terça-feira, 25 de novembro de 2025

A herança maldita


 



Está anoitecendo, o que me obriga a ficar em alerta e me lembra da minha sina, a minha herança maldita, que é como uma doença genética e me condenou a uma existência solitária, sem poder formar laços de amor ou amizade com ninguém. Quando eu disse aos meus pais que iria embora, meu pai apenas sorriu e falou:

-Ninguém pode fugir do que é, seu tolo. Logo, você saberá disso. Por que não aceita quem é, assim como seus irmãos? O seu irmão mais velho e o outro já aceitaram. Quanto à sua irmã, ela passará essa condição para os filhos dela. É uma herança que não pode ser recusada.

De nada adiantou minha mãe me pedir para ficar, eu saí como um covarde que foge dos problemas, achando que se me afastasse da minha família, talvez não tivesse que lidar com minha herança. Mas logo vi que estava enganado. Há algum tempo, eu comecei a me sentir estranho e o sangue corre mais depressa em minhas veias quando a noite se aproxima. Sou tomado por instintos ferozes que me fazem não confiar em mim mesmo e suo frio, sentindo uma dor estranha atravessando meu corpo à medida que meu olfato, visão e audição ficam mais aguçados.

Sei que é apenas questão de tempo. Em breve, eu me transformarei numa besta-fera violenta e sedenta por matar, pois este é o meu destino, o destino de todos os homens da minha família: ser um filho da lua cheia, um lobisomem. Percebo isto quando me olho no espelho e vejo meus olhos, normalmente castanhos, ficarem amarelos e lupinos. O que eu sentirei quando finalmente ocorrer a minha transformação? Só sei que toda a minha ânsia por uma vida normal é inútil e nunca poderei realizar os meus sonhos de ser um simples homem porque sou simplesmente um lobisomem.

sábado, 8 de novembro de 2025

Telefonema à noite


 


O advogado estava se sentindo um tanto sobrecarregado. Tinha vários processos para estudar e tivera um dia cheio no escritório. Não era fácil ser um advogado de família conceituado, sempre solicitado para divórcios, separações e requerimentos de pensão alimentícia.

Sentou-se no sofá, esticando as pernas. Estava sozinho, pois a mulher e os dois filhos haviam viajado para passar uns dias com a mãe dela, que iria se submeter a uma biópsia. Sua filha reclamara muito, porque não queria passar uma parte das férias no interior.

-Ah, vou tomar uma ducha fria. Preciso relaxar a cabeça.decidiu.

Levantou-se para fazer o que pretendia, mas o telefone tocou, colocando-o em estado de alerta.Seria sua mulher? Atendeu.

-Alô.

-Alô. Quem é, por favor?respondeu uma voz de garota.Devia ter uns quinze anos, idade de sua filha.

Ele supôs que deveria ser uma das muitas amigas de sua filha e estranhou que ligasse, já que ela ligara para todas, reclamando que teria que passar uns dias "num fim de mundo".

-É o Gabriel. Quer falar com quem?

-Já que foi o senhor que atendeu, quero falar com o senhor.

-Como? Não estou entendendo!

-Sei que não está.

-Você não é amiga de minha filha?

-Não conheço sua filha não senhor. Eu nem sabia se o senhor tinha filhos. Aliás, não sei quem é o senhor.

-Escute, garota, estou entendendo menos ainda! Se isso for um trote...

-Não, juro que não é trote. Vi seu número por acaso na lista telefônica e liguei porque preciso falar com alguém.

-Menina, vou logo falando que sou advogado! Portanto, se não for problema de ordem legal, ligou para a pessoa errada!

-Por favor, não desligue.

A voz da menina soou tão angustiada que ele desistiu de desligar e falou num tom mais brando:

-Escute, filha, eu não sei por que me ligou, mas vejo que não é trote. Diga-me: por que precisa falar com alguém?

-Porque vou fazer uma coisa definitiva, mas antes quero dizer tudo o que sinto.

Iria a menina fazer alguma besteira? Tentou falar sem colocar alarme na voz:

-Fazer uma coisa definitiva?!

