domingo, 7 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 17


 




Aquela noite, Alfredinho teve um sonho inexplicável. Sonhou que passava em frente à velha escola e ouvia uma voz: "Alfredinho, Alfredinho, venha brincar comigo, por favor. Eu estou tão só." Amedrontado, pediu:

-Não, deixe-me em paz!

-Não posso, Alfredinho! Você não veio aqui, não pisou no terreno que o aconselharam a não pisar? Uma vez que você pisou aqui, os mortos querem que você volte.

-Não, por favor!

Então, Alfredinho via que quem o chamava era Lilith.

-L-Lilith?

Ela estava muito perto do portão, trajando longa túnica negra, os cabelos soltos, a pele pálida se assemelhando a cera e as pupilas, totalmente dilatadas. Marcas arroxeadas emolduravam-lhe os olhos como discretos hematomas e as mãos finas seguravam uma vela.

-Lilith, por que me chama?

-Temos que completar o círculo, Alfredinho. Estamos todos mortos. Veja.

Súbito, Marcão e José Afonso surgiam atrás dele, igualmente mortos e pálidos.

-Hora de se juntar a nós, Alfredinho.

Marcão e José Afonso o agarraram e ele gritou:

-Soltem-me, malditos!

Como mortos podiam ter tanta força? E, além daquilo, as mãos frias tinham um toque repugnante!

-Soltem-me!

-Nunca,Alfredinho!

Lilith apenas olhava, impassível.

Alfredinho acordou, suado e trêmulo. Podia jurar que sentira as mãos da morte a agarrá-lo.

-Que será que isso significa, meu Deus?

O que ocorrera na casa de Lilith fora indescritível. Ele nunca poderia imaginar que coisas daquele tipo pudessem acontecer. E que fossem tão horríveis. Sentira toda a ira de José Afonso, a maldade da menina morta e o perigo de mexer com o sobrenatural. E sabia que nada mais seria o mesmo. Sua mãe, os pais de Lilith e os de Marcão sabiam do seu segredo vergonhoso.

-Minha vida acabou.

Trocou de roupa para ir à escola. Podia escutar sua mãe preparando o desjejum. No dia anterior, quando ambos haviam deixado a casa de Lilith, ela dissera:

-Eu lhe avisei para tomar cuidado com más companhias, Alfredo! Como você foi se meter com gente como o Marcão e a Lilith, meu filho?

Torturado pela lembrança, foi à cozinha. A mãe perguntou:

-Dormiu bem, meu filho?

-Sim, mãe.

-Por favor, nunca mais se meta com aquela Lilith. Ela não é normal. Nem com Marcão.

-Mãe, a Lilith não é louca. Ela realmente vê gente morta. E tudo o que eu contei aconteceu mesmo.

-Mais um motivo para se afastar dela. Que bem ela lhe fez?

-Ela me avisou para não ir à velha escola, mãe. Eu devia tê-la ouvido.

-Isso não importa agora.

-Não, mãe? Não importa? O Marcão, o José Afonso e eu fizemos a burrice de ir lá, e depois o Marcão e eu fugimos! Nós fomos covardes, mãe! Será que não vê, mãe? Eu sou culpado, o Marcão é culpado, o José Afonso foi culpado! A Lilith é a única inocente nesta história!

-Meu filho, cale-se! Nunca mais diga essas coisas! Que culpa você teve da morte do José Afonso ou daquela menina ter incorporado espíritos? Se ela pode fazer essas coisas, ela é uma aberração!

Alfredinho se calou, não porque concordasse com a mãe, mas por ver que seria inútil continuar discutindo com ela. Tomou o café da manhã em silêncio, mal sentindo o gosto da comida.

Quando ela o deixou na escola, aconselhou-o:

-Mantenha-se bem afastado do Marcão e da Lilith, meu filho.

Despediu-se da mãe e desceu do carro, pensando em como seria o seu dia. Teria peito para encarar Marcão e Lilith depois do que acontecera? Tinha a impressão de estar vivendo um pesadelo.

"É estranho como tudo isto que estou vivendo não faz sentido, embora seja real."


Nenhum comentário:

Postar um comentário