lembra? Não há nada que possamos fazer.

-Não posso ficar calma, mãe! A vingança do José Afonso não acabou1 Ele quer que o Marcão pague até o fim da vida!

Alarmada, a mulher deu um calmante à menina, ficando com ela até que adormecesse. Depois, ligou para o marido, contando tudo.

-Jônatas, estou preocupada com a Lilith. Ela falou que o Alfredinho morreu!

-Marisa, você acha que...

-Que o fantasma do José Afonso se vingou? O que mais pode ser?

-Bem, tenho uma ideia. Ligue para a escola, dizendo que a Lilith não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente. Talvez digam algo, se tiver acontecido alguma coisa.

-Está bem, vou ligar.

-Vou voltar mais cedo. Até mais.

-Até mais, querido.

Marisa ligou para a secretaria da escola, sabendo que, se algo houvesse realmente acontecido, ela acabaria sabendo.

-Alô. atendeu uma voz de mulher.

-Alô. Sou mãe de uma aluna, a Lilith. Eu queria comunicar que ela não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente.

-A senhora não tem que se incomodar. Hoje, um aluno morreu caindo da escada e não vai haver aula amanhã.

-Morreu um aluno?! assustou-se.

-É, um rapaz chamado Alfredo. Um monte de alunos viu. É o segundo aluno desta escola que morre tragicamente. A polícia está aqui agora. Meu Deus, ele era colega do que se chamava José Afonso, o que encontraram morto na velha escola fechada.

-Meu Deus, que tragédia! Obrigada, tchau!

-Tchau, senhora.

Com as mãos trêmulas, a mulher recolocou o fone no lugar e foi dar uma olhada em Lilith. Sua filha adotiva, a quem amava como se fosse sua filha de verdade, dormia profundamente.

-Meu Deus, por que uma criança como a Lilith tem que sofrer tanto? É muito peso para os ombros dela!

Quando o marido chegou, foi até ele, dizendo:

-Querido, o Alfredinho está morto!

-Como é?! Então...

-Sim, foi como a Lilith disse!

-E agora, o que será de nossa filha? Ela não pode enfrentar isso sozinha!

-Talvez devêssemos tirá-la da escola.

-Seria muito pesado para ela continuar ali depois de tudo que houve. Vou me encarregar disso depois do enterro do Alfredinho.

-Mas Jônatas, ela continuará vendo gente que morreu.

-Eu sei, mas isso é algo com que teremos de lidar. Enquanto formos vivos, nós a ajudaremos. Depois, eu não sei.

Em seu quarto, Lilith despertara e, ao abrir os olhos, viu Alfredinho ao lado de sua cama.

-Alfredinho...

-Lilith, os dois fantasmas me mataram.

-Eu sei, eu vi. Eles me mostraram.

-Malditos, eu os odeio.

Lilith sentou na cama e falou:

-Alfredinho, chega! Tudo começou com ódio! Primeiro, foi o ódio da menina; depois, o do José Afonso! Agora, será o seu ódio que dará continuidade a esse círculo maldito?

-Mas Lilith, eu estou morto por culpa deles!

-E você poderá mudar isso? Alfredinho, você não pode voltar à vida, assim como você não pode se livrar da responsabilidade por seus atos! Você também errou indo àquela escola e não procurando a polícia para contar o que tinha acontecido com o José Afonso! E não adianta culpar só o Marcão e o José Afonso! Você é livre, podia não ter ido!

-O Marcão me paga!

-Não acha que ele já está pagando?

-Não o suficiente!

O fantasma de Alfredinho sumiu e Lilith viu a porta do seu quarto se abrir. Eram seus pais, com os rostos preocupados.

-Querida, com quem você falava? o pai estava tenso.

-Com o Alfredinho, pai.

-Será que não a deixarão em paz? a mãe sentou ao seu lado, abraçando-a.