-Sim, senhor, eu vou me suicidar.falou com seriedade.

Por um momento, ele se perguntou se era um trote ou coisa de adolescente desequilibrada. Como alguém ligava para um desconhecido para dizer que ia cometer suicidio? Procurou falar com calma:

-Menina, se você está com problemas e precisa conversar, talvez fosse bom falar com seus pais ou outra pessoa que pudesse lhe ajudar. Eu não sou terapeuta, não posso lhe ajudar.

-Mas eu não quero ajuda, só quero falar o que sinto! Depois, eu não vou falar mais!

Sentando no sofá, ele perguntou:

-O que você sente? Fale.

-Sinto uma dor enorme dentro de mim. É como se houvesse um buraco que fosse aumentando.respondeu a menina com voz triste.

-Filha, diga-me seu nome.

-Não vou dizer.

-Tudo bem. Quantos anos você tem?

-Quatorze.

-Como é que alguém no começo da vida como você quer se matar? Deixe de pensar em besteira.

-Não é besteira!retrucou a menina com raiva.

-Calma, calma.

-O senhor pensa que é trote, né? Posso provar que não. Tem Facebook?

-Tenho. Quem é que não tem?

-Pois, se o senhor quiser, pode me procurar depois. Uso o nome de Vampira. Bem, não vai ver meu rosto, porque só posto fotos dos meus braços.

-E por que faz isso?

-Porque eu me corto.

Aquilo o escandalizou. Uma menina de quatorze anos, cortando-se?

-Filha, eu...

-Mas, se o senhor não procurar, tudo bem. Sei que não estou mentindo.

-Filha, você faz isso com você mesma?! Meu Deus, precisa de ajuda! Não faça isso com você!

-Logo, eu não farei mais.

-Fale com seus pais.

-Não adianta falar com eles, porque vão ficar com vergonha de mim, por eu ser doida. Quem gosta de ter filho doido?

-Quem disse que você é doida?

-Todo mundo diz que sou doida. Na escola, riem de mim, chamam-me de abilolada, falam que eu devia trabalhar num circo como palhaça. Em caso, eu só ouço que não faço nada direito, que sou idiota e que todos têm razão de rir de mim na escola. Às vezes, eu me sinto tão sozinha, que me tranco no quarto ou no banheiro e começo a me cortar.

-Seus pais sabem?

-Não, porque só uso blusa de manga comprida, mesmo no calor.

-Olhe, pare de fazer isso com você, por favor! Procure ajuda!

-Depois, eu não farei mais! Eu não falei que vou me matar?

-Por favor, não se mate! Tirar sua vida não resolverá nada!

-É que é uma dor tão grande dentro de mim que eu penso que vai estourar. Eu nunca contei a ninguém antes, não tenho com quem falar. Estou tão sozinha, ninguém liga para mim.

Escutou que a adolescente chorava e ficou seriamente preocupado. O que diria a ela? Falou:

-Calma, princesa, calma.

-E eu sou um aborrecimento para meus pais. Não seria melhor eu morrer? Eles ficariam livres de uma filha problemática e chorona e eu não teria mais que viver aguentando meus colegas dizendo que sou feia, desajeitada...

-Não ligue para seus colegas. São uns idiotas. E você não é um aborrecimento para seus pais, princesa.

-Por que me chama de princesa?

-Não é assim que os pais devem chamar as filhas? Eu chamava minha filha de "minha princesa". Hoje, já não chamo. Ela acha ridículo.

-É?

-É, ela diz que está crescida demais para essas coisas. Quando ela era menor, sentava no meu colo e eu sempre a beijava quando ia deixá-la na escola. Hoje, ela nem se despede ao descer do carro.

-O senhor fica triste?

-Um pouco. É chato quando os filhos nos preferem longe deles.

-Pois, se o senhor estivesse aqui, eu iria querer que me abraçasse.

Ele pensou que conversar poderia distrai-la e continuou:

-Eu lhe daria um abraço bem grande, princesa. Escute, desista dessa tolice de se matar. Você é importante.

-Como sabe?

-Ora, todos são. E eu percebo que você é uma menina sensível, necessitada de carinho.

