segunda-feira, 29 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - epílogo


 



O fantasma da velha escola - Epílogo

Lilith estava diante do túmulo de Alfredinho. Ela não fora ao enterro e seus pais a haviam transferido da escola logo após a tragédia. Também não vira mais Marcão. Soubera apenas que se dissera que Alfredinho morrera por causa da maldição do fantasma da velha escola. Mas não teve muito tempo para divagar pois escutou passos em sua direção e se virou, surpreendendo-se.

-Marcão?!

Ela mal o reconheceu. Estava muito magro e com um ar doentio.

-Oi, Lilith. Não pensava que a veria de novo.

-Meus pais acharam melhor que eu saísse da escola.

-Eu também saí, porque não aguentava mais ver aquela... escada e...

-E o que, Marcão?

-Todo mundo me colocou na geladeira depois que soube que fugi e não tive coragem de fazer nada por meu amigo. Os pais do José Afonso apareceram lá em casa, xingando-me e culpando-me e a mãe do Alfredinho me chamou de assassino! Ela disse que matei seu único filho!

Lilith sentiu pena de Marcão. Ele podia ter errado, mas merecia ser tão punido?

-Sinto muito, Marcão. Eu não acho que você merece isso.

-Agora, o Alfredinho também aparece nos meus sonhos. Mesmo durante o dia, sei que estou sendo rodeado por esses malditos fantasmas, Lilith. Voltaram a aparecer para você?

-Não. Acho que pensam que não precisam me dizer mais nada.

-Você mal me reconheceu. Estou horrível, não estou?

-Está precisando se cuidar.

-Meus pais já me levaram até a um templo evangélico. Por sinal, vejo que nunca mais botou preto.

-Cansei de curtir tristezas, Marcão. Depois que me abri com meus pais, eles têm me ajudado, mas nunca será fácil.

-Você ainda...?

-Sim. Vou ver até morrer. Não posso fazer nada. Se pudesse, nunca mais veria. Marcão, estou indo.

-Lilith, desculpe pelo que lhe fiz.

-Está tudo bem. Você estava com medo, eu entendo. Cuide-se. Gostaria de poder lhe ajudar, mas ainda não consigo ajudar nem a mim mesma. Até mais.

-Até.

Apressando o passo, Lilith saiu do cemitério. Podia ver espíritos aqui e ali. Alguns lhe eram indiferentes. Outros, vendo que ela podia vê-los, acenavam.

-Aprenderei a viver com isto. Espero que Marcão consiga ter paz, também.

Sim, viver! Era tudo que ela podia fazer. Viver e enfrentar o que lhe aparecesse.

domingo, 21 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 19


 



Tapar os ouvidos foi inútil. Lilith ouviu perfeitamente Marcão e Alfredinho discutindo feio, acusando-se e dizendo as palavras mais impronunciáveis.

-Tudo culpa sua, cavalgadura!

-Mas você concordou, não foi, sua besta?

-Concordei porque você me convenceu!

Lilith fechou os olhos. Mesmo assim, continuou vendo os fantasmas da menina e de José Afonso a rir sardonicamente, Marcão e Alfredinho se insultando e os alunos olhando, loucos para saber qual seria o resultado da briga que estava se tornando uma baixaria completa.

-Pois quer saber, Marcão? Sou mesmo uma besta! Só uma besta como eu para se deixar convencer pelo José Afonso e por você!

-Cale a boca, seu nerd de merda! Todos estão nos olhando!

-Pois que olhem, ouçam e saibam! Eu estou farto de guardar isto tudo!

-Guardar o quê, Alfredinho? perguntou uma menina.

-Alfredinho está só viajando, gente. desconversou Marcão.

-Não, seu covarde idiota! Não estou viajando! É bom que todos saibam que você e eu não valemos nada! Cansei de ser covarde, ouviu? Nós somos dois lixos, e o José Afonso também era!

-Do que você está falando? a menina não se aguentava de curiosidade.

-Muito bem, a verdade é que o José Afonso me convenceu a sair escondido e ir com ele à velha escola para investigarmos se ela é mesmo assombrada! O que eu não sabia é que o Marcão e ele estavam planejando me pregar uma peça para me filmar com medo e me expor na Internet!

-O quê?! Alfredinho, como você entrou nessa? Acreditar no José Afonso? Todos sabem que ele adorava pregar peças nos outros! observou um rapaz.