-Não sei, mãe.

domingo, 14 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 18


 


Lilith não iria à escola aquele dia. Seus pais, preocupados, haviam achado melhor que ela ficasse em repouso e a mãe resolvera não ir trabalhar para ficar com ela, que acordara várias vezes à noite, intranquila e assustada, sentindo que uma ameaça indefinível pairava malevolamente próxima a ela.

"O que está para acontecer?"

Ela acordara aquela manhã com a mãe lhe acariciando os cabelos e abrira os olhos.

-Mãe...

-Querida, como está?

-Esgotada.

-Seu pai e eu vamos conversar sobre o que fazer para lhe ajudar.

-Então...

-Sim, já sei de tudo. Lilith, você devia ter nos contado há mais tempo. Por que não o fez?

-Eu tinha medo.

-De que, querida?

-De acharem que eu era louca ou um monstro.

-Você devia ter confiado em nós, Lilith. Somos seus pais e amamos você.

-Mãe,desculpe.lágrimas desceram dos seus olhos.

-Está tudo bem. Não estou zangada. Hoje, você fica descansando. Quando se recuperar desse abalo, nós conversamos.

A mãe perguntou se ela tinha fome e ela respondeu que não, o que preocupou a mulher.

-Lilith, ficar sem comer não vai ajudá-la.

Lilith aceitou comer um pouco, e depois a mãe a deixou sozinha.

-Chame-me se precisar, certo?

-Certo, mãe.

Esticou-se na cama, exausta demais para pensar. Toda a experiência do dia anterior fora amedrontadora. "Eu nunca devia ter concordado em participar desse maldito ritual! Sabia que não era nada além de..."

Uma sensação interrompeu seu pensamento. Era algo que ela conhecia bem: o frio intenso junto com o cheiro pesado e opressor da morte. Abriu os olhos, pensando que não gostaria do que veria.

-Você... falou, desanimada e nem um pouco surpresa.

-Esperava por mim, Lilith?

-Não, sua presença não é bem-vinda, principalmente depois do que você me fez passar.

-Que pena que você não aprecia minha companhia.

-Como eu poderia apreciar sua companhia? Você é um fantasma bem ruinzinho! Tem me perseguido e estou cansada! Deixe-me em paz!

-Não deixo, não. Sabe, Lilith, ainda não acabou.

-Vá embora!

-Alguém mais vai morrer hoje, Lilith. Quer saber quem será?

-Não, vá e me deixe em paz!

-Você não vai se livrar de mim, Lilith!

Furiosa, Lilith sentou na cama e disse ao fantasma:

-Seu monstro! O que você é? De quem você pode falar? Você não é Deus ou o que quer que seja, não é melhor do que ninguém, seu fantasma egoísta!

-Você defende quem não merece, Lilith! Veja o que as pessoas fizeram a você. Toda a sua vida, você tem sofrido discriminação, sido chamada de esquisita, doida. Ninguém entende um poder como o seu, Lilith.

-Este poder não passa de uma maldição. Antes eu não pudesse perceber você e tantos outros que vêm me perturbar, contando-me seus ódios e seus problemas!

-Bem, Lilith, você vai sentir tudo o que vai acontecer.

-Vá embora, maldito fantasma!

O fantasma não foi embora, mas se aproximou mais de Lilith, fazendo-a olhar em seus olhos.

-Olhe dentro dos meus olhos, Lilith.

Lilith não soube definir o que viu naqueles olhos, pois havia muita dor, mas também muita maldade. Uma maldade inconsequente, resultante de uma profunda revolta por ter morrido.

-Esqueça o que você pretende. Nada do que fizer lhe fará voltar à vida. E por que matar? Não temos o direito de decidir o destino de ninguém!

A resposta do fantasma foi uma gargalhada sinistra, que fez os cabelos da nuca de Lilith se arrepiarem. Lilith tapou os ouvidos, mas o fantasma riu mais alto e se aproximou mais dela, tocando-lhe o rosto.