-O senhor não pode saber isso de mim. Não me conhece, nunca me viu.

-Eu não preciso de olhos para ver que você é muito sensível e precisa de alguém que a ouça e a entenda. E que deve procurar ajuda.

-Eu não sei como.

-Procure uma pessoa de sua família em quem você confie ou alguém mais velho que conheça. Você falou que sente uma dor muito grande, não é? Quem sabe, falando com alguém, você não se sentirá melhor?

-O senhor pensa assim?

-Penso. Eu quero mesmo lhe ajudar.

-Como posso saber que quer me ajudar? O senhor pode estar sendo gentil só por educação.Talvez, depois que eu desligar, nem lembre de mim.

-Pois vou lhe mostrar que me importo com você. Vou lhe dar o endereço do meu escritório e, se você quiser, apareça por lá.

Seria prudente? Talvez não. Mesmo assim, ele deu.

-Anotei. disse a menina.

"Se tudo que ela falou for verdade, quem sabe minha ideia não servirá para que desista de cometer suicídio?"

-Pronto. Não vê que me importo? Agora, princesa, vá dormir. Amanhã, tudo será melhor.

-Tem certeza?

-Tenho. Boa noite.

-Boa noite.desligou.

Ao desligar, ele não estava tranquilo. Ligou o computador, entrou no Facebook e procurou por Vampira, horrorizando-se com o que descobriu: uma menina de cabelos muito compridos, os quais usava para esconder o rosto e que botava os braços marcados de cortes e cicatrizes à frente do corpo. Os comentários que ela postava eram: "A dor física me faz esquecer a dor emocional"; "Meu coração sangra mais que meus cortes" ou "Queria poder chorar sangue".

-Meu Deus, ela está muito mal! Coitadinha!

No dia seguinte, ao telefonar para a mulher, perguntou pela sogra e acabou contando sobre o estranho telefonema, a conversa com a adolescente e a descoberta no Facebook.

-Querido,será que, depois do telefonema, essa menina está bem?

-Não sei, meu amor, eu queria saber.

-Tomara que tenha desistido. É tão triste uma criança pôr fim à própria vida.

Despediu-se da esposa e pensou por um longo tempo no relacionamento que tinha com os filhos. Sua filha mais velha, a quem tentara dar o melhor, tornara-se uma verdadeira patricinha, metida e esnobe, que só recorria aos pais quando precisava de dinheiro e dava demasiada importância a roupas e aparência. E seu filho? Era um verdadeiro cabeça oca, que não estudava, vivia vendo besteiras na Internet e andava com amigos superficiais que não falavam em outra coisa além de skates e garotas.

"Para meus filhos, tragédia é ficar sem dinheiro para comprar o que gostam e essa garota está sentindo falta de quem lhe dê amor e a entenda."

Foi ao escritório, mas não conseguiu se focar apenas no trabalho como antes. A história da menina não saia da sua cabeça e ele rezava mentalmente para que houvesse desistido de cometer suicídio.

No fim da tarde, em casa, ligou a televisão e viu que o telejornal anunciava:"Adolescente pula para a morte." Desesperado, acompanhou as notícias que passavam ao vivo, onde as pessoas se aglomeravam e os policiais diziam que ninguém devia chegar ao local. A vítima, uma adolescente, pulara do alto de um edifício e não fora identificada.

-Meu Deus, por favor, que não tenha sido ela!

Ficou atordoado, imaginando que a jovem desesperada que lhe ligara a noite anterior poderia agora estar sendo encaminhada ao IML. Sentindo-se impotente, não comeu nem conseguiu estudar os processos, rezando para que a menina que lhe telefonara não fosse a suicida.

Tarde da noite, o telefone tocou. Seria ela? Tremendo, atendeu:

-Alô?

-Alô.

Reconheceu a voz da adolescente.

-Ah, princesa,é você! Que bom que é você!

-O senhor acha mesmo bom que seja eu?

-Sim, você não imagina como eu estava preocupado!

-Depois que o senhor desligou, eu não quis mais fazer o que ia fazer.

-Falou com alguém?

-Não, não tive coragem.

