Já fazia três dias que eu estava tendo aquele estranho pesadelo no qual eu via uma mulher com um vestido de noiva andando pela nossa casa. Talvez me dissessem que não havia nada de mais numa mulher vestida de noiva, acontece que o vestido dela era negro, muito negro e eu não podia ver seu rosto coberto por um véu. Da estranha mulher, que carregava um buquê de rosas brancas, eu via apenas as mãos muito pálidas, longas e com unhas compridas. Não queria dizer a minha mãe, que com certeza ficaria com medo nem a meu irmão mais velho, que acharia graça. Quanto ao meu pai, eu nem poderia dizer. Ele passava o dia ocupado com os negócios da fazenda e, embora sempre fosse carinhoso comigo por ser a filha mais nova , não daria atenção a essas coisas.
Sei que mãe teria medo porque ela tinha medo de muitas coisas. Acreditava em almas penadas, tinha medo do canto da rasga-mortalha e mantinha fechado o quarto que tinha sido da minha tia desde que ela se suicidara, por motivos que eu nunca soube, pois isso ocorreu antes do meu nascimento, dizendo que ninguém mais deveria dormir na cama da falecida porque o quarto tinha ficado amaldiçoado. Meu pai não tinha paciência mas como estava sempre muito ocupado mãe ficava livre para passar os dias rezando. Ela tinha o hábito de rezar muito porque eu nasci depois dela ter sofrido três abortos. Mãe tinha medo da rasga-mortalha devido ao fato de que ouvira a coruja cantar na sua janela quando estava grávida do segundo filho, abortando no dia seguinte. Talvez por causa dos abortos que ela sofrera, vivia com os nervos à flor da pele acreditando que o fantasma da minha tia andava pela casa.
Depois de ter tido o pesadelo pela terceira vez, fui à cozinha onde Maricota preparava o café. A empregada praticamente me criara porque mãe não conseguira fazê-lo por viver nervosa e doente. A boa mulher me sorriu.
-Que faz acordada tão cedo, Natália? Não me diga que está com fome, menina? Você nunca foi de comer muito por isso é tão magrinha enquanto o coronel e seu irmão comem um boi inteiro cada um.
-Não é isso, Maricota. É que ando tendo um pesadelo muito estranho.
-Qual é, minha filha? Conte aqui para esta velha.
Contei o sonho e ela ouviu, muito séria.
-Noiva de vestido negro? Não parece bom sinal não. Mas você ainda é muito nova para casar, então não sei dizer se é para você ficar com medo. Não diga para sua mãe. Ela já vive nervosa e isso só vai piorar o estado dela. O coronel Mendonça vai achar que você está impressionada com as coisas que sua mãe fala então é melhor que ele também não saiba.
Sai da cozinha e encontrei meu pai. Ele era um homem alto, imponente e rude, mas eu me sentia segura perto dele, que falou:
-Bom dia, pequena. Levantou cedo.
-Bom dia, papai. Não dormi bem.
Ele me beijou a cabeça, dizendo:
-Aproveite e tome um bom café. Você precisa comer bem. Está muito magrinha. Você é uma menina bonita, mas precisa comer bem para um dia ser uma boa parideira. Ainda lembro de quando você nasceu prematura. Você foi o menor bebê que já vi, diferente do Manuel, que nasceu enorme. Sua mãe sofreu muito para tê-lo e quase morreu. Vamos sentar e tomar um café.
Sentei com papai à mesa. Ele podia ser rude mas, à maneira dele, era muito bom para mim e aguentava o nervosismo de mamãe. Maricota me dissera que mamãe costumava ser uma mulher alegre e enérgica mas que começara a mudar depois de engravidar a primeira vez e piorara muito com o suicídio da minha tia e os abortos, que foram acabando sua saúde. Eu achava que papai passava o dia ocupado com os negócios não tanto por dedicação ao trabalho mas para não ficar aguentando as crises de mamãe. Ele também era muito duro com Manuel, talvez porque esperasse que o meu irmão fosse capaz de um dia tomar conta da fazenda com mão de ferro como ele sempre fizera. Quanto a mim, por ser a mais nova e ter nascido prematura, fui muito mimada.
Logo, mamãe e Manuel apareceram e começamos a comer. Papai, como sempre, ficou falando sobre os negócios, perguntando a Manuel sobre as colheitas e outras coisas. Mamãe comia em silêncio e Manuel disse:
-Pai, mãe, eu conheci uma moça maravilhosa, a filha da família Ferreira.
-A que se chama Angelina? Perguntei.
Meu irmão, um rapaz alto e bonito, confirmou. Papai falou:
-Bem, a família Ferreira é uma boa família. Essa Angelina é a única filha do falecido Tonico Ferreira. É uma moça muito bonita e prendada. E já está em idade de casar.