Então, Lilith viu coisas que a fizeram pensar que enlouqueceria: um corredor frio e escuro, no qual almas desesperadas estendiam os braços, gemendo, rindo e chorando. As almas eram horrendas. Algumas tinham aparência emaciada e trajavam roupas de hospital, outras apresentavam feios ferimentos.

A menina e José Afonso andavam pelo corredor, rindo malevolamente. Lilith os via acenando para ela e queria fechar os olhos, rezando mentalmente pelo fim daquele pesadelo.

-Junte-se a nós, Lilith. Junte-se a nós.

Lilith baixava a cabeça e chorava. José Afonso perguntava:

-Quer saber quem vai morrer hoje, Lilith?

-Não.

-Mas vai saber. Ouça e sinta.


domingo, 7 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 17


 




Aquela noite, Alfredinho teve um sonho inexplicável. Sonhou que passava em frente à velha escola e ouvia uma voz: "Alfredinho, Alfredinho, venha brincar comigo, por favor. Eu estou tão só." Amedrontado, pediu:

-Não, deixe-me em paz!

-Não posso, Alfredinho! Você não veio aqui, não pisou no terreno que o aconselharam a não pisar? Uma vez que você pisou aqui, os mortos querem que você volte.

-Não, por favor!

Então, Alfredinho via que quem o chamava era Lilith.

-L-Lilith?

Ela estava muito perto do portão, trajando longa túnica negra, os cabelos soltos, a pele pálida se assemelhando a cera e as pupilas, totalmente dilatadas. Marcas arroxeadas emolduravam-lhe os olhos como discretos hematomas e as mãos finas seguravam uma vela.

-Lilith, por que me chama?

-Temos que completar o círculo, Alfredinho. Estamos todos mortos. Veja.

Súbito, Marcão e José Afonso surgiam atrás dele, igualmente mortos e pálidos.

-Hora de se juntar a nós, Alfredinho.

Marcão e José Afonso o agarraram e ele gritou:

-Soltem-me, malditos!

Como mortos podiam ter tanta força? E, além daquilo, as mãos frias tinham um toque repugnante!

-Soltem-me!

-Nunca,Alfredinho!

Lilith apenas olhava, impassível.

Alfredinho acordou, suado e trêmulo. Podia jurar que sentira as mãos da morte a agarrá-lo.

-Que será que isso significa, meu Deus?

O que ocorrera na casa de Lilith fora indescritível. Ele nunca poderia imaginar que coisas daquele tipo pudessem acontecer. E que fossem tão horríveis. Sentira toda a ira de José Afonso, a maldade da menina morta e o perigo de mexer com o sobrenatural. E sabia que nada mais seria o mesmo. Sua mãe, os pais de Lilith e os de Marcão sabiam do seu segredo vergonhoso.

-Minha vida acabou.

Trocou de roupa para ir à escola. Podia escutar sua mãe preparando o desjejum. No dia anterior, quando ambos haviam deixado a casa de Lilith, ela dissera:

-Eu lhe avisei para tomar cuidado com más companhias, Alfredo! Como você foi se meter com gente como o Marcão e a Lilith, meu filho?

Torturado pela lembrança, foi à cozinha. A mãe perguntou:

-Dormiu bem, meu filho?

-Sim, mãe.

-Por favor, nunca mais se meta com aquela Lilith. Ela não é normal. Nem com Marcão.

-Mãe, a Lilith não é louca. Ela realmente vê gente morta. E tudo o que eu contei aconteceu mesmo.

-Mais um motivo para se afastar dela. Que bem ela lhe fez?

-Ela me avisou para não ir à velha escola, mãe. Eu devia tê-la ouvido.

-Isso não importa agora.

-Não, mãe? Não importa? O Marcão, o José Afonso e eu fizemos a burrice de ir lá, e depois o Marcão e eu fugimos! Nós fomos covardes, mãe! Será que não vê, mãe? Eu sou culpado, o Marcão é culpado, o José Afonso foi culpado! A Lilith é a única inocente nesta história!

