Lilith não iria à escola aquele dia. Seus pais, preocupados, haviam achado melhor que ela ficasse em repouso e a mãe resolvera não ir trabalhar para ficar com ela, que acordara várias vezes à noite, intranquila e assustada, sentindo que uma ameaça indefinível pairava malevolamente próxima a ela.
"O que está para acontecer?"
Ela acordara aquela manhã com a mãe lhe acariciando os cabelos e abrira os olhos.
-Mãe...
-Querida, como está?
-Esgotada.
-Seu pai e eu vamos conversar sobre o que fazer para lhe ajudar.
-Então...
-Sim, já sei de tudo. Lilith, você devia ter nos contado há mais tempo. Por que não o fez?
-Eu tinha medo.
-De que, querida?
-De acharem que eu era louca ou um monstro.
-Você devia ter confiado em nós, Lilith. Somos seus pais e amamos você.
-Mãe,desculpe.lágrimas desceram dos seus olhos.
-Está tudo bem. Não estou zangada. Hoje, você fica descansando. Quando se recuperar desse abalo, nós conversamos.
A mãe perguntou se ela tinha fome e ela respondeu que não, o que preocupou a mulher.
-Lilith, ficar sem comer não vai ajudá-la.
Lilith aceitou comer um pouco, e depois a mãe a deixou sozinha.
-Chame-me se precisar, certo?
-Certo, mãe.
Esticou-se na cama, exausta demais para pensar. Toda a experiência do dia anterior fora amedrontadora. "Eu nunca devia ter concordado em participar desse maldito ritual! Sabia que não era nada além de..."
Uma sensação interrompeu seu pensamento. Era algo que ela conhecia bem: o frio intenso junto com o cheiro pesado e opressor da morte. Abriu os olhos, pensando que não gostaria do que veria.
-Você... falou, desanimada e nem um pouco surpresa.
-Esperava por mim, Lilith?
-Não, sua presença não é bem-vinda, principalmente depois do que você me fez passar.
-Que pena que você não aprecia minha companhia.
-Como eu poderia apreciar sua companhia? Você é um fantasma bem ruinzinho! Tem me perseguido e estou cansada! Deixe-me em paz!
-Não deixo, não. Sabe, Lilith, ainda não acabou.
-Vá embora!
-Alguém mais vai morrer hoje, Lilith. Quer saber quem será?
-Não, vá e me deixe em paz!
-Você não vai se livrar de mim, Lilith!
Furiosa, Lilith sentou na cama e disse ao fantasma:
-Seu monstro! O que você é? De quem você pode falar? Você não é Deus ou o que quer que seja, não é melhor do que ninguém, seu fantasma egoísta!
-Você defende quem não merece, Lilith! Veja o que as pessoas fizeram a você. Toda a sua vida, você tem sofrido discriminação, sido chamada de esquisita, doida. Ninguém entende um poder como o seu, Lilith.
-Este poder não passa de uma maldição. Antes eu não pudesse perceber você e tantos outros que vêm me perturbar, contando-me seus ódios e seus problemas!
-Bem, Lilith, você vai sentir tudo o que vai acontecer.
-Vá embora, maldito fantasma!
O fantasma não foi embora, mas se aproximou mais de Lilith, fazendo-a olhar em seus olhos.
-Olhe dentro dos meus olhos, Lilith.
Lilith não soube definir o que viu naqueles olhos, pois havia muita dor, mas também muita maldade. Uma maldade inconsequente, resultante de uma profunda revolta por ter morrido.
-Esqueça o que você pretende. Nada do que fizer lhe fará voltar à vida. E por que matar? Não temos o direito de decidir o destino de ninguém!
A resposta do fantasma foi uma gargalhada sinistra, que fez os cabelos da nuca de Lilith se arrepiarem. Lilith tapou os ouvidos, mas o fantasma riu mais alto e se aproximou mais dela, tocando-lhe o rosto.
Então, Lilith viu coisas que a fizeram pensar que enlouqueceria: um corredor frio e escuro, no qual almas desesperadas estendiam os braços, gemendo, rindo e chorando. As almas eram horrendas. Algumas tinham aparência emaciada e trajavam roupas de hospital, outras apresentavam feios ferimentos.
A menina e José Afonso andavam pelo corredor, rindo malevolamente. Lilith os via acenando para ela e queria fechar os olhos, rezando mentalmente pelo fim daquele pesadelo.
-Junte-se a nós, Lilith. Junte-se a nós.
Lilith baixava a cabeça e chorava. José Afonso perguntava:
-Quer saber quem vai morrer hoje, Lilith?
-Não.
-Mas vai saber. Ouça e sinta.
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