Os filhos do professor não estavam nada contentes por saber que o pai iria passar um tempo numa população ribeirinha para pesquisar para sua tese de doutorado. A filha, Rosalinda, nada disse porque sempre fora uma mocinha de temperamento fechado mas o filho, Cecílio, reclamou bastante que não queria ir passar um tempo no interior. A mãe, Andrezza, ralhou com os filhos:
-Parem de ser egoístas. Seu pai precisa fazer uma pesquisa de campo para seu doutorado em Antropologia. É a carreira dele.
Cecílio disse que detestava o interior e não queria passar seu mês de férias entre um monte de caipiras atrasados mas o pai, Sócrates, cortou a reclamação dos filhos:
-Parem de fazer cara feia e reclamar! Nós vamos e ponto final!
Desse jeito, tiveram de ir e se alojaram numa casinha simples e os filhos fizeram cara feia ao ver aquela gente simples. Mas a curiosidade de Cecílio, o filho mais velho, aumentou ao ver uma mulher pequena, negra e idosa colocar uma cuia com uma vela no rio. Perguntou a um morador o que era e ele respondeu:
-Mãe Benedita está colocando a cuia para achar o corpo do filho dela, que sumiu no rio. A gente aqui usa a cuia para achar o corpo de quem se afogou.
À hora do jantar, Cecílio contou o que vira e o pai confirmou:
-Em populações ribeirinhas, as pessoas têm a crença de que colocar uma cuia com uma vela fará com que consigam encontrar o corpo de quem se afogou. Em todo caso, Cecílio, eu sei que você gosta de nadar, eu lhe peço que nenhum dos dois entre naquele rio. Ouvi um pescador local dizer que as águas são traiçoeiras e muita gente se afogou lá. Então, meus filhos, por favor, fiquem longe do rio. Nada de nadar lá. Creio que vocês já são crescidos o suficiente para não precisarem que nós os vigiemos o tempo todo.
Rosalinda, que era uma péssima nadadora, concordou que não colocaria o pé n’água pois não gostava nem de pensar na possibilidade de morrer afogada mas Cecílio se interessou pela história do rio por causa do costume da cuia. Depois que jantaram, Rosalinda foi para observar as estrelas e Cecílio foi até ela, falando:
-Esse povo aqui é muito ignorante. Achar que uma cuia com uma vela pode achar o corpo de quem se afogou.
A irmã olhou para ele, dando de ombros e dizendo:
-Para mim isso não interessa. O que eu espero é que pai termine logo a pesquisa dele. As pessoas que vivem aqui neste fim de mundo são muito fofoqueiras e curiosas.
Cecílio teve uma ideia:
-Vamos até o rio.
Com seu costumeiro mau humor, Rosalinda reclamou:
-Cecílio, você é louco? Se for nadar lá, pode morrer afogado. E depois, o que quer ver num rio de cidade do interior?
-Vamos, sua chata. Você nunca gosta de nada além de ficar de cara feia. Vamos esperar pai se trancar para estudar para a tese dele. Mãe está ocupada demais com os pratos para reparar na gente.
Ela respondeu:
-Como se você gostasse da ideia de passar um tempo aqui, não é?
O irmão insistiu tanto que ela concordou em segui-lo e, após o pai se trancar no quarto para estudar, foram em direção ao rio, torcendo para que os pais não notassem sua ausência. Andaram pouco, pois o rio não era longe. Cecílio mostrou a cuia para a irmã, que disse:
-Será que isso acha mesmo o corpo dos afogados?
-Sei lá.
A cuia boiava inocentemente quase à beira do rio e Cecílio, tendo uma ideia ousada, entrou na água até a cintura. Rosalinda gritou:
-Seu louco, que está fazendo?
-Deixa de ser tonta. A correnteza aqui não é forte e eu sei nadar muito bem.
Então, Cecílio nadou um pouco até a cuia, pegando-a e saindo do rio com ela. Rosalinda não entendeu o que ele queria com aquele objeto inútil.
-Coloque isso novamente na água, seu idiota! Melhor respeitar o costume da gente daqui.
-Eu não.
Os dois estavam distraídos e não ouviram passos quase silenciosos atrás deles, o que os fez pular de susto ao ouvir:
-Coloque a cuia na água, menino! A cuia acha o corpo dos mortos! Eu coloquei a cuia para achar o corpo do meu filho! Já é o terceiro filho que Deus leva! Dois dos meus filhos já morreram de sarampo na infância e meu marido morreu de tanto beber. Eu só tenho uma filha agora. Coloque a cuia na água!