-Meu filho, cale-se! Nunca mais diga essas coisas! Que culpa você teve da morte do José Afonso ou daquela menina ter incorporado espíritos? Se ela pode fazer essas coisas, ela é uma aberração!

Alfredinho se calou, não porque concordasse com a mãe, mas por ver que seria inútil continuar discutindo com ela. Tomou o café da manhã em silêncio, mal sentindo o gosto da comida.

Quando ela o deixou na escola, aconselhou-o:

-Mantenha-se bem afastado do Marcão e da Lilith, meu filho.

Despediu-se da mãe e desceu do carro, pensando em como seria o seu dia. Teria peito para encarar Marcão e Lilith depois do que acontecera? Tinha a impressão de estar vivendo um pesadelo.

"É estranho como tudo isto que estou vivendo não faz sentido, embora seja real."


domingo, 31 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 16


 



Marcão e seus pais voltaram para casa sem trocar nenhuma palavra. Ao entrarem, o pai disse:

-A gente se mata para educar os filhos e eles fazem isso! Marcos, como você foi fazer um ritual pego da Internet? Viu o perigo?

-Eu queria ter paz, pai.

-E se a menina morresse, meu Deus? Eu nunca pensei que você fosse capaz de ser tão idiota, inconsequente e covarde! Eu vou gastar um dinheirão para pagar os vidros quebrados, mas saiba de uma coisa: você vai ficar sem smartphone para ajudar a pagar o prejuízo!

-Pois quer saber, pai? Pode parar de me dar mesada, roupa e tudo o mais! Todas as noites, o José Afonso me assombra em sonhos, acusando-me de covarde e traidor! O que é ficar sem dinheiro? Não é nada, comparado a não ter paz, a não poder dormir! Eu posso ficar sem smartphone, roupa nova e cartão de crédito, mas não posso ficar sem paz!

Quase em lágrimas, Marcão saiu de perto dos pais, trancando-se no quarto. A mãe começou a chorar e o marido a abraçou, lamentando:

-O que fizemos de errado, meu Deus? O que aconteceu? Ele não quis aprender nada do que ensinamos?

-Querido, que faremos quanto à história do fantasma? José Afonso está assombrando o nosso filho e ele não está suportando!

-Não sei, meu bem. Sei apenas que estou totalmente perdido.

Ajoelhado no chão do seu quarto, Marcão escutara a conversa dos pais e falou:

-Muito bem, José Afonso, você conseguiu, não foi? Acabou com a minha vida! Que você pode dizer? Que eu mereço, porque não presto? Está certo, eu não presto, mas você também não, seu fantasma desgraçado! Se eu soubesse que você seria capaz de ser tão vingativo e cruel, eu nunca teria sido seu amigo! Eu odeio você, seu fantasma de merda!

Passou o resto da noite jogado na cama, pensando em como tudo que começara com uma tola brincadeira destruíra todos os alicerces de sua vida. Quem confiaria nele, sabendo o que ele fizera? Este infeliz episódio se tornara uma nódoa, como as marcas na pele de um leproso ou a cicatriz de um ferimento profundo. Nem seus pais confiavam mais nele. Tinham-no, e com razão, como um covarde incapaz de socorrer os amigos e de enfrentar as consequências de seus atos.

"Meu Deus, eu não consigo pensar que vou viver com isso o resto da minha vida! Antes morrer para me libertar deste peso!"

Não! No que ele estivera pensando? Em se matar? Estaria caindo na artimanha de José Afonso ou cedendo a uma tentação covarde? Encolheu-se, chorando.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 15


 


-Eu quero saber o que aconteceu! Quem são vocês e por que a Lilith está tão... abalada?

-Querida, como ela está?

-Esgotada e assustada. Tive de dar um calmante a ela.