-Tudo bem, está tudo bem. Pelo menos, você está viva.

-Quero dizer uma coisa.

-Diga.

-Meu nome é Maria Lúcia.

-Um nome lindo.

-Eu vi na televisão sobre uma moça que pulou de um prédio, sabe? Pensei: quem sabe, se ela não tivesse encontrado alguém que a ajudasse, ela não teria desistido. Aí, eu agradeci porque o senhor quis me ouvir e ajudar, mesmo sem me conhecer.

-Pois estou querendo conhecer você, princesa. Apareça no meu escritório.

-Posso mesmo?

-Pode.

-Boa noite.

-Boa noite, querida. Durma bem.

Ela desligou e ele pensou que uma grande angústia saíra de seu peito.

-O que será dela agora?

Alguns dias depois, sua esposa e filhos voltavam. A mãe dela estava bem. Os filhos estavam com um humor péssimo. Ele falou com a mulher que a menina ligara e dissera que desistira de se matar.

-Que bom!comemorou a mulher.

Uma tarde, à hora do almoço, sua secretária bateu à sua porta.

-Entre.

-Dr. Gabriel, uma jovem chamada Maria Lúcia quer falar com o senhor.

-Ah, claro, mande-a entrar.alvoroçou-se.

Logo, ele viu uma menina alta, magra, tímida, de pele moreno-clara, cabelos muito compridos e que usava casaco "jeans" entrar.

-Oi. balbuciou a jovem.

Tinha olhos grandes, expressivos, escuros e muito doces.

-Oi, princesa. Como você está? Por favor, sente.

Ela sentou e falou:

-Eu tomei coragem e falei com meus pais. Mostrei até meu Facebook. Quando viram,não acreditaram! Perguntaram-me por que eu nunca fora até eles antes e como era possível que eu escondesse aquilo! Respondi que tinha medo de que ficassem com vergonha de mim por eu ser doida! Meu pai, então, disse: "Não, querida, eu não tenho vergonha de você e não acho você doida! Agora, eu vejo o que você está passando!"

-Que bom!

-Quero muito agradecer ao senhor. Fez com que eu ganhasse coragem de mostrar isso a meus pais. tirou o casaco.

Consternado, ele olhou para os curativos e marcas de cortes antigos nos braços dela e se aproximou, pedindo:

-Por favor, eu peço: nunca mais faça isso com você! Peça ajuda e deixe que cuidem de você!

A menina ergueu a cabeça. Tinha lágrimas nos olhos.

-Posso pedir uma coisa ao senhor?

-Claro, o que você quer?

-Pode me dar um abraço?

Protetoramente, ele a abraçou.

-Está tudo bem, filha. Está tudo bem.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A cuia amaldiçoada


 


Os filhos do professor não estavam nada contentes por saber que o pai iria passar um tempo numa população ribeirinha para pesquisar para sua tese de doutorado. A filha, Rosalinda, nada disse porque sempre fora uma mocinha de temperamento fechado mas o filho, Cecílio, reclamou bastante que não queria ir passar um tempo no interior. A mãe, Andrezza, ralhou com os filhos:

-Parem de ser egoístas. Seu pai precisa fazer uma pesquisa de campo para seu doutorado em Antropologia. É a carreira dele.

Cecílio disse que detestava o interior e não queria passar seu mês de férias entre um monte de caipiras atrasados mas o pai, Sócrates, cortou a reclamação dos filhos:

-Parem de fazer cara feia e reclamar! Nós vamos e ponto final!

Desse jeito, tiveram de ir e se alojaram numa casinha simples e os filhos fizeram cara feia ao ver aquela gente simples. Mas a curiosidade de Cecílio, o filho mais velho, aumentou ao ver uma mulher pequena, negra e idosa colocar uma cuia com uma vela no rio. Perguntou a um morador o que era e ele respondeu:

-Mãe Benedita está colocando a cuia para achar o corpo do filho dela, que sumiu no rio. A gente aqui usa a cuia para achar o corpo de quem se afogou.