Marcão estava vermelho de pura raiva por ver os olhos de todos sobre ele.

-Então, vocês estavam com o José Afonso? indagou outro rapaz.

-Sim, o José Afonso e eu tínhamos subido a escada onde a menina teria caído e, como não vimos nada de anormal, achei melhor descer, mas ele ficou, dizendo que filmaria mais um pouco! Então, eu desci e fiquei esperando por ele. Foi então que ouvi um gemido e fui ver o que era. Era o Marcão, que tinha torcido o pé pulando o muro. Sabem o que vi ao iluminar o rosto dele com uma lanterna? Que ele estava maquiado igual a uma caveira! Então, adivinhei o plano dos dois!

-Foi nessa noite que o José Afonso morreu? uma mocinha estava incrédula.

Marcão se ajoelhou, derrotado, enquanto Alfredinho, quase histérico, bradou:

-Foi! O Marcão e eu o ouvimos gritar e cair e fugimos como dois covardes! Esta é a verdadeira história! Fugimos sem saber se ele estava vivo ou morto e não íamos dizer nada!

-Marcão, o José Afonso era seu amigo! horrorizou-se a mocinha.

-Será que não foi o fantasma da menina que empurrou o José Afonso? Então, a escola é mesmo assombrada! gritou alguém.

Lilith se sentia como se estivesse em um pesadelo, pois via claramente Marcão e Alfredinho se encarando com ódio mortal e os outros estudantes a olhá-los com surpresa e horror.

-Meu Deus, não quero mais ver. pediu Lilith, lágrimas descendo dos seus olhos.

Inútil. Ela continuou vendo os dois jovens se lançando farpas pelos olhares furibundos, xingando-se:

-Maldito!

-Cachorro! Cachorro sem-vergonha, covarde e nojento!

Um dos dois se cansou e falou:

-Vou embora daqui! Não piso mais nesta escola!

-O que, covarde? Você vai fugir e me deixar sozinho aguentando todos me odiarem? Não, você vai ficar aqui, pagando também!

-Eu já paguei, portanto, vou embora!

O que dissera que não ficaria mais na escola foi se afastando, indo até à escada. Lilith adivinho e berrou:

-Não, não desça a escada!

Ela sabia que era inútil gritar, pois ele não podia ouvi-la.

Ao chegar até à escada, o rapaz olhou para trás, falando para os colegas:

-O que é que vocês estão olhando?Vão para o inferno, ouviram? Nenhum de vocês é grande coisa! Na hora H, cada um só pensa em salvar a própria pele!

Olhando para trás enquanto começava a descer, ele tropeçou e caiu diante dos olhares dos rapazes e moças que o viram rolar escada abaixo.

-Meu Deus! gritaram todos.

Lilith começou a gritar, porque sabia antes de todos os que estavam fisicamente presentes que ele morrera.

A mãe de Lilith entrou no quarto às pressas, vendo-a caída no chão, de olhos arregalados e berrando:

-Ele morreu! O Alfredinho morreu!

-Lilith, querida, o que está havendo? a mulher se ajoelhou, abraçando-a.

De repente, Lilith saiu do transe e, olhando para a mãe, falou entre lágrimas:

-Mãe, o José Afonso e a menina mataram o Alfredinho! Ele caiu da escada como eles caíram!

-Calma, minha filha. Eu estou aqui.

Por um longo tempo, a mulher ficou abraçada à menina, que chorava, sentindo uma dor além de qualquer consolo. Delicadamente, a mãe ajudou Lilith a levantar, colocando-a na cama.

-Querida, tente se acalmar.

Lilith não prestou atenção à mãe, que lhe segurava uma das mãos e acariciava seus cabelos, mas a Alfredinho, cujo espírito, contemplando seu corpo inerte de olhos arregalados, ajoelhava-se e gritava num desespero completo:

-Eu estou morto! Seus desgraçados, vocês me mataram!

José Afonso e a menina riam do desespero de Alfredinho, que chorava de joelhos ao lado do seu cadáver enquanto os estudantes se amontoavam, gritando:

-Ele está morto!

-Foi a maldição! Foi o fantasma daquele escola!

-Vai assombrar esta escola agora!

Marcão, atordoado, desabou,mergulhando num estado de catatonia.

