terça-feira, 26 de maio de 2026

O fantasma da velha escola - 15


 


-Eu quero saber o que aconteceu! Quem são vocês e por que a Lilith está tão... abalada?

-Querida, como ela está?

-Esgotada e assustada. Tive de dar um calmante a ela.

-Escute, querida, melhor você se sentar, porque o que vou contar parece impossível.

-Certo mas- olhou Marcão e Alfredinho com ar inquisidor- quem são vocês e por que os vidros da casa quebraram assim?

-Vou explicar tudo.

Marcão e Alfredinho ouviram o pai de Lilith contar tudo, desde as visões da filha aos quatro anos de idade até o ritual daquele dia. Quando ele terminou, a mulher falou:

-C-como?!Mas isso não é possível! Jônatas, essa história é totalmente absurda!

-Não, querida, não é. Tudo isso tem acontecido com nossa filha desde os quatro anos.

A mulher cobriu o rosto com as mãos, chorando.

-E nós sempre nós perguntamos qual o problema com a Lilith! Não entendíamos o porquê dela gritar durante a noite ou se esconder debaixo da cama com a lanterna acesa e perguntamos ao terapeuta infantil o que podia ser! Ele falou que podia ser medo do escuro e que era normal na idade dela! Vocês deviam ver- olhou com ar reprovador para os rapazes- como é para os pais ver que a filha deles não consegue se enturmar! Achávamos que fosse inadequação e sentimento de rejeição por pensar que os pais de verdade não a quiseram!

O pai continuou:

-Sempre tentamos fazer com que a Lilith visse com que a amamos como se fosse nossa filha de verdade e não entendíamos o que havia com ela. Eu pensava que fosse depressão e me preocupei mais quando ela começou a se vestir só de preto. Mas o terapeuta disse que provavelmente era só fase e nos aconselhou a não proibir. Recentemente, estávamos com medo de que ela estivesse com anorexia nervosa, não, querida?

Os pais de Lilith falavam mais para si mesmos, não dando muita atenção a Marcão e Alfredinho, que estavam embaraçados.

A mãe secou os olhos e olhou para eles, raivosa:

-Seus dois idiotas! Vejam o que fizeram! Eu nem quero imaginar o que podia ter acontecido com a minha filha!

-Senhora, nós... Marcão começou.

-Cale-se, rapaz! Você tem sorte de não ser meu filho, senão eu lhe daria uma surra! cortou o pai de Lilith.

Os pais de Marcão vieram e perguntaram:

-O que aconteceu?

O pai de Lilith se apresentou e lhes pediu que sentassem.

-Não querem tomar algo? perguntou a mãe de Lilith.

-Não, senhora, obrigado.

A mãe de Marcão olhou para os vidros quebrados espalhados pela casa, sem entender o que acontecera e se perguntando de que maneira seu filho, que estava de cabeça baixa, poderia estar envolvido naquilo.

Devagar, o pai de Lilith começou a contar tudo ao casal surpreso e incrédulo. A mãe olhou para Marcão, aflita:

-Marcos, meu filho, é verdade?

Marcão continuou de cabeça baixa, sem coragem de olhar seus pais, que escutavam a história horrorizados. O pai dele protestou:

-Não, eu não acredito que vocês fizeram tamanha burrice! Crescem para quê? Fale alguma coisa, Marcos, fale!

Marcão não falou e o pai de Lilith disse a Alfredinho:

-Fale da visita que minha filha fez à sua casa, rapaz.

Envergonhado, Alfredinho falou da visita e da conversa que tivera com Marcão.

-Isso não é possível! a mãe de Marcão não queria acreditar.

Ouviram a campainha. Era a mãe de Alfredinho, que também se assustou com os vidros quebrados. A mulher se adiantou:

-Tenho certeza de que meu filho não fez nada de errado. Foi um engano.

Os pais de Lilith e Marcão a puseram a par de tudo, mas ela não quis acreditar.

-Não, meu filho Alfredo é um rapaz maduro. Jamais se envolveria com isso. E que história é essa de gente morta? Isso é impossível! Alfredo não é de fazer isso!

O pai de Marcão falou:

-Eu também não consigo acreditar que tudo isso aconteceu.

Marcão resolveu falar:

-Mas é tudo verdade, pai. Veja o ritual. deu um papel ao pai, que o leu de olhos arregalados.

Curioso, o pai de Lilith pegou o papel e, após lê-lo, vociferou:

-O médium que participa do ritual põe sua vida em risco?! A Lilith sabia disso, rapaz?

Envergonhados, os rapazes balançaram as cabeças negativamente.

-Meu Deus, Marcos! Veja tudo o que aconteceu! Vocês foram a um lugar abandonado de noite, deixaram o José Afonso morto ali, não contaram a ninguém e ainda fizeram essa porcaria de ritual?! Fale alguma coisa, Marcos! O José Afonso era seu amigo e você fez isso? E ainda fez essa menina correr perigo?

A mãe de Alfredinho se revoltou:

-Meu filho é um bom menino, não tem culpa de nada! A culpa - olhou para Marcão - foi sua e do seu amigo, que estavam cheios de más intenções! Meu Alfredinho foi uma vítima em toda essa história! E também posso dizer que foi culpa dessa menina!

-O quê?! os pais de Lilith se enraiveceram.

-Eu já vi sua filha muitas vezes ao deixar ou pegar meu filho na escola e ele me falou que a chamavam de doida. Aliás, qualquer um vê que ela não tem o juízo certo! E que pessoa em seu juízo certo ficaria falando de fantasmas para assombrar os outros como ela fez? Assombrou o meu filho!

-Senhora, está na minha casa! Não tem o direito de ser grossa! gritou o pai de Lilith.

-Sou mãe e vou defender meu filho! Ele me falava muito que esse rapaz - encarou Marcão com raiva - e o rapaz morto zombavam dele, chamando-o de nerd. Tinham inveja,isso sim, porque meu filho era o primeiro da turma e eles sempre foram péssimos alunos!

-Senhora - o pai de Marcão tentou contemporizar - todos erraram nessa história. Meu filho errou, o José Afonso errou e o seu errou. Se meu filho fazia bullying com o seu, peço desculpas por isso e também me envergonho, porque eu o ensinei a respeitar os outros e vejo que ele não quis aprender, mas não use isso para diminuir a responsabilidade do seu filho nessa história. Ninguém mandou seu filho ir à escola abandonada ou tomar parte num ritual. Ele é um rapaz crescido e tem que ser responsável pelo que faz.

-Pois eu vou embora daqui! Alfredinho, vamos para casa!

Assim que Alfredinho e a mãe se foram, o pai de Marcão perguntou ao de Lilith:

-Contamos aos pais do José Afonso?

-Não, melhor que não saibam. Apenas sofreriam mais.

-Quero que me passe a conta do prejuízo, por favor. observou os cacos de vidro espalhados pela casa.

-Não se preocupe com isso. Eu só quero que seu filho não chegue mais perto da minha filha.

-É uma exigência justa. Bem, nós vamos embora. Marcos, vamos.

Sempre de cabeça baixa, Marcão foi embora com os pais.

Vendo os vidros quebrados, os pais de Lilith concordaram em recolhê-los. De todos os problemas com que teriam de lidar, aquele, sem dúvida, era o menos grave.

-Precisamos pensar em como ajudar a Lilith, Jônatas.

-Antes de tudo, mostremos a ela que não está sozinha e que nós a apoiaremos sempre.

Passaram pelo quarto de Lilith. Ela dormia.


Nenhum comentário:

Postar um comentário