À hora do jantar, Cecílio contou o que vira e o pai confirmou:

-Em populações ribeirinhas, as pessoas têm a crença de que colocar uma cuia com uma vela fará com que consigam encontrar o corpo de quem se afogou. Em todo caso, Cecílio, eu sei que você gosta de nadar, eu lhe po que nenhum dos dois entre naquele rio. Ouvi um pescador local dizer que as águas são traiçoeiras e muita gente se afogou lá. Então, meus filhos, por favor, fiquem longe do rio. Nada de nadar lá. Creio que vocês já são crescidos o suficiente para não precisarem que nós os vigiemos o tempo todo.

Rosalinda, que era uma péssima nadadora, concordou que não colocaria o pé n’água pois não gostava nem de pensar na possibilidade de morrer afogada mas Cecílio se interessou pela história do rio por causa do costume da cuia. Depois que jantaram, Rosalinda foi para observar as estrelas e Cecílio foi até ela, falando:

-Esse povo aqui é muito ignorante. Achar que uma cuia com uma vela pode achar o corpo de quem se afogou. 

A irmã olhou para ele, dando de ombros e dizendo:

-Para mim isso não interessa. O que eu espero é que pai termine logo a pesquisa dele. As pessoas que vivem aqui neste fim de mundo são muito fofoqueiras e curiosas.

Cecílio teve uma ideia:

-Vamos até o rio.

Com seu costumeiro mau humor, Rosalinda reclamou:

-Cecílio, você é louco? Se for nadar lá, pode morrer afogado. E depois, o que quer ver num rio de cidade do interior?

-Vamos, sua chata. Você nunca gosta de nada além de ficar de cara feia. Vamos esperar pai se trancar para estudar para a tese dele. Mãe está ocupada demais com os pratos para reparar na gente.

Ela respondeu:

-Como se você gostasse da ideia de passar um tempo aqui, não é?

O irmão insistiu tanto que ela concordou em segui-lo e, após o pai se trancar no quarto para estudar,  foram em direção ao rio, torcendo para que os pais não notassem sua ausência. Andaram pouco, pois o rio não era longe. Cecílio mostrou a cuia para a irmã, que disse:

-Será que isso acha mesmo o corpo dos afogados?

-Sei lá.

A cuia boiava inocentemente quase à beira do rio e Cecílio, tendo uma ideia ousada, entrou na água até a cintura. Rosalinda gritou:

-Seu louco, que está fazendo?

-Deixa de ser tonta. A correnteza aqui não é forte e eu sei nadar muito bem.

Então, Cecílio nadou um pouco até a cuia, pegando-a e saindo do rio com ela. Rosalinda não entendeu o que ele queria com aquele objeto inútil.

-Coloque isso novamente na água, seu idiota! Melhor respeitar o costume da gente daqui.

-Eu não.

Os dois estavam distraídos e não ouviram passos quase silenciosos atrás deles, o que os fez pular de susto ao ouvir:

-Coloque a cuia na água, menino! A cuia acha o corpo dos mortos! Eu coloquei a cuia para achar o corpo do meu filho! é o terceiro filho que Deus leva! Dois dos meus filhos já morreram de sarampo na infância e meu marido morreu de tanto beber. Eu só tenho uma filha agora. Coloque a cuia na água!

Então, viraram-se e viram uma senhora pequena, negra, mirrada, de cabelos brancos como algodão e que tinha uma expressão furiosa. Cecílio lembrou que ela era mãe Benedita. Riu com sarcasmo:

-Isso não serve para nada senhora. Serão os bombeiros que vão achar o corpo do seu filho, não isso.

-Coloque na água, menino! Coloque ou se arrependerá! Bradou a velha.

Rosalinda concordou com mãe Benedita:

-Vamos, Cecílio, respeite a dor dela. Ela perdeu o filho. Coloque na água.

Ainda rindo, Cecílio disse à irmã:

-Vamos, Rosalinda.

Mãe Benedita, com as lágrimas descendo pelas faces, bradou mais forte:

-Você se arrependerá de não ter respeitado os mortos! Só porque veio da cidade acha que é mais do que nós, mas não é! Menino metido a besta, irá pagar caro pela insoncia!