-Não, eu não quero mais ver! Lilith se debateu nos braços da mãe, que perguntou, extremamente preocupada:

-Lilith, o que você não quer ver? Quem matou quem?

A visão foi se desfazendo e Lilith olhou para a mãe, que estava assustada.

-Lilith, você está suando frio!

-Mãe, o Alfredinho está morto! A menina e o José Afonso o empurraram da escada!

-Calma, querida. Você já me falou, lembra? Não há nada que possamos fazer.

-Não posso ficar calma, mãe! A vingança do José Afonso não acabou1 Ele quer que o Marcão pague até o fim da vida!

Alarmada, a mulher deu um calmante à menina, ficando com ela até que adormecesse. Depois, ligou para o marido, contando tudo.

-Jônatas, estou preocupada com a Lilith. Ela falou que o Alfredinho morreu!

-Marisa, você acha que...

-Que o fantasma do José Afonso se vingou? O que mais pode ser?

-Bem, tenho uma ideia. Ligue para a escola, dizendo que a Lilith não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente. Talvez digam algo, se tiver acontecido alguma coisa.

-Está bem, vou ligar.

-Vou voltar mais cedo. Até mais.

-Até mais, querido.

Marisa ligou para a secretaria da escola, sabendo que, se algo houvesse realmente acontecido, ela acabaria sabendo.

-Alô. atendeu uma voz de mulher.

-Alô. Sou mãe de uma aluna, a Lilith. Eu queria comunicar que ela não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente.

-A senhora não tem que se incomodar. Hoje, um aluno morreu caindo da escada e não vai haver aula amanhã.

-Morreu um aluno?! assustou-se.

-É, um rapaz chamado Alfredo. Um monte de alunos viu. É o segundo aluno desta escola que morre tragicamente. A polícia está aqui agora. Meu Deus, ele era colega do que se chamava José Afonso, o que encontraram morto na velha escola fechada.

-Meu Deus, que tragédia! Obrigada, tchau!

-Tchau, senhora.

Com as mãos trêmulas, a mulher recolocou o fone no lugar e foi dar uma olhada em Lilith. Sua filha adotiva, a quem amava como se fosse sua filha de verdade, dormia profundamente.

-Meu Deus, por que uma criança como a Lilith tem que sofrer tanto? É muito peso para os ombros dela!

Quando o marido chegou, foi até ele, dizendo:

-Querido, o Alfredinho está morto!

-Como é?! Então...

-Sim, foi como a Lilith disse!

-E agora, o que será de nossa filha? Ela não pode enfrentar isso sozinha!

-Talvez devêssemos tirá-la da escola.

-Seria muito pesado para ela continuar ali depois de tudo que houve. Vou me encarregar disso depois do enterro do Alfredinho.

-Mas Jônatas, ela continuará vendo gente que morreu.

-Eu sei, mas isso é algo com que teremos de lidar. Enquanto formos vivos, nós a ajudaremos. Depois, eu não sei.

Em seu quarto, Lilith despertara e, ao abrir os olhos, viu Alfredinho ao lado de sua cama.

-Alfredinho...

-Lilith, os dois fantasmas me mataram.

-Eu sei, eu vi. Eles me mostraram.

-Malditos, eu os odeio.

Lilith sentou na cama e falou:

-Alfredinho, chega! Tudo começou com ódio! Primeiro, foi o ódio da menina; depois, o do José Afonso! Agora, será o seu ódio que dará continuidade a esse círculo maldito?

-Mas Lilith, eu estou morto por culpa deles!

-E você poderá mudar isso? Alfredinho, você não pode voltar à vida, assim como você não pode se livrar da responsabilidade por seus atos! Você também errou indo àquela escola e não procurando a polícia para contar o que tinha acontecido com o José Afonso! E não adianta culpar só o Marcão e o José Afonso! Você é livre, podia não ter ido!

-O Marcão me paga!

-Não acha que ele já está pagando?

-Não o suficiente!

O fantasma de Alfredinho sumiu e Lilith viu a porta do seu quarto se abrir. Eram seus pais, com os rostos preocupados.

-Querida, com quem você falava? o pai estava tenso.

-Com o Alfredinho, pai.

-Será que não a deixarão em paz? a mãe sentou ao seu lado, abraçando-a.

