domingo, 21 de junho de 2026

O fantasma da velha escola - 19


 



Tapar os ouvidos foi inútil. Lilith ouviu perfeitamente Marcão e Alfredinho discutindo feio, acusando-se e dizendo as palavras mais impronunciáveis.

-Tudo culpa sua, cavalgadura!

-Mas você concordou, não foi, sua besta?

-Concordei porque você me convenceu!

Lilith fechou os olhos. Mesmo assim, continuou vendo os fantasmas da menina e de José Afonso a rir sardonicamente, Marcão e Alfredinho se insultando e os alunos olhando, loucos para saber qual seria o resultado da briga que estava se tornando uma baixaria completa.

-Pois quer saber, Marcão? Sou mesmo uma besta! Só uma besta como eu para se deixar convencer pelo José Afonso e por você!

-Cale a boca, seu nerd de merda! Todos estão nos olhando!

-Pois que olhem, ouçam e saibam! Eu estou farto de guardar isto tudo!

-Guardar o quê, Alfredinho? perguntou uma menina.

-Alfredinho está só viajando, gente. desconversou Marcão.

-Não, seu covarde idiota! Não estou viajando! É bom que todos saibam que você e eu não valemos nada! Cansei de ser covarde, ouviu? Nós somos dois lixos, e o José Afonso também era!

-Do que você está falando? a menina não se aguentava de curiosidade.

-Muito bem, a verdade é que o José Afonso me convenceu a sair escondido e ir com ele à velha escola para investigarmos se ela é mesmo assombrada! O que eu não sabia é que o Marcão e ele estavam planejando me pregar uma peça para me filmar com medo e me expor na Internet!

-O quê?! Alfredinho, como você entrou nessa? Acreditar no José Afonso? Todos sabem que ele adorava pregar peças nos outros! observou um rapaz.

Marcão estava vermelho de pura raiva por ver os olhos de todos sobre ele.

-Então, vocês estavam com o José Afonso? indagou outro rapaz.

-Sim, o José Afonso e eu tínhamos subido a escada onde a menina teria caído e, como não vimos nada de anormal, achei melhor descer, mas ele ficou, dizendo que filmaria mais um pouco! Então, eu desci e fiquei esperando por ele. Foi então que ouvi um gemido e fui ver o que era. Era o Marcão, que tinha torcido o pé pulando o muro. Sabem o que vi ao iluminar o rosto dele com uma lanterna? Que ele estava maquiado igual a uma caveira! Então, adivinhei o plano dos dois!

-Foi nessa noite que o José Afonso morreu? uma mocinha estava incrédula.

Marcão se ajoelhou, derrotado, enquanto Alfredinho, quase histérico, bradou:

-Foi! O Marcão e eu o ouvimos gritar e cair e fugimos como dois covardes! Esta é a verdadeira história! Fugimos sem saber se ele estava vivo ou morto e não íamos dizer nada!

-Marcão, o José Afonso era seu amigo! horrorizou-se a mocinha.

-Será que não foi o fantasma da menina que empurrou o José Afonso? Então, a escola é mesmo assombrada! gritou alguém.

Lilith se sentia como se estivesse em um pesadelo, pois via claramente Marcão e Alfredinho se encarando com ódio mortal e os outros estudantes a olhá-los com surpresa e horror.

-Meu Deus, não quero mais ver. pediu Lilith, lágrimas descendo dos seus olhos.

Inútil. Ela continuou vendo os dois jovens se lançando farpas pelos olhares furibundos, xingando-se:

-Maldito!

-Cachorro! Cachorro sem-vergonha, covarde e nojento!

Um dos dois se cansou e falou:

-Vou embora daqui! Não piso mais nesta escola!

-O que, covarde? Você vai fugir e me deixar sozinho aguentando todos me odiarem? Não, você vai ficar aqui, pagando também!

-Eu já paguei, portanto, vou embora!

O que dissera que não ficaria mais na escola foi se afastando, indo até à escada. Lilith adivinho e berrou:

-Não, não desça a escada!

Ela sabia que era inútil gritar, pois ele não podia ouvi-la.

Ao chegar até à escada, o rapaz olhou para trás, falando para os colegas:

-O que é que vocês estão olhando?Vão para o inferno, ouviram? Nenhum de vocês é grande coisa! Na hora H, cada um só pensa em salvar a própria pele!

Olhando para trás enquanto começava a descer, ele tropeçou e caiu diante dos olhares dos rapazes e moças que o viram rolar escada abaixo.

-Meu Deus! gritaram todos.

Lilith começou a gritar, porque sabia antes de todos os que estavam fisicamente presentes que ele morrera.

A mãe de Lilith entrou no quarto às pressas, vendo-a caída no chão, de olhos arregalados e berrando:

-Ele morreu! O Alfredinho morreu!

-Lilith, querida, o que está havendo? a mulher se ajoelhou, abraçando-a.

De repente, Lilith saiu do transe e, olhando para a mãe, falou entre lágrimas:

-Mãe, o José Afonso e a menina mataram o Alfredinho! Ele caiu da escada como eles caíram!

-Calma, minha filha. Eu estou aqui.