-Escute, querida, melhor você se sentar, porque o que vou contar parece impossível.

-Certo mas- olhou Marcão e Alfredinho com ar inquisidor- quem são vocês e por que os vidros da casa quebraram assim?

-Vou explicar tudo.

Marcão e Alfredinho ouviram o pai de Lilith contar tudo, desde as visões da filha aos quatro anos de idade até o ritual daquele dia. Quando ele terminou, a mulher falou:

-C-como?!Mas isso não é possível! Jônatas, essa história é totalmente absurda!

-Não, querida, não é. Tudo isso tem acontecido com nossa filha desde os quatro anos.

A mulher cobriu o rosto com as mãos, chorando.

-E nós sempre nós perguntamos qual o problema com a Lilith! Não entendíamos o porquê dela gritar durante a noite ou se esconder debaixo da cama com a lanterna acesa e perguntamos ao terapeuta infantil o que podia ser! Ele falou que podia ser medo do escuro e que era normal na idade dela! Vocês deviam ver- olhou com ar reprovador para os rapazes- como é para os pais ver que a filha deles não consegue se enturmar! Achávamos que fosse inadequação e sentimento de rejeição por pensar que os pais de verdade não a quiseram!

O pai continuou:

-Sempre tentamos fazer com que a Lilith visse com que a amamos como se fosse nossa filha de verdade e não entendíamos o que havia com ela. Eu pensava que fosse depressão e me preocupei mais quando ela começou a se vestir só de preto. Mas o terapeuta disse que provavelmente era só fase e nos aconselhou a não proibir. Recentemente, estávamos com medo de que ela estivesse com anorexia nervosa, não, querida?

Os pais de Lilith falavam mais para si mesmos, não dando muita atenção a Marcão e Alfredinho, que estavam embaraçados.

A mãe secou os olhos e olhou para eles, raivosa:

-Seus dois idiotas! Vejam o que fizeram! Eu nem quero imaginar o que podia ter acontecido com a minha filha!

-Senhora, nós... Marcão começou.

-Cale-se, rapaz! Você tem sorte de não ser meu filho, senão eu lhe daria uma surra! cortou o pai de Lilith.

Os pais de Marcão vieram e perguntaram:

-O que aconteceu?

O pai de Lilith se apresentou e lhes pediu que sentassem.

-Não querem tomar algo? perguntou a mãe de Lilith.

-Não, senhora, obrigado.

A mãe de Marcão olhou para os vidros quebrados espalhados pela casa, sem entender o que acontecera e se perguntando de que maneira seu filho, que estava de cabeça baixa, poderia estar envolvido naquilo.

Devagar, o pai de Lilith começou a contar tudo ao casal surpreso e incrédulo. A mãe olhou para Marcão, aflita:

-Marcos, meu filho, é verdade?

Marcão continuou de cabeça baixa, sem coragem de olhar seus pais, que escutavam a história horrorizados. O pai dele protestou:

-Não, eu não acredito que vocês fizeram tamanha burrice! Crescem para quê? Fale alguma coisa, Marcos, fale!

Marcão não falou e o pai de Lilith disse a Alfredinho:

-Fale da visita que minha filha fez à sua casa, rapaz.

Envergonhado, Alfredinho falou da visita e da conversa que tivera com Marcão.

-Isso não é possível! a mãe de Marcão não queria acreditar.

Ouviram a campainha. Era a mãe de Alfredinho, que também se assustou com os vidros quebrados. A mulher se adiantou:

-Tenho certeza de que meu filho não fez nada de errado. Foi um engano.

Os pais de Lilith e Marcão a puseram a par de tudo, mas ela não quis acreditar.

-Não, meu filho Alfredo é um rapaz maduro. Jamais se envolveria com isso. E que história é essa de gente morta? Isso é impossível! Alfredo não é de fazer isso!

O pai de Marcão falou:

-Eu também não consigo acreditar que tudo isso aconteceu.