-Não sei, mãe.

domingo, 14 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 18


 


Lilith não iria à escola aquele dia. Seus pais, preocupados, haviam achado melhor que ela ficasse em repouso e a mãe resolvera não ir trabalhar para ficar com ela, que acordara várias vezes à noite, intranquila e assustada, sentindo que uma ameaça indefinível pairava malevolamente próxima a ela.

"O que está para acontecer?"

Ela acordara aquela manhã com a mãe lhe acariciando os cabelos e abrira os olhos.

-Mãe...

-Querida, como está?

-Esgotada.

-Seu pai e eu vamos conversar sobre o que fazer para lhe ajudar.

-Então...

-Sim, já sei de tudo. Lilith, você devia ter nos contado há mais tempo. Por que não o fez?

-Eu tinha medo.

-De que, querida?

-De acharem que eu era louca ou um monstro.

-Você devia ter confiado em nós, Lilith. Somos seus pais e amamos você.

-Mãe,desculpe.lágrimas desceram dos seus olhos.

-Está tudo bem. Não estou zangada. Hoje, você fica descansando. Quando se recuperar desse abalo, nós conversamos.

A mãe perguntou se ela tinha fome e ela respondeu que não, o que preocupou a mulher.

-Lilith, ficar sem comer não vai ajudá-la.

Lilith aceitou comer um pouco, e depois a mãe a deixou sozinha.

-Chame-me se precisar, certo?

-Certo, mãe.

Esticou-se na cama, exausta demais para pensar. Toda a experiência do dia anterior fora amedrontadora. "Eu nunca devia ter concordado em participar desse maldito ritual! Sabia que não era nada além de..."

Uma sensação interrompeu seu pensamento. Era algo que ela conhecia bem: o frio intenso junto com o cheiro pesado e opressor da morte. Abriu os olhos, pensando que não gostaria do que veria.

-Você... falou, desanimada e nem um pouco surpresa.

-Esperava por mim, Lilith?

-Não, sua presença não é bem-vinda, principalmente depois do que você me fez passar.

-Que pena que você não aprecia minha companhia.

-Como eu poderia apreciar sua companhia? Você é um fantasma bem ruinzinho! Tem me perseguido e estou cansada! Deixe-me em paz!

-Não deixo, não. Sabe, Lilith, ainda não acabou.

-Vá embora!

-Alguém mais vai morrer hoje, Lilith. Quer saber quem será?

-Não, vá e me deixe em paz!

-Você não vai se livrar de mim, Lilith!

Furiosa, Lilith sentou na cama e disse ao fantasma:

-Seu monstro! O que você é? De quem você pode falar? Você não é Deus ou o que quer que seja, não é melhor do que ninguém, seu fantasma egoísta!

-Você defende quem não merece, Lilith! Veja o que as pessoas fizeram a você. Toda a sua vida, você tem sofrido discriminação, sido chamada de esquisita, doida. Ninguém entende um poder como o seu, Lilith.

-Este poder não passa de uma maldição. Antes eu não pudesse perceber você e tantos outros que vêm me perturbar, contando-me seus ódios e seus problemas!

-Bem, Lilith, você vai sentir tudo o que vai acontecer.

-Vá embora, maldito fantasma!

O fantasma não foi embora, mas se aproximou mais de Lilith, fazendo-a olhar em seus olhos.

-Olhe dentro dos meus olhos, Lilith.

Lilith não soube definir o que viu naqueles olhos, pois havia muita dor, mas também muita maldade. Uma maldade inconsequente, resultante de uma profunda revolta por ter morrido.

-Esqueça o que você pretende. Nada do que fizer lhe fará voltar à vida. E por que matar? Não temos o direito de decidir o destino de ninguém!

A resposta do fantasma foi uma gargalhada sinistra, que fez os cabelos da nuca de Lilith se arrepiarem. Lilith tapou os ouvidos, mas o fantasma riu mais alto e se aproximou mais dela, tocando-lhe o rosto.

Então, Lilith viu coisas que a fizeram pensar que enlouqueceria: um corredor frio e escuro, no qual almas desesperadas estendiam os braços, gemendo, rindo e chorando. As almas eram horrendas. Algumas tinham aparência emaciada e trajavam roupas de hospital, outras apresentavam feios ferimentos.

A menina e José Afonso andavam pelo corredor, rindo malevolamente. Lilith os via acenando para ela e queria fechar os olhos, rezando mentalmente pelo fim daquele pesadelo.