-Sim, pai. Ela é bonita como um anjo.
Mamãe, que quase nunca falava à hora das refeições, disse, um tanto séria:
-Manuel, há muitas boas moças para casar. Você ainda é jovem, não tenha pressa. Não case com essa moça. Ela é filha da Pombinha, da família Bragança.
Papai se zangou:
-Por que nosso filho não pode casar, mulher? Ele está na idade própria para casar e é bom que case logo e tenha filhos. Assim, eu poderei fechar meus olhos em paz. Além disso, ele pode casar com quem quiser e um casamento com a filha do Ferreira será muito vantajoso para mim.
Mamãe respondeu, começando a ficar nervosa:
-Tenório, a Pombinha não é flor que se cheire. Ela pode parecer ser uma viúva exemplar mas há algo errado com ela. Aquela mulher não me engana. Pode não perder uma missa mas dá para notar que ela tem alguma coisa errada. E com a filha não é diferente.
Desta vez, papai ficou realmente bravo, reclamando:
-Pare com suas superstições bobas, Zulmira! O falecido Tonico Ferreira morreu de uma queda de cavalo! Isso pode acontecer com qualquer um! Mas você acredita nessas bobagens!
Quase chorando, mamãe ficou em silêncio, Manuel pediu para papai não se zangar e eu me perguntei o que poderia haver de errado para que mamãe não quisesse que Manuel casasse com a moça, a quem eu só vira uma vez, na igreja. E como ela usava véu, não pude ver bem seu rosto. Notei apenas que tinha longos cabelos negros e belas mãos brancas segurando o rosário.
Dias depois, Manuel trouxe a moça e a mãe para que jantassem em casa para que nós as conhecéssemos. Não vi nada de errado em dona Pombinha, que usava um vestido negro nem na moça, Angelina, que era realmente muito bonita, com lindos cabelos negros, olhos castanhos e com longos cílios e pele alva. As duas pareceram bastante atenciosas e papai as recebeu com alegria, mas mamãe, embora se esforçasse para ser educada, estava desconfortável. Por que ela não gostava do fato de que Manuel queria casar? Nós jantamos e Angelina achou engraçado o fato de que eu gostava de ler. Dona Pombinha falou, olhando-me com bondade:
-Você é uma menina muito bonita. E noto que tem mais cabeça do que muitas meninas que vejo por aí. Com quatorze anos, tem mais cabeça do que muita moça que já pode casar.
Maricota, que servia a mesa, parecia desconfortável ao ver tanto dona Pombinha quanto Angelina em nossa fazenda e me perguntei qual seria o motivo. Nossa empregada geralmente não mostrava simpatia nem antipatia por ninguém, limitando-se a fazer seu trabalho de forma silenciosa e agindo sem ser notada.
Alguns dias se passaram, com a nossa vida correndo normalmente e Manuel indo regularmente à casa de Angelina, até que eu perguntei à nossa empregada o que havia de errado para que nem mãe nem ela gostassem de dona Pombinha e de Angelina. Maricota disse depois de olhar bem para os lados:
-É uma longa história, menina. Dizem que tudo começou porque a mãe de dona Pombinha, a falecida Emerenciana, teria desprezado um pretendente para casar com o Tarcísio, filho do coronel Saturnino. Falam que esse pretendente, o Ventura, ficou louco com o desprezo dela e cometeu suicídio e você sabe que os suicidas não têm descanso. Ele também teria amaldiçoado a Emerenciana antes de dar um tiro na própria cabeça, dizendo que como ele não podia casar com ela, ela não poderia ser feliz com ninguém. Acontece que ela logo casou com o Tarcísio e ele morreu de picada de cobra pouco depois que dona Pombinha nasceu. Como dona Emerenciana ainda era nova, tentou casar outra vez, só que o marido seguinte também morreu pouco tempo depois, de pneumonia, quando a dona Emerenciana teve um filho, o Juliano. Essa história fez muita gente achar que a dona Emerenciana tinha sido amaldiçoada depois que ela tentou casar uma terceira vez e o marido morreu de tétano.Todo mundo ficou desconfiado que essa maldição passa de mãe para filha porque dona Pombinha, assim como a mãe, ficou viúva depois de casar com o Tarcísio, com a diferença de que dona Pombinha nunca mais tentou casar. Já o Juliano, outro filho de dona Emerenciana, morreu ainda criança. Acontece que agora a filha de dona Pombinha ficou noiva do seu irmão e sua mãe está com medo de que ele seja vítima da maldição.