Então, viraram-se e viram uma senhora pequena, negra, mirrada, de cabelos brancos como algodão e que tinha uma expressão furiosa. Cecílio lembrou que ela era mãe Benedita. Riu com sarcasmo:
-Isso não serve para nada senhora. Serão os bombeiros que vão achar o corpo do seu filho, não isso.
-Coloque na água, menino! Coloque ou se arrependerá! Bradou a velha.
Rosalinda concordou com mãe Benedita:
-Vamos, Cecílio, respeite a dor dela. Ela perdeu o filho. Coloque na água.
Ainda rindo, Cecílio disse à irmã:
-Vamos, Rosalinda.
Mãe Benedita, com as lágrimas descendo pelas faces, bradou mais forte:
-Você se arrependerá de não ter respeitado os mortos! Só porque veio da cidade acha que é mais do que nós, mas não é! Menino metido a besta, irá pagar caro pela insolência!
Os irmãos saíram de perto da velha e Rosalinda contou a Cecílio que concordava com mãe Benedita:
-Você é mesmo um metido a besta, Cecílio! A velha bem que tem razão.
-Por favor, Rosalinda, está com pena de uma velha ignorante?
-Tenho pena é de você, que é um idiota. Papai vive reclamando porque você não estuda, só tira notas baixas, já foi expulso de uma escola por agredir um professor. Mamãe e ele desistiram de lhe botar de castigo porque você não se corrige.
Voltaram a casa e pularam pela janela. Cecílio tirou a roupa molhada e colocou uma seca para dormir e Rosalinda foi para seu quarto. O rapaz viu a vela acesa por um tempo e a apagou, rindo do costume daquele povo do interior.
No dia seguinte, Sócrates, ao voltar da pesquisa de campo, ralhou com Cecílio:
-Seu moleque sem consideração! Pessoas vieram me contar o que você fez! E que foi fazer no rio àquela hora da noite? Ainda levou sua irmã junto? Você nem parece que tem dezesseis anos! Não sabe nem respeitar os outros!
Cecílio ficou sem jeito e Sócrates disse:
-Vá devolver a cuia àquela senhora chamada mãe Benedita! Estou cansado de você e de suas encrencas! Você atrai encrenca como mel atrai mosca!
-Por que eu deveria me importar com uma cuia jogada por uma velha analfabeta no rio?
-Vá agora mesmo ou vai se arrepender!
O menino saiu com a cuia e, quando achou que ninguém estava olhando, colocou-a na terra, pisando nela e quebrando-a, vitorioso.
-A Rosalinda também foi e papai nem briga com ela, que é a princesa dele. Ele vive reclamando que sou vagabundo, encrenqueiro e não estudo, não é? Pois não vou devolver esta merda! Que a velha me rogue praga!
Mais tarde, quando o pai perguntou se ele devolvera, ele contou a verdade e o pai, desgostoso, indagou:
-Por que você é assim, Cecílio? Eu falhei com você, não foi? Tudo que sua mãe e eu fizemos para lhe dar educação não deu em nada. Se eu tivesse sido um pai carrasco, mas nunca lhe encostei a mão...
À noite, Cecílio tentava dormir quando ouviu algo estranho batendo na janela do seu quarto. O que seria? Levantou-se, achando que podia ser o vento e abriu a janela, não vendo nada. Entretanto, escutou uma voz cavernosa, como se saída das profundezas da terra:
-Onde está a cuia? A cuia vai achar meu corpo. Onde está a cuia? Cadê a cuia, seu miserável? Você não respeita os mortos.
Enraivecido, Cecílio berrou:
-Miserável é você, seu bosta! Acha que tenho medo de brincadeiras!
Sócrates, Andrezza e Rosalinda acordaram e quiseram saber o que tinha acontecido. Cecílio falou e Sócrates disse:
-Vamos voltar a dormir. Foi brincadeira de mau gosto.
Entretanto, na outra noite, Cecílio dormia e acordou berrando enlouquecido. Rosalinda foi ao quarto do irmão saber qual era o problema e ele revelou que tivera um horrível pesadelo no qual um cadáver já bastante decomposto, roído de peixe, com um olho faltando e os ossos de uma costela aparecendo falava com voz cavernosa:
-A cuia, quero de volta a cuia. A cuia vai achar corpo de afogado...
Sócrates achou tudo muito estranho. Cecílio nunca fora impressionável. Achou que talvez ele precisasse de terapia ou qualquer outra coisa e Andrezza, cuja mãe era espírita, teve uma ideia:
-Que tal darmos outra cuia àquela senhora, querido?