Os irmãos saíram de perto da velha e Rosalinda contou a Cecílio que concordava com mãe Benedita:

-Você é mesmo um metido a besta, Cecílio! A velha bem que tem razão.

-Por favor, Rosalinda, está com pena de uma velha ignorante?

-Tenho pena é de você, que é um idiota. Papai vive reclamando porque você não estuda, só tira notas baixas, já foi expulso de uma escola por agredir um professor. Mamãe e ele desistiram de lhe botar de castigo porque você não se corrige.

Voltaram a casa e pularam pela janela. Celio tirou a roupa molhada e colocou uma seca para dormir e Rosalinda foi para seu quarto. O rapaz viu a vela acesa por um tempo e a apagou, rindo do costume daquele povo do interior. 

No dia seguinte, Sócrates, ao voltar da pesquisa de campo, ralhou com Cecílio:

-Seu moleque sem consideração! Pessoas vieram me contar o que você fez! E que foi fazer no rio àquela hora da noite? Ainda levou sua irmã junto? Você nem parece que tem dezesseis anos! Não sabe nem respeitar os outros!

Cecílio ficou sem jeito e Sócrates disse:

-Vá devolver a cuia àquela senhora chamada mãe Benedita! Estou cansado de você e de suas encrencas! Você atrai encrenca como mel atrai mosca!

-Por que eu deveria me importar com uma cuia jogada por uma velha analfabeta no rio?

-Vá agora mesmo ou vai se arrepender!

O menino saiu com a cuia e, quando achou que ninguém estava olhando, colocou-a na terra, pisando nela e quebrando-a, vitorioso.

-A Rosalinda também foi e papai nem briga com ela, que é a princesa dele. Ele vive reclamando que sou vagabundo, encrenqueiro e não estudo, não é? Pois não vou devolver esta merda! Que a velha me rogue praga!

Mais tarde, quando o pai perguntou se ele devolvera, ele contou a verdade e o pai, desgostoso, indagou:

-Por que você é assim, Celio? Eu falhei com você, não foi? Tudo que sua mãe e eu fizemos para lhe dar educação não deu em nada. Se eu tivesse sido um pai carrasco, mas nunca lhe encostei a mão...

À noite, Cecílio tentava dormir quando ouviu algo estranho batendo na janela do seu quarto. O que seria? Levantou-se, achando que podia ser o vento e abriu a janela, não vendo nada. Entretanto, escutou uma voz cavernosa, como se saída das profundezas da terra:

-Onde está a cuia? A cuia vai achar meu corpo. Onde está a cuia? Cadê a cuia, seu miserável? Você não respeita os mortos.

Enraivecido, Cecílio berrou:

-Miserável é você, seu bosta! Acha que tenho medo de brincadeiras!

crates, Andrezza e Rosalinda acordaram e quiseram saber o que tinha acontecido. Cecílio falou e Sócrates disse:

-Vamos voltar a dormir. Foi brincadeira de mau gosto.

Entretanto, na outra noite, Cecílio dormia e acordou berrando enlouquecido. Rosalinda foi ao quarto do irmão saber qual era o problema e ele revelou que tivera um horrível pesadelo no qual um cadáver bastante decomposto, roído de peixe, com um olho faltando e os ossos de uma costela aparecendo falava com voz cavernosa:

-A cuia, quero de volta a cuia. A cuia vai achar corpo de afogado...

Sócrates achou tudo muito estranho. Cecílio nunca fora impressionável. Achou que talvez ele precisasse de terapia ou qualquer outra coisa e Andrezza, cuja mãe era espírita, teve uma ideia:

-Que tal darmos outra cuia àquela senhora, querido?

Andrezza depois foi dar uma cuia a mãe Benedita, desculpando-se pelo filho. A velha senhora aceitou e foi cortês mas falou com voz grave:

-Seu filho desrespeitou as leis sagradas, senhora. Infelizmente, estão zangados com ele. Ele tem que pedir perdão.

A mãe ficou assustada mas Sócrates, homem cético, disse para ela não se impressionar. Porém, na terceira noite, quando Celio ouviu baterem novamente na janela, ele não teve a reação mal-educada e pediu:

-Vá embora. Minha mãe deu uma cuia a mãe Benedita.