Por um longo tempo, a mulher ficou abraçada à menina, que chorava, sentindo uma dor além de qualquer consolo. Delicadamente, a mãe ajudou Lilith a levantar, colocando-a na cama.

-Querida, tente se acalmar.

Lilith não prestou atenção à mãe, que lhe segurava uma das mãos e acariciava seus cabelos, mas a Alfredinho, cujo espírito, contemplando seu corpo inerte de olhos arregalados, ajoelhava-se e gritava num desespero completo:

-Eu estou morto! Seus desgraçados, vocês me mataram!

José Afonso e a menina riam do desespero de Alfredinho, que chorava de joelhos ao lado do seu cadáver enquanto os estudantes se amontoavam, gritando:

-Ele está morto!

-Foi a maldição! Foi o fantasma daquele escola!

-Vai assombrar esta escola agora!

Marcão, atordoado, desabou,mergulhando num estado de catatonia.

-Não, eu não quero mais ver! Lilith se debateu nos braços da mãe, que perguntou, extremamente preocupada:

-Lilith, o que você não quer ver? Quem matou quem?

A visão foi se desfazendo e Lilith olhou para a mãe, que estava assustada.

-Lilith, você está suando frio!

-Mãe, o Alfredinho está morto! A menina e o José Afonso o empurraram da escada!

-Calma, querida. Você já me falou, lembra? Não há nada que possamos fazer.

-Não posso ficar calma, mãe! A vingança do José Afonso não acabou1 Ele quer que o Marcão pague até o fim da vida!

Alarmada, a mulher deu um calmante à menina, ficando com ela até que adormecesse. Depois, ligou para o marido, contando tudo.

-Jônatas, estou preocupada com a Lilith. Ela falou que o Alfredinho morreu!

-Marisa, você acha que...

-Que o fantasma do José Afonso se vingou? O que mais pode ser?

-Bem, tenho uma ideia. Ligue para a escola, dizendo que a Lilith não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente. Talvez digam algo, se tiver acontecido alguma coisa.

-Está bem, vou ligar.

-Vou voltar mais cedo. Até mais.

-Até mais, querido.

Marisa ligou para a secretaria da escola, sabendo que, se algo houvesse realmente acontecido, ela acabaria sabendo.

-Alô. atendeu uma voz de mulher.

-Alô. Sou mãe de uma aluna, a Lilith. Eu queria comunicar que ela não foi hoje nem poderá ir amanhã por estar doente.

-A senhora não tem que se incomodar. Hoje, um aluno morreu caindo da escada e não vai haver aula amanhã.

-Morreu um aluno?! assustou-se.

-É, um rapaz chamado Alfredo. Um monte de alunos viu. É o segundo aluno desta escola que morre tragicamente. A polícia está aqui agora. Meu Deus, ele era colega do que se chamava José Afonso, o que encontraram morto na velha escola fechada.

-Meu Deus, que tragédia! Obrigada, tchau!

-Tchau, senhora.

Com as mãos trêmulas, a mulher recolocou o fone no lugar e foi dar uma olhada em Lilith. Sua filha adotiva, a quem amava como se fosse sua filha de verdade, dormia profundamente.

-Meu Deus, por que uma criança como a Lilith tem que sofrer tanto? É muito peso para os ombros dela!

Quando o marido chegou, foi até ele, dizendo:

-Querido, o Alfredinho está morto!

-Como é?! Então...

-Sim, foi como a Lilith disse!

-E agora, o que será de nossa filha? Ela não pode enfrentar isso sozinha!

-Talvez devêssemos tirá-la da escola.

-Seria muito pesado para ela continuar ali depois de tudo que houve. Vou me encarregar disso depois do enterro do Alfredinho.

-Mas Jônatas, ela continuará vendo gente que morreu.

-Eu sei, mas isso é algo com que teremos de lidar. Enquanto formos vivos, nós a ajudaremos. Depois, eu não sei.

Em seu quarto, Lilith despertara e, ao abrir os olhos, viu Alfredinho ao lado de sua cama.

-Alfredinho...

-Lilith, os dois fantasmas me mataram.

-Eu sei, eu vi. Eles me mostraram.

-Malditos, eu os odeio.

Lilith sentou na cama e falou:

-Alfredinho, chega! Tudo começou com ódio! Primeiro, foi o ódio da menina; depois, o do José Afonso! Agora, será o seu ódio que dará continuidade a esse círculo maldito?

-Mas Lilith, eu estou morto por culpa deles!

-E você poderá mudar isso? Alfredinho, você não pode voltar à vida, assim como você não pode se livrar da responsabilidade por seus atos! Você também errou indo àquela escola e não procurando a polícia para contar o que tinha acontecido com o José Afonso! E não adianta culpar só o Marcão e o José Afonso! Você é livre, podia não ter ido!

-O Marcão me paga!

-Não acha que ele já está pagando?

-Não o suficiente!

O fantasma de Alfredinho sumiu e Lilith viu a porta do seu quarto se abrir. Eram seus pais, com os rostos preocupados.

-Querida, com quem você falava? o pai estava tenso.

-Com o Alfredinho, pai.

-Será que não a deixarão em paz? a mãe sentou ao seu lado, abraçando-a.

-Não sei, mãe.

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