Marcão resolveu falar:

-Mas é tudo verdade, pai. Veja o ritual. deu um papel ao pai, que o leu de olhos arregalados.

Curioso, o pai de Lilith pegou o papel e, após lê-lo, vociferou:

-O médium que participa do ritual põe sua vida em risco?! A Lilith sabia disso, rapaz?

Envergonhados, os rapazes balançaram as cabeças negativamente.

-Meu Deus, Marcos! Veja tudo o que aconteceu! Vocês foram a um lugar abandonado de noite, deixaram o José Afonso morto ali, não contaram a ninguém e ainda fizeram essa porcaria de ritual?! Fale alguma coisa, Marcos! O José Afonso era seu amigo e você fez isso? E ainda fez essa menina correr perigo?

A mãe de Alfredinho se revoltou:

-Meu filho é um bom menino, não tem culpa de nada! A culpa - olhou para Marcão - foi sua e do seu amigo, que estavam cheios de más intenções! Meu Alfredinho foi uma vítima em toda essa história! E também posso dizer que foi culpa dessa menina!

-O quê?! os pais de Lilith se enraiveceram.

-Eu já vi sua filha muitas vezes ao deixar ou pegar meu filho na escola e ele me falou que a chamavam de doida. Aliás, qualquer um vê que ela não tem o juízo certo! E que pessoa em seu juízo certo ficaria falando de fantasmas para assombrar os outros como ela fez? Assombrou o meu filho!

-Senhora, está na minha casa! Não tem o direito de ser grossa! gritou o pai de Lilith.

-Sou mãe e vou defender meu filho! Ele me falava muito que esse rapaz - encarou Marcão com raiva - e o rapaz morto zombavam dele, chamando-o de nerd. Tinham inveja,isso sim, porque meu filho era o primeiro da turma e eles sempre foram péssimos alunos!

-Senhora - o pai de Marcão tentou contemporizar - todos erraram nessa história. Meu filho errou, o José Afonso errou e o seu errou. Se meu filho fazia bullying com o seu, peço desculpas por isso e também me envergonho, porque eu o ensinei a respeitar os outros e vejo que ele não quis aprender, mas não use isso para diminuir a responsabilidade do seu filho nessa história. Ninguém mandou seu filho ir à escola abandonada ou tomar parte num ritual. Ele é um rapaz crescido e tem que ser responsável pelo que faz.

-Pois eu vou embora daqui! Alfredinho, vamos para casa!

Assim que Alfredinho e a mãe se foram, o pai de Marcão perguntou ao de Lilith:

-Contamos aos pais do José Afonso?

-Não, melhor que não saibam. Apenas sofreriam mais.

-Quero que me passe a conta do prejuízo, por favor. observou os cacos de vidro espalhados pela casa.

-Não se preocupe com isso. Eu só quero que seu filho não chegue mais perto da minha filha.

-É uma exigência justa. Bem, nós vamos embora. Marcos, vamos.

Sempre de cabeça baixa, Marcão foi embora com os pais.

Vendo os vidros quebrados, os pais de Lilith concordaram em recolhê-los. De todos os problemas com que teriam de lidar, aquele, sem dúvida, era o menos grave.

-Precisamos pensar em como ajudar a Lilith, Jônatas.

-Antes de tudo, mostremos a ela que não está sozinha e que nós a apoiaremos sempre.

Passaram pelo quarto de Lilith. Ela dormia.


terça-feira, 19 de maio de 2026

O fantasma da velha escola -14

 




-Marcão, será que ela...

-Vamos ver! aproximou-se dela.

-Meus Deus, todas as janelas quebraram! O que faremos?

Marcão viu que Lilith respirava e tinha pulso.

-Ela está viva! Lilith, Lilith!

Sacudiram-na e ela abriu os olhos, confusa. Sua palidez era assustadora e lágrimas escorriam das laterais dos seus olhos.