Andrezza depois foi dar uma cuia a mãe Benedita, desculpando-se pelo filho. A velha senhora aceitou e foi cortês mas falou com voz grave:
-Seu filho desrespeitou as leis sagradas, senhora. Infelizmente, estão zangados com ele. Ele tem que pedir perdão.
A mãe ficou assustada mas Sócrates, homem cético, disse para ela não se impressionar. Porém, na terceira noite, quando Cecílio ouviu baterem novamente na janela, ele não teve a reação mal-educada e pediu:
-Vá embora. Minha mãe deu uma cuia a mãe Benedita.
-Você deve devolver a cuia, seu miserável...
O medo congelou Cecílio, que não conseguiu dormir e, na noite seguinte, ele estava quase dormindo quando ouviu passos pela casa. Com certeza, ele era o único acordado porque ninguém mais reclamou dos passos, que eram bem barulhentos. E uma voz ecoou pela casa:
-Você vai pagar o preço, sofrer as consequências, seu miserável!
Sem aguentar, Cecílio gritou, acordando Sócrates, Andrezza e Rosalinda, que ficaram realmente assustados ao ver que o chão da casa estava molhado, como se alguém houvesse andado por lá com os pés encharcados. Até mesmo Sócrates ficou pasmo, perguntando-se o que podia estar acontecendo.
Andrezza e Sócrates, aconselhados por um dos moradores do lugar, chamaram uma rezadeira, que ao colocar as mãos sobre Cecílio, disse com gravidade:
-O menino foi amaldiçoado.
A velha rezou e rezou sobre Cecílio, que esperava que a reza desse certo. Quando ela se foi, ele disse ao pai:
-Pai, desculpe, eu fiz besteira. Aliás, não é a primeira besteira que faço. Só dou problemas. Desculpe, pai.
Sócrates abraçou o filho, tentando acalmá-lo:
-Calma, filho, vai dar tudo certo. Logo, vou terminar meu trabalho e vamos embora. E não se preocupe. Eu já fui jovem. Jovens fazem besteiras mesmo. Vou apressar e, em poucos dias, termino tudo e vamos embora.
Todavia, Cecílio reclamou novamente que era visitado por aparições fantasmagóricas de gente afogada reclamando por ele ter quebrado a cuia. E o rapaz foi ficando nervoso e assustado. Rosalinda era a mais assombrada e, na quarta noite após a conversa com o pai, Cecílio ouviu passos andarem pela casa e saiu do quarto, implorando:
-Me perdoe, eu juro que estou arrependido.
O rapaz então viu o espectro. Era um cadáver já decomposto de um afogado. A pele estava flácida, despregando do corpo, os ossos do braço esquerdo apareciam e os olhos sumiam nas órbitas.
-Você quebrou a cuia. Disse o afogado.
-Me perdoe...
-Venha agora comigo. Falou o afogado com voz autoritária.
Cecílio não entendeu o que acontecia. Ele queria resistir, mas não conseguia e foi seguindo o afogado. Rosalinda acordou e viu o irmão saindo da casa, no entanto não viu o espectro e por isso não entendeu, chamando os pais e gritando:
-Cecílio, volte aqui!
Os pais despertaram e viram Rosalinda sair de casa, ficando surpresos e segurando a filha.
-Pai, mãe, Cecílio saiu de casa andando como se estivesse hipnotizado.
Sócrates trocou rapidamente de roupa e foi atrás do filho, chamando por ele toda a noite. Inútil. Não encontrou Cecílio. Pela manhã, a polícia procurou o rapaz inutilmente. Andrezza ficou desesperada e Rosalinda, que não era de rezar, rezou para que encontrassem o irmão.
Foi então que mãe Benedita pegou uma cuia com uma vela e a colocou no rio, rezando. Horas depois, um pescador gritou que, perto de onde flutuava a cuia com a vela, encontrara um corpo e os bombeiros foram cuidar do caso. Era o corpo de um rapaz, que estava de olhos abertos. Chamaram os pais e Sócrates reconheceu o corpo do filho. Andrezza caiu de joelhos na beira do rio, chorando enlouquecida.
Sócrates concordou que deviam sair daquela cidade. A pesquisa não importava mais. Cecílio foi sepultado sob muitas lágrimas. Andrezza estava devastada e Rosalinda chorava muito. Sócrates se culpava por não ter saído logo da cidade e dizia que nunca se perdoaria.
Muito longe dali, na pequena cidade, mãe Benedita observava o rio, falando com voz triste:
-Quem desrespeita os mortos sempre paga o preço.

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