Marcão e seus pais voltaram para casa sem trocar nenhuma palavra. Ao entrarem, o pai disse:
-A gente se mata para educar os filhos e eles fazem isso! Marcos, como você foi fazer um ritual pego da Internet? Viu o perigo?
-Eu queria ter paz, pai.
-E se a menina morresse, meu Deus? Eu nunca pensei que você fosse capaz de ser tão idiota, inconsequente e covarde! Eu vou gastar um dinheirão para pagar os vidros quebrados, mas saiba de uma coisa: você vai ficar sem smartphone para ajudar a pagar o prejuízo!
-Pois quer saber, pai? Pode parar de me dar mesada, roupa e tudo o mais! Todas as noites, o José Afonso me assombra em sonhos, acusando-me de covarde e traidor! O que é ficar sem dinheiro? Não é nada, comparado a não ter paz, a não poder dormir! Eu posso ficar sem smartphone, roupa nova e cartão de crédito, mas não posso ficar sem paz!
Quase em lágrimas, Marcão saiu de perto dos pais, trancando-se no quarto. A mãe começou a chorar e o marido a abraçou, lamentando:
-O que fizemos de errado, meu Deus? O que aconteceu? Ele não quis aprender nada do que ensinamos?
-Querido, que faremos quanto à história do fantasma? José Afonso está assombrando o nosso filho e ele não está suportando!
-Não sei, meu bem. Sei apenas que estou totalmente perdido.
Ajoelhado no chão do seu quarto, Marcão escutara a conversa dos pais e falou:
-Muito bem, José Afonso, você conseguiu, não foi? Acabou com a minha vida! Que você pode dizer? Que eu mereço, porque não presto? Está certo, eu não presto, mas você também não, seu fantasma desgraçado! Se eu soubesse que você seria capaz de ser tão vingativo e cruel, eu nunca teria sido seu amigo! Eu odeio você, seu fantasma de merda!
Passou o resto da noite jogado na cama, pensando em como tudo que começara com uma tola brincadeira destruíra todos os alicerces de sua vida. Quem confiaria nele, sabendo o que ele fizera? Este infeliz episódio se tornara uma nódoa, como as marcas na pele de um leproso ou a cicatriz de um ferimento profundo. Nem seus pais confiavam mais nele. Tinham-no, e com razão, como um covarde incapaz de socorrer os amigos e de enfrentar as consequências de seus atos.
"Meu Deus, eu não consigo pensar que vou viver com isso o resto da minha vida! Antes morrer para me libertar deste peso!"
Não! No que ele estivera pensando? Em se matar? Estaria caindo na artimanha de José Afonso ou cedendo a uma tentação covarde? Encolheu-se, chorando.
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