-Lilith, você está bem? indagou Marcão.

Lilith olhou para os dois, atordoada e, repentinamente, começou a chorar de forma desesperada.

-Calma, Lilith. pediu Alfredinho.

Os dois, debruçados sobre Lilith, não viram nem ouviram o pai dela chegar e abrir a porta, deparando-se com um horrível espetáculo: a filha estendida no chão, dois desconhecidos ajoelhados ao lado dela e todas as janelas quebradas.

-Seus desgraçados! Que estão fazendo com minha filha?

Assustados, Marcão e Alfredinho saíram de perto dela. O pai se aproximou, preocupadíssimo.

-Lilith, querida, o que aconteceu? Que fizeram a você?

Um pouco mais calma, Lilith respondeu:

-N-não foram eles...

Com ar severo, o pai de Lilith olhou para os rapazes e perguntou:

-O que aconteceu aqui? Por que as janelas da minha casa estão quebradas e a minha filha está assim?

-P-pai, e-eu p-posso ex-explicar...

-Calma, vamos para o quarto. Vocês dois esperem aqui, porque vou querer uma explicação!

Com muita delicadeza, o pai pegou a filha nos braços, carregando-a até o quarto, onde ficaram conversando por um longo tempo e, durante esse tempo, Marcão e Alfredinho esperaram sentados no sofá, sem ousar dizer nada. Escutaram o pai abrir a porta e falar:

-Está tudo bem, querida. Vou ligar para a sua mãe e chamá-la.

-Pai, está zangado?

-Não, eu entendo. Fique deitada. Está tudo bem.

-E os rapazes?

-Vou conversar com eles. Descanse, certo?

Viram o pai sair e fechar a porta do quarto, indo até onde eles estavam. Encolheram-se. Ele era um homem muito alto, de cabelos grisalhos e barba bem-aparada.

-Co-como ela está?atreveu-se Marcão.

O rosto do homem era uma esfinge.

-A Lilith vai ficar bem? perguntou Alfredinho.

-Quem de vocês é o Alfredinho?

-Eu. respondeu Alfredinho.

-Então, você é o Marcão. o homem voltou-se para Marcão.

-Sim, sou eu.

-O que a Lilith me contou é difícil demais de digerir.

-O-o que ela contou ao senhor? Marcão não ousava olhá-lo nos olhos.

-Ela me contou sobre o... que ela tem visto desde os quatro anos e me falou sobre o fantasma da menina, o que assombra aquela escola e o que aconteceu com o José Afonso. Então, você e o José Afonso queriam pregar uma peça uma peça no Alfredinho, não é? a voz engrossou.

Marcão baixou a cabeça, e o homem insistiu:

-Responda, rapaz!

-Sim, a gente queria pregar uma peça no Alfredinho.

-Agora, você, Alfredinho. A Lilith avisou para você não ir à escola, não foi?

-Foi, senhor.

-Fale-me o que ela disse e o que ocorreu na velha escola. Aliás, quero que me contem tudo.

Alfredinho contou sobre o aviso de Lilith para que ele não fosse à velha escola, a morte de José Afonso e a visita que Lilith fizera à sua casa.

O pai de Lilith escutou com o rosto inexpressivo. Depois, perguntou:

-A Lilith disse a vocês dois que o José Afonso queria ser enterrado, não é?

-Sim, senhor. responderam os rapazes.

-Mas pelo visto, vocês não iriam fazer nada e o corpo do José Afonso iria apodrecer lá se ela não tivesse ligado anonimamente para a polícia, eu suponho. a voz demonstrava asco.

-Senhor, queremos que entenda que...

-Quero que continuem contando a história!

Vendo o olhar do pai de Lilith fixo sobre ele, Alfredinho contou que Lilith o procurara no velório de José Afonso para avisar que o morto não queria Marcão e ele no funeral.

