domingo, 3 de maio de 2026

O fantasma da velha escola -12





Marcão e Alfredinho resolveram estudar juntos o ritual para ter certeza de que não errariam. Alfredinho resolveu confessar:

-Sabe Marcão, e se isto que pretendemos fazer não for mesmo uma burrada?

-Resolveu amarelar agora, seu bosta?

-Não é isso, é que esses rituais nunca são seguros. A Lilith está certa, afinal, estamos mexendo com o mundo espiritual.

-É um risco que temos que correr, Alfredinho.

-Eu me lembrei de uma história que um primo meu contou.

-Como ela é?

-Já ouviu falar desses tabuleiros ouija?

-Sim, já assisti a filmes em que essa coisa aparece.

-Houve um filme em que eu vi que a protagonista usa a tábua ouija e depois um dos personagens a alerta que essas tábuas teriam tido antes o nome de tábuas de bruxas, porque as bruxas as usariam para chamar os demônios.

-E...?Marcão grunhiu, aborrecido.

-Aqui, no Brasil, o mais comum é o jogo do copo, que é uma variante da tábua ouija.

-Sei.

-Meu primo conheceu uma pessoa que gostava de fazer esse jogo e que...enlouqueceu.

-É?Marcão disfarçou a custo o medo.

-É. Marcão, se você quer desistir, estamos em tempo. Talvez haja outra solução...

Disfarçando a intranquilidade, Marcão cortou:

-Eu não vou desistir!

-Onde pretende fazer esse ritual? Na velha escola?

-Não se fala de nenhum lugar específico, por isso faremos na casa da Lilith.

Os olhos de Alfredinho se arregalaram.

-Marcão, será que aí já não é...

-Quer fazer na sua casa?

Diante do tom sugestivo de Marcão, Alfredinho resolveu:

-Certo, será na casa dela. Como faremos?

-Eu vou falar com ela e trato de convencê-la.

Alfredinho olhou para Marcão.

-Que é, Alfredinho?

-É que eu... não consigo deixar de pensar que não estamos sendo legais com ela. Veja, Marcão, quando ela soube que pretendíamos ir à velha escola, ela se preocupou em me alertar, e depois, ajudou a achar o corpo do José Afonso. E a gente, desde o início, não fez nada certo.

O rosto de Marcão ficou sombrio e ele concordou:

-É, não estamos sendo legais, mas não se trata de nada pessoal.

-Ela sabe que porá a própria vida em risco?

-Não, eu não falei.

-Eu não quero que nada aconteça a ela, que não fez nada de errado.

Marcão olhou para Alfredinho e pegou seu celular, ligando para o de Lilith.

Lilith atendeu com raiva e respondeu:

-Alô, Marcão.

-Lilith, você tem como dizer a seus pais que uns amigos vão estudar na sua casa?

-Tenho. Mas vocês não vêm aqui para estudar, não é?

-Você passa as tardes em casa?

-Passo. Mas diga uma coisa: isso demora?

-Não demora muito, eu garanto. Se tudo der certo, terminaremos antes de seus pais voltarem e todos nós estaremos livres.

-Certo.Você pode vir amanhã. Tchau.

-Tchau.

Lilith desligou e Marcão disse:

-Alfredinho, vai ser amanhã. Esteja preparado.

-Você está preparado, Marcão?

-O que você pensa?

Sabendo o que Marcão queria dizer, Alfredinho se calou.

Na sexta-feira, Marcão e Alfredinho mal prestaram atenção às aulas e não procuraram Lilith, que agiu como sempre. Depois, as aulas acabaram e Marcão ligou para casa, dizendo que iria estudar na casa de Alfredinho, o qual não se preocupou em ligar para sua mãe porque ela passava o dia fora.

Os dois viram Lilith indo embora e Marcão a chamou:

-Lilith.

Ela os olhou e perguntou:

-Já?

-Sim.respondeu Marcão.

-Vou pegar o ônibus. Vocês têm como pagar suas passagens?

-Temos.

-Então vamos.

Alfredinho notou que Lilith emagrecera e pensou:"Será que ela vai sobreviver a um ritual desses?"

Esperaram o ônibus, que não demorou muito. Lilith sentou perto do local de saída e Marcão e Alfredinho sentaram no banco atrás.

-Lilith - Alfredinho tentou cortar o gelo - você está com medo?

-Estou.

-Mas não precisa - respondeu Marcão - vai dar tudo certo e José Afonso nos deixará em paz.

-Você tem certeza demais não?rebateu a menina.

-E você sempre sabe dar uma resposta, não? sorriu Marcão.

-Bem, não vamos discutir. resolveu Alfredinho.

Desceram quando Lilith disse que haviam chegado. Não tiveram que andar muito até à casa dela, um sobrado simples. Ela abriu o portão.

-Hoje, meu pai volta cedo. Então, sejamos rápidos.

-Qual a profissão do seu pai, Lilith?perguntou Marcão.

-Ele é professor universitário no curso de Engenharia Elétrica.

-E sua mãe?interessou-se Alfredinho.

-Ela é terapeuta ocupacional.Bem, querem comer algo?

-Não, comemos na escola.

-Entremos.

Havia uma mesa pequena na sala de jantar. Marcão decidiu, pondo nela o livro de José Afonso:

-Será aqui. Lilith, será bom que você tome um banho e ponha roupas claras. O médium tem que estar limpo.

Lilith mandou que sentassem e foi tomar um banho, voltando pouco depois com uma roupa azul-clara. Marcão pediu que ela enchesse uma jarra com água e, quando ela voltou, falou:

-Teremos primeiro que fazer um ritual para nos protegermos, porque o que pretendemos fazer é perigoso. Vamos nos dar as mãos e fechar os olhos.acendeu uma vela.

Alfredinho e Lilith obedeceram e Marcão orou:

-Ó Santo Deus de Misericórdia,

pedimos que nos proteja

do mal, ajudando-nos a

encontrar a Luz divina

que provém da Tua Bondade

Infinita. Estende sobre nós

Tua mão poderosa e protetora.

Amém.



 

Nenhum comentário:

Postar um comentário