Lembrando do sonho, eu fiquei com medo e contei para Maricota. Deveria contar para Manuel? Eu sabia que papai não acreditaria. Maricota me contou:
-Seu irmão sabe a história da maldição. Sua mãe contou para ele, só que ele não liga, acha que é besteira. Ele é como seu pai, não acredita nessas coisas. E dá para notar que ele está perdido por essa moça.
Mesmo assim, eu aproveitei uma ocasião para contar para Manuel do sonho. Eu esperava que ele desistisse de casar, porém ele apenas riu de mim, dizendo que eu estava impressionada com a história da maldição. Insisti que eu havia tido o sonho antes de saber da maldição mas ele não quis me ouvir e falou que eu iria gostar muito de ter Angelina como cunhada.
Justiça seja feita, ninguém podia dizer nada de Angelina. Era o que se podia chamar um amor de pessoa. Delicada com todos, atenciosa, prendada e recatada, era o que papai dizia que seria uma esposa exemplar.
Para grande tristeza de mamãe, o casamento aconteceu. Angelina estava lindíssima no seu vestido branco e, ao vê-la, fiquei impressionada. O vestido dela era igual ao do sonho, no entanto, enquanto o do sonho era negro, o dela era de um branco imaculado e ela usava um buquê de rosas cor-de-rosa em vez das rosas brancas do buquê do sonho. Papai estava felicíssimo porque Manuel estava casando e eu estava apreensiva, torcendo para que a história da maldição fosse apenas uma lenda. Eu pude ver a tristeza nos olhos de Maricota e a alegria de grande parte dos convidados, embora alguns tivessem um olhar reservado enquanto dona Pombinha tinha um olhar satisfeito.
Angelina veio morar conosco, como era de se esperar e eu não podia reclamar dela. Parecia uma esposa atenciosa, dona-de-casa zelosa e nora dedicada, mas Maricota e mamãe não se sentiam à vontade com ela. Maricota reclamava comigo que, assim como dona Pombinha, ela tinha maldade no olhar. Eu, ao ouvir aquilo a primeira vez, nada disse, fingindo brincar com o gato da casa. Entretanto, eu podia notar bem que tanto Zico, nosso gato, quanto os cachorros pareciam não gostar de Angelina. Os cães rosnavam para ela e Zico, que sempre fora manhoso, fugia da minha cunhada, o que me deixava intrigada.
Mamãe, que já era nervosa, piorou muito, dizendo que ouvia vozes vindas do quarto da minha tia falecida e uma noite uma rasga-mortalha pousou na nossa janela piando forte, o que fez mamãe gritar de medo. Papai reclamou que não estava aguentando mais os chiliques de mamãe e eu vi bem que ele estava se zangando com mais frequência do que antes. Tudo piorou quando Angelina engravidou. Papai e Manuel comemoraram, só que mamãe não estava contente e Maricota acendeu várias velas e rezou muito, talvez tentando afastar a maldição. Eu não sabia se daria certo, pois tive de novo o sonho com a noiva de negro, em que ela tirava o véu e eu via que ela era um esqueleto, o que me fez acordar quase gritando.
Angelina deu à luz uma noite e nasceu um menino robusto, o que encheu papai e Manuel de alegria. Nos dias que se seguiram, tudo parecia tranquilo até que Manuel falou que iria tratar de uns negócios da fazenda e voltaria logo, saindo para resolvê-los. Esperamos por várias horas e já estávamos apreensivos com sua demora, pois ele nunca fora de demorar muito fora de casa,principalmente depois de casado. Mamãe foi rezar no quarto e Angelina ficou com o bebê no quarto, falando que com certeza o marido logo voltaria. Foi então que o capataz da fazenda veio dizendo:
-Coronel, tenho algo a dizer...
-O que é? perguntou papai.
-Seu filho caiu do cavalo e quebrou o pescoço. Acharam o corpo dele. Parece que ele morreu na hora.
Papai ficou em silêncio, incrédulo. Manuel sempre fora um ótimo cavaleiro. Logo, a tristeza tomou conta de casa. Mamãe desmaiou ao saber, Maricota chorou muito, eu não sabia o que dizer ou fazer e Angelina chorou, dizendo que perdera o marido que amava. Maricota me chamou, revelando:
-Toda minha reza não deu certo, menina. A maldição da viúva foi mais forte.
Quando enterrramos Manuel, eu não podia tirar os olhos de Angelina, que parecia a viúva inconsolável, vestida de negro dos pés à cabeça. Dona Pombinha estava ao seu lado. Mamãe chorava como louca e papai controlava a custo a dor que sentia. Já eu me perguntava se Angelina um dia casaria de novo e se teria uma filha, que passaria adiante a terrível maldição da viúva.

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