-Junte-se a nós, Lilith. Junte-se a nós.

Lilith baixava a cabeça e chorava. José Afonso perguntava:

-Quer saber quem vai morrer hoje, Lilith?

-Não.

-Mas vai saber. Ouça e sinta.


domingo, 7 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 17


 




Aquela noite, Alfredinho teve um sonho inexplicável. Sonhou que passava em frente à velha escola e ouvia uma voz: "Alfredinho, Alfredinho, venha brincar comigo, por favor. Eu estou tão só." Amedrontado, pediu:

-Não, deixe-me em paz!

-Não posso, Alfredinho! Você não veio aqui, não pisou no terreno que o aconselharam a não pisar? Uma vez que você pisou aqui, os mortos querem que você volte.

-Não, por favor!

Então, Alfredinho via que quem o chamava era Lilith.

-L-Lilith?

Ela estava muito perto do portão, trajando longa túnica negra, os cabelos soltos, a pele pálida se assemelhando a cera e as pupilas, totalmente dilatadas. Marcas arroxeadas emolduravam-lhe os olhos como discretos hematomas e as mãos finas seguravam uma vela.

-Lilith, por que me chama?

-Temos que completar o círculo, Alfredinho. Estamos todos mortos. Veja.

Súbito, Marcão e José Afonso surgiam atrás dele, igualmente mortos e pálidos.

-Hora de se juntar a nós, Alfredinho.

Marcão e José Afonso o agarraram e ele gritou:

-Soltem-me, malditos!

Como mortos podiam ter tanta força? E, além daquilo, as mãos frias tinham um toque repugnante!

-Soltem-me!

-Nunca,Alfredinho!

Lilith apenas olhava, impassível.

Alfredinho acordou, suado e trêmulo. Podia jurar que sentira as mãos da morte a agarrá-lo.

-Que será que isso significa, meu Deus?

O que ocorrera na casa de Lilith fora indescritível. Ele nunca poderia imaginar que coisas daquele tipo pudessem acontecer. E que fossem tão horríveis. Sentira toda a ira de José Afonso, a maldade da menina morta e o perigo de mexer com o sobrenatural. E sabia que nada mais seria o mesmo. Sua mãe, os pais de Lilith e os de Marcão sabiam do seu segredo vergonhoso.

-Minha vida acabou.

Trocou de roupa para ir à escola. Podia escutar sua mãe preparando o desjejum. No dia anterior, quando ambos haviam deixado a casa de Lilith, ela dissera:

-Eu lhe avisei para tomar cuidado com más companhias, Alfredo! Como você foi se meter com gente como o Marcão e a Lilith, meu filho?

Torturado pela lembrança, foi à cozinha. A mãe perguntou:

-Dormiu bem, meu filho?

-Sim, mãe.

-Por favor, nunca mais se meta com aquela Lilith. Ela não é normal. Nem com Marcão.

-Mãe, a Lilith não é louca. Ela realmente vê gente morta. E tudo o que eu contei aconteceu mesmo.

-Mais um motivo para se afastar dela. Que bem ela lhe fez?

-Ela me avisou para não ir à velha escola, mãe. Eu devia tê-la ouvido.

-Isso não importa agora.

-Não, mãe? Não importa? O Marcão, o José Afonso e eu fizemos a burrice de ir lá, e depois o Marcão e eu fugimos! Nós fomos covardes, mãe! Será que não vê, mãe? Eu sou culpado, o Marcão é culpado, o José Afonso foi culpado! A Lilith é a única inocente nesta história!

-Meu filho, cale-se! Nunca mais diga essas coisas! Que culpa você teve da morte do José Afonso ou daquela menina ter incorporado espíritos? Se ela pode fazer essas coisas, ela é uma aberração!

Alfredinho se calou, não porque concordasse com a mãe, mas por ver que seria inútil continuar discutindo com ela. Tomou o café da manhã em silêncio, mal sentindo o gosto da comida.

Quando ela o deixou na escola, aconselhou-o:

-Mantenha-se bem afastado do Marcão e da Lilith, meu filho.

Despediu-se da mãe e desceu do carro, pensando em como seria o seu dia. Teria peito para encarar Marcão e Lilith depois do que acontecera? Tinha a impressão de estar vivendo um pesadelo.

"É estranho como tudo isto que estou vivendo não faz sentido, embora seja real."