terça-feira, 19 de maio de 2026

O fantasma da velha escola -14

 




-Marcão, será que ela...

-Vamos ver! aproximou-se dela.

-Meus Deus, todas as janelas quebraram! O que faremos?

Marcão viu que Lilith respirava e tinha pulso.

-Ela está viva! Lilith, Lilith!

Sacudiram-na e ela abriu os olhos, confusa. Sua palidez era assustadora e lágrimas escorriam das laterais dos seus olhos.

-Lilith, você está bem? indagou Marcão.

Lilith olhou para os dois, atordoada e, repentinamente, começou a chorar de forma desesperada.

-Calma, Lilith. pediu Alfredinho.

Os dois, debruçados sobre Lilith, não viram nem ouviram o pai dela chegar e abrir a porta, deparando-se com um horrível espetáculo: a filha estendida no chão, dois desconhecidos ajoelhados ao lado dela e todas as janelas quebradas.

-Seus desgraçados! Que estão fazendo com minha filha?

Assustados, Marcão e Alfredinho saíram de perto dela. O pai se aproximou, preocupadíssimo.

-Lilith, querida, o que aconteceu? Que fizeram a você?

Um pouco mais calma, Lilith respondeu:

-N-não foram eles...

Com ar severo, o pai de Lilith olhou para os rapazes e perguntou:

-O que aconteceu aqui? Por que as janelas da minha casa estão quebradas e a minha filha está assim?

-P-pai, e-eu p-posso ex-explicar...

-Calma, vamos para o quarto. Vocês dois esperem aqui, porque vou querer uma explicação!

Com muita delicadeza, o pai pegou a filha nos braços, carregando-a até o quarto, onde ficaram conversando por um longo tempo e, durante esse tempo, Marcão e Alfredinho esperaram sentados no sofá, sem ousar dizer nada. Escutaram o pai abrir a porta e falar:

-Está tudo bem, querida. Vou ligar para a sua mãe e chamá-la.

-Pai, está zangado?

-Não, eu entendo. Fique deitada. Está tudo bem.

-E os rapazes?

-Vou conversar com eles. Descanse, certo?

Viram o pai sair e fechar a porta do quarto, indo até onde eles estavam. Encolheram-se. Ele era um homem muito alto, de cabelos grisalhos e barba bem-aparada.

-Co-como ela está?atreveu-se Marcão.

O rosto do homem era uma esfinge.

-A Lilith vai ficar bem? perguntou Alfredinho.

-Quem de vocês é o Alfredinho?

-Eu. respondeu Alfredinho.

-Então, você é o Marcão. o homem voltou-se para Marcão.

-Sim, sou eu.

-O que a Lilith me contou é difícil demais de digerir.

-O-o que ela contou ao senhor? Marcão não ousava olhá-lo nos olhos.

-Ela me contou sobre o... que ela tem visto desde os quatro anos e me falou sobre o fantasma da menina, o que assombra aquela escola e o que aconteceu com o José Afonso. Então, você e o José Afonso queriam pregar uma peça uma peça no Alfredinho, não é? a voz engrossou.

Marcão baixou a cabeça, e o homem insistiu:

-Responda, rapaz!

-Sim, a gente queria pregar uma peça no Alfredinho.

-Agora, você, Alfredinho. A Lilith avisou para você não ir à escola, não foi?

-Foi, senhor.

-Fale-me o que ela disse e o que ocorreu na velha escola. Aliás, quero que me contem tudo.

Alfredinho contou sobre o aviso de Lilith para que ele não fosse à velha escola, a morte de José Afonso e a visita que Lilith fizera à sua casa.

O pai de Lilith escutou com o rosto inexpressivo. Depois, perguntou:

-A Lilith disse a vocês dois que o José Afonso queria ser enterrado, não é?

-Sim, senhor. responderam os rapazes.

-Mas pelo visto, vocês não iriam fazer nada e o corpo do José Afonso iria apodrecer lá se ela não tivesse ligado anonimamente para a polícia, eu suponho. a voz demonstrava asco.

-Senhor, queremos que entenda que...

-Quero que continuem contando a história!