-Vodeve devolver a cuia, seu miserável...

O medo congelou Cecílio, que não conseguiu dormir e, na noite seguinte, ele estava quase dormindo quando ouviu passos pela casa. Com certeza, ele era o único acordado porque ninguém mais reclamou dos passos, que eram bem barulhentos. E uma voz ecoou pela casa:

-Você vai pagar o preço, sofrer as consequências, seu miserável! 

Sem aguentar, Cecílio gritou, acordando Sócrates, Andrezza e Rosalinda, que ficaram realmente assustados ao ver que o chão da casa estava molhado, como se alguém houvesse andado por lá com os pés encharcados. Até mesmo Sócrates ficou pasmo, perguntando-se o que podia estar acontecendo.

Andrezza e Sócrates, aconselhados por um dos moradores do lugar, chamaram uma rezadeira, que ao colocar as mãos sobre Cecílio, disse com gravidade:

-O menino foi amaldiçoado. 

A velha rezou e rezou sobre Cecílio, que esperava que a reza desse certo. Quando ela se foi, ele disse ao pai:

-Pai, desculpe, eu fiz besteira. Aliás, não é a primeira besteira que faço.  dou problemas. Desculpe, pai.

Sócrates abraçou o filho, tentando acalmá-lo:

-Calma, filho, vai dar tudo certo. Logo, vou terminar meu trabalho e vamos embora. E não se preocupe. Eu já fui jovem. Jovens fazem besteiras mesmo. Vou apressar e, em poucos dias, termino tudo e vamos embora.

Todavia, Cecílio reclamou novamente que era visitado por aparições fantasmagóricas de gente afogada reclamando por ele ter quebrado a cuia. E o rapaz foi ficando nervoso e assustado. Rosalinda era a mais assombrada e, na quarta noite após a conversa com o pai, Cecílio ouviu passos andarem pela casa e saiu do quarto, implorando:

-Me perdoe, eu juro que estou arrependido.

O rapaz então viu o espectro. Era um cadáver decomposto de um afogado. A pele estava flácida, despregando do corpo, os ossos do braço esquerdo apareciam e os olhos sumiam nas órbitas.

-Você quebrou a cuia. Disse o afogado.

-Me perdoe...

-Venha agora comigo. Falou o afogado com voz autoritária.

Cecílio não entendeu o que acontecia. Ele queria resistir, mas não conseguia e foi seguindo o afogado. Rosalinda acordou e viu o irmão saindo da casa, no entanto não viu o espectro e por isso não entendeu, chamando os pais e  gritando:

-Cecílio, volte aqui!

Os pais despertaram e viram Rosalinda sair de casa, ficando surpresos e segurando a filha.

-Pai, mãe, Cecílio saiu de casa andando como se estivesse hipnotizado.

Sócrates trocou rapidamente de roupa e foi atrás do filho, chamando por ele toda a noite. Inútil. Não encontrou Cecílio. Pela manhã, a polícia procurou o rapaz inutilmente. Andrezza ficou desesperada e Rosalinda, que não era de rezar, rezou para que encontrassem o irmão. 

Foi então que mãe Benedita pegou uma cuia com uma vela e a colocou no rio, rezando. Horas depois, um pescador gritou que, perto de onde flutuava a cuia com a vela,  encontrara um corpo e os bombeiros foram cuidar do caso. Era o corpo de um rapaz, que estava de olhos abertos. Chamaram os pais e Sócrates reconheceu o corpo do filho. Andrezza caiu de joelhos na beira do rio, chorando enlouquecida.

Sócrates concordou que deviam sair daquela cidade. A pesquisa o importava mais. Cecílio foi sepultado sob muitas lágrimas. Andrezza estava devastada e Rosalinda chorava muito. Sócrates se culpava por não ter saído logo da cidade e dizia que nunca se perdoaria.

Muito longe dali, na pequena cidade, mãe Benedita observava o rio, falando com voz triste:

-Quem desrespeita os mortos sempre paga o preço.