domingo, 30 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 6

 


Narciso estava esperando dar o sinal do fim do intervalo. Nos últimos dias, andava quieto e distraído, afastado dos amigos e colegas porque não tinha com quem dividir o que andava a perturbá-lo. Como estava de cabeça baixa, não escutou os passos sutis de alguém indo na sua direção, o que o fez se assustar ao ouvir:

-Eu sei que foi você!

Teve um sobressalto, não acreditando que a pessoa que lhe falara naquele tom tão acusador era Cassandra.

-Ca-Cassandra?!Do que está falando?

-Estou falando que eu sei que foi você, seu covarde mentiroso!

-Eu não sei o que você está dizendo, Cassandra!

-Mas sabe o que fez! E o que você fez não pode ser desfeito, não é?

Um murro na boca do estômago não teria atingido Narciso mais do que aquelas palavras pronunciadas com tanta virulência e, desta vez, ele se levantou do banco, perturbado.

-Cassandra, você não pode chegar e falar essas coisas! O que você quer dizer? Do que está me acusando?

-E você, Narciso? Você pode chegar e fazer algo como o que você fez? O que você queria que acontecesse? Queria que ficassem apontando alguém, humilhando e acusando até este alguém não aguentar e achar que não podia continuar?

-Pare, Cassandra!

Atordoado, Narciso estava quase em lágrimas. Cassandra o fitou sem pena.

-Por que está quase chorando, Narciso? Remorso ou medo?

-Você está...

-Não estou imaginando ou inventando nada, Narciso!

Ele quase deu um pulo para trás. Cassandra dissera o que ele pensara antes mesmo dele falar. Era como se...não, impossível.

-Cassandra, você devia tentar chamar a atenção de outro jeito, não desse! Ficar falando coisas sem nexo não vai fazer você se tornar popular!

-Diga o que quiser, covardão, mas isso não muda que eu sei que foi você!

-Você não sabe de nada, Cassandra! Sabe o que você é? Uma maluca que quer atenção!

-Pouco me importa o que você acha! Você devia ter vergonha de ter feito o que fez!

-Ora, vá se tratar!

Andando abruptamente, Narciso queria escapar de Cassandra e de seu olhar acusador.

"Como ela poderia saber, como ela poderia saber?"

Sim, não havia como ela saber. Não havia como ninguém saber.

Deu o sinal do fim do intervalo e Narciso voltou para a sala, cabeça baixa.

-O que houve, Narciso? Parece que viu um fantasma!

Marcelo, que andava estranhando o comportamento de Narciso, espantou-se com sua palidez.

-Nada, Marcelo.

-Nada? Rapaz, você devia se ver no espelho! Parece que tiraram todo o sangue das suas veias! Está doente?

-Não, cara, estou bem! Por que não fica na sua?

-Meu Deus, eu só fiz uma pergunta e você vem com quatro pedras na mão! Diabos, Narciso, você está insuportável ultimamente! Ninguém pode dizer ou fazer nada que é como se você tivesse levado um choque!

Marcelo saiu de perto de Narciso, cheio de raiva.

"Preferia o Narciso cheio de si que só falava em meninas."

Narciso se perguntou se devia pedir desculpas a Marcelo, mas não teve coragem e preferiu ficar no seu lugar. Voltou-se para trás, espiando Cassandra,que estava de olhos baixos, aparentemente alheia à barulheira dos colegas. Porém, como se avisada por uma voz, ela subiu aqueles olhos estranhos e os fixou nele.

"Ela não demonstra nenhuma surpresa! Eu diria que sabia que eu a estou espionando antes mesmo de olhar."

Instintivamente, Narciso se descobriu com medo de Cassandra, em cujo olhar podia ler perfeitamente: "Eu sei que foi você."

domingo, 23 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 5

 


As aulas estava transcorrendo normalmente até que a diretora entrou dizendo que tinha uma triste notícia. O professor de Matemática parou de escrever no quadro e a diretora falou:

-Lamento dizer que Virgínia, aluna desta escola, perdeu a sua vida de maneira trágica. Ontem à noite, ela pegou o revólver do pai e se matou com um tiro no peito.