-A Lilith me contou que o morto falou com ela no velório. Sabe, naquele dia, a mãe e eu a ouvimos falando com alguém e não entendemos. Ela não quis dizer o que era no dia, mas disse hoje que ele estava dizendo que assombraria vocês até o fim de suas vidas.

-Ele estava fazendo isso, senhor. adiantou-se Marcão.

-Como?

Marcão e Alfredinho foram contando tudo sobre os pesadelos. Nesse tempo, a mãe de Lilith chegou e, ao ver os vidros quebrados, assustou-se.

-Jônatas, o que é isso? O que houve com a Lilith?

Ele foi até a mulher e pediu:

-Querida, sei que é tudo muito estranho, mas prometo que vou explicar. Agora, vá ficar com a Lilith.

-Ela...?

-Ela está bem.

A mulher foi ao quarto de Lilith e o homem, olhando os vidros quebrados, falou:

-Agora, expliquem o que foi isso na minha casa!

-Bem, senhor...

-Falem, eu estou esperando! Não escondam nada, entenderam? Quero a verdade e não tentem mentir!

-Nós resolvemos fazer um ritual para afastar o espírito do José Afonso. esclareceu Marcão.

-E o que vocês são para fazer isso? Padres, exorcistas? Têm ideia do que fizeram? Mas como a Lilith se envolveu nisso?

-O ritual precisa de um médium, senhor.

-E minha filha entrou nisso por vontade dela?

Os dois se entreolharam e o homem os pressionou:

-Ela quis participar disso?

-Hum... os dois não ousaram responder.

-Ou vocês fizeram chantagem para convencê-la, dizendo que, se ela não concordasse, espalhariam o segredo dela, não? Não precisam se preocupar, ela falou que até disse a você, Marcão, que você não poderia provar, mas você disse que todos na escola adorariam ter mais uma razão para chamá-la de esquisita! Você disse isso?

-Senhor, eu não pretendia fazer isso, juro! A gente estava desesperado para se livrar do problema. Não temos nada contra a Lilith. jurou Marcão.

-Certo, vocês não têm nada contra ela, o que não os impediu de usar o ponto fraco dela para envolvê-la nessa burrada! Aliás, essa história começou com uma burrada sem tamanho! Como vocês saem à noite, escondidos de suas famílias, para ir a um lugar abandonado? Vejam o que houve! O rapaz está morto! Morto numa idade em que tinha toda a vida pela frente! Meus Deus, vocês não são criancinhas! Como foram fazer uma idiotice dessas? E depois tentam resolver com outra burrada, envolvendo minha filha? Ela não tem nada a ver com o grave erro que o rapaz morto e vocês cometeram! E de onde pegaram esse ritual?

-Da Internet. confessou Marcão.

-Da Internet?! Vocês pegam um ritual da Internet, com quem pega uma receita de bolo, sem saber o perigo?

-Tomamos as precauções necessárias para nos protegermos. protestou Alfredinho.

-É - o homem olhou ao redor, os olhos cheios de ironia - vejo que tomaram! - Olhem a minha casa, vejam como a Lilith está!

-O-o que o senhor vai fazer?

-Vou chamar os pais de vocês e eles vão saber a verdade!

-Não, por favor! imploraram os rapazes.

-Vejam o que fizeram com a minha filha! Tudo porque foram burros de ir de noite a uma escola abandonada e depois, covardes para enfrentar as consequências dos seus atos!

Marcão estava quase chorando ao dizer:

-Senhor, todos os dias, eu sinto culpa por ter deixado meu amigo para trás.

O pai de Lilith não se comoveu.

-Sua culpa não o impediu de silenciar sobre o que houve com seu amigo e fazer o que fez com minha filha!

-Mas senhor, isso causará muito sofrimento a nossos pais! Alfredinho tentou argumentar.

Irredutível, o pai de Lilith mandou que os jovens fizessem os telefonemas e, pouco tempo depois, a mãe de Lilith desceu, o olhar de quem exigia explicações.