Vendo o olhar do pai de Lilith fixo sobre ele, Alfredinho contou que Lilith o procurara no velório de José Afonso para avisar que o morto não queria Marcão e ele no funeral.

-A Lilith me contou que o morto falou com ela no velório. Sabe, naquele dia, a mãe e eu a ouvimos falando com alguém e não entendemos. Ela não quis dizer o que era no dia, mas disse hoje que ele estava dizendo que assombraria vocês até o fim de suas vidas.

-Ele estava fazendo isso, senhor. adiantou-se Marcão.

-Como?

Marcão e Alfredinho foram contando tudo sobre os pesadelos. Nesse tempo, a mãe de Lilith chegou e, ao ver os vidros quebrados, assustou-se.

-Jônatas, o que é isso? O que houve com a Lilith?

Ele foi até a mulher e pediu:

-Querida, sei que é tudo muito estranho, mas prometo que vou explicar. Agora, vá ficar com a Lilith.

-Ela...?

-Ela está bem.

A mulher foi ao quarto de Lilith e o homem, olhando os vidros quebrados, falou:

-Agora, expliquem o que foi isso na minha casa!

-Bem, senhor...

-Falem, eu estou esperando! Não escondam nada, entenderam? Quero a verdade e não tentem mentir!

-Nós resolvemos fazer um ritual para afastar o espírito do José Afonso. esclareceu Marcão.

-E o que vocês são para fazer isso? Padres, exorcistas? Têm ideia do que fizeram? Mas como a Lilith se envolveu nisso?

-O ritual precisa de um médium, senhor.

-E minha filha entrou nisso por vontade dela?

Os dois se entreolharam e o homem os pressionou:

-Ela quis participar disso?

-Hum... os dois não ousaram responder.

-Ou vocês fizeram chantagem para convencê-la, dizendo que, se ela não concordasse, espalhariam o segredo dela, não? Não precisam se preocupar, ela falou que até disse a você, Marcão, que você não poderia provar, mas você disse que todos na escola adorariam ter mais uma razão para chamá-la de esquisita! Você disse isso?

-Senhor, eu não pretendia fazer isso, juro! A gente estava desesperado para se livrar do problema. Não temos nada contra a Lilith. jurou Marcão.

-Certo, vocês não têm nada contra ela, o que não os impediu de usar o ponto fraco dela para envolvê-la nessa burrada! Aliás, essa história começou com uma burrada sem tamanho! Como vocês saem à noite, escondidos de suas famílias, para ir a um lugar abandonado? Vejam o que houve! O rapaz está morto! Morto numa idade em que tinha toda a vida pela frente! Meus Deus, vocês não são criancinhas! Como foram fazer uma idiotice dessas? E depois tentam resolver com outra burrada, envolvendo minha filha? Ela não tem nada a ver com o grave erro que o rapaz morto e vocês cometeram! E de onde pegaram esse ritual?

-Da Internet. confessou Marcão.

-Da Internet?! Vocês pegam um ritual da Internet, com quem pega uma receita de bolo, sem saber o perigo?

-Tomamos as precauções necessárias para nos protegermos. protestou Alfredinho.

-É - o homem olhou ao redor, os olhos cheios de ironia - vejo que tomaram! - Olhem a minha casa, vejam como a Lilith está!

-O-o que o senhor vai fazer?

-Vou chamar os pais de vocês e eles vão saber a verdade!

-Não, por favor! imploraram os rapazes.

-Vejam o que fizeram com a minha filha! Tudo porque foram burros de ir de noite a uma escola abandonada e depois, covardes para enfrentar as consequências dos seus atos!

Marcão estava quase chorando ao dizer:

-Senhor, todos os dias, eu sinto culpa por ter deixado meu amigo para trás.

O pai de Lilith não se comoveu.

-Sua culpa não o impediu de silenciar sobre o que houve com seu amigo e fazer o que fez com minha filha!

-Mas senhor, isso causará muito sofrimento a nossos pais! Alfredinho tentou argumentar.

Irredutível, o pai de Lilith mandou que os jovens fizessem os telefonemas e, pouco tempo depois, a mãe de Lilith desceu, o olhar de quem exigia explicações.

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