Todos ficaram assombrados num silêncio constrangido. A diretora comunicou onde seria o enterro e informou que não haveria mais aula naquele dia, retirando-se.

Marcelo comentou:

-Eu tenho certeza de que ela fez isso porque não aguentou o que estavam fazendo com ela.

A mão de Narciso tremia um pouco e Marcelo perguntou:

-Tudo bem?

-Sim.

Os alunos foram pegando seus pertences para sair. Cassandra arrumou sua mochila e foi até a carteira de Narciso, olhando-o de cima a baixo por um certo tempo com indisfarçável desprezo.

-O que há, Cassandra? Narciso se sentiu levemente intimidado.

Ela não respondeu, afastando-se.

Um rapaz se perguntou:

-Ué, o que deu nela? Cada dia, acho essa moça mais estranha.

Marcelo disse, pensativo:

-Narciso, ela parecia estar lhe acusando.

domingo, 16 de agosto de 2026

Eu sei que foi você - 4

 


Uma manhã, Virgínia foi à escola, ressabiada, os braços agarrando os livros e cadernos como se sentisse a necessidade de se apoiar em algo. As outras meninas olhavam para ela dando risadinhas e os meninos se aproximavam dela dizendo:

-Puxa, Virgínia, eu não acredito que você é tudo isso, hein.

-Sai de perto de mim, seu nojento!

-Ué, mas você...

-Cai fora! Não dei liberdade para falar comigo assim!

-Como não, Virgínia? Pensa que a gente não viu o seu Facebook?

-É tudo mentira!

-Ah, pois eu quero...

A menina correu, agoniada. Foi sentar junto de duas amigas, que se afastaram.

-Ei, esperem!

-Não dá, Virgínia.

-Mas a gente sempre foi amiga.

Cassandra olhou de muito longe e entrou na sala onde estudava. Michele conversava com umas amigas.

-Quem diria que a Virgínia, hein.

-Essas meninas quietinhas são as piores.

Desta vez, Cassandra se dirigiu até elas e disse:

-Tudo mentira. Tenho certeza que a Virgínia foi vítima de alguém que entrou na conta dela e inventou tudo!

-Ah é, esquisita?

-É sim. E eu espero que logo se descubra quem foi.

-Por que você a está defendendo? Ela não é sua amiga!Michele se enraiveceu.

-Porque o que vocês estão fazendo com ela é errado! Inventaram uma mentira contra ela e vocês, sem nem saberem se é verdade, ficam atacando a coitada.

-Vá ficar no seu canto, sua esquisita!retrucou uma moça.

Narciso entrou na sala e notou que Cassandra olhava para ele. Resolveu brincar:

-Como vai, gatinha? Gosta de minha jaqueta nova?

-...

-O que foi? Está sem fala? Ah, adoro esse seu jeito tímido. Você está um encanto!

-Vem, Narciso. Pare de zoar com ela!chamou Marcelo.

Indo sentar ao lado de Marcelo, Narciso se gabou:

-Vê que ela está caidinha por mim, Marcelo?

-A Cassandra?! Ela nem olha para você!

-Estava olhando agora.

Discretamente, Marcelo espiou Cassandra. A moça olhava para onde Narciso e ele estavam sentados e Marcelo entendeu que ela sabia que eles falavam dela e ele a espiava. Desconfortável, parou de espiá-la e reclamou:

-Ah, Narciso, você fala muita besteira!

-Ela gosta de se fazer de difícil.

-Você é muito besta, Narciso!

Quando chegou o intervalo, Cassandra foi à biblioteca, onde procurou o canto mais afastado para ela. Sentou no chão, pernas cruzadas, um livro aberto no colo.

Ali, naquele ambiente silencioso, seu semblante ficou mais suave e ela respirou fundo, como se aliviada.