domingo, 19 de julho de 2026

Eu sei que foi você - 3


 



Marcelo e Narciso jogavam no mesmo time de futebol da escola; o primeiro, como zagueiro e o segundo, como meia. As meninas costumavam assistir aos treinos e Narciso sempre aproveitava para se exibir, jogando beijos ou ficando sem camisa. Michele era a mais empolgada e se comentava que Narciso e ela estariam juntos.

As meninas realmente tinham uma queda por Narciso, por ser alto, de cabelos escuros e olhos azuis. Ele vivia sorrindo para elas e adorava se gabar de suas conquistas aos colegas, relatando como fazia:

-Ah, a Marília é um estouro. Eu a peguei no cinema e, juro a vocês, nunca vi menina com tanto fogo!

Os rapazes tinham inveja do sucesso de Narciso. Marcelo o ouvia enfastiado, mas não reclamava.

Não demorou a notarem que Cassandra era a única na sala que não prestava atenção a Narciso, e isso não passou despercebido ao rapaz, que tentava lhe chamar a atenção com sorrisos e olhares. A moça o olhava por um breve tempo, mas logo baixava a cabeça, desinteressada.

Além de Cassandra, havia outra menina que não olhava para Narciso: Virgínia, que estudava em outra turma. Talvez por isso mesmo, ele a assediava com força, mas ela o repelia:

-Cai fora, idiota!

Os colegas riam e Narciso, para disfarçar a raiva, falava:

-A gatinha gosta de ser difícil.

Naquele dia, após o treino, Marcelo foi ao bebedouro, morto de sede. Viu Cassandra debruçada tomando água. Como ela estava de costas, ficou a observá-la em silêncio. Quando ela terminou e se virou, olhou um pouco para ele, que disse, desconcertado:

-O-oi, Cassandra.

-Oi, Marcelo.

-Você não quer ver o treino de futebol?

-Não, obrigada. É barulhento demais.

-Mas você se acostuma com o barulho. E pode achar divertido. De certa forma, é bom fazer uma coisa diferente. Viver na biblioteca deve ser meio...meio...

-Meio chato demais, não é?

Marcelo encarou Cassandra, um tanto surpreso. Ele pensara exatamente naquelas palavras e não sabia se devia dizer para não ser grosso, mas ela falara sem o menor sinal de chateação.

-Eu não queria dizer isso, Cassandra. Eu...

-Tudo bem, Marcelo. Temos o direito de pensar o que queremos. De qualquer forma, obrigada por me convidar. saiu.

Após tomar água, Marcelo pensou:"Cassandra, qual o seu segredo?"

-Eu não acredito nisso, Marcelo!

Dando um pulo, Marcelo viu quem falara: Michele.

-Ei, Michele! Quer me matar de susto?

-Você está apaixonado pela esquisitona da Cassandra, Marcelo?

-Não é isso, Michele. Eu...

-Por favor, Marcelo, não negue! Todo mundo vê que você não tira o olho dela! Por que será? Por ela ser magrela como uma tábua, de cabelo liso demais e ter olhos de cores diferentes?

-Não, Michele, você não está entendendo!

-A Cassandra é muito feia, Marcelo! Feia e desenxabida!

Michele foi a um canto do pátio retocar a maquiagem, sentando num banco. Ouviu alguém se aproximar e sentar ao seu lado e tirou os olhos do espelho. Gelou de medo. Era Cassandra, fitando-a como se estivesse vendo através dos seus olhos.

-Ca-Cassandra, que surpresa!

-Uma surpresa nada agradável para você, Michele.

-Ora, eu...

-Vamos, Michele. Não é agradável sentar ao lado de alguém como eu, não é? Eu sou feia e desenxabida, não sou?

A moça deixou o batom cair no chão. Teria Cassandra ouvido o que ela dissera?

Imperturbável, Cassandra se levantou, andou um pouco e olhou para trás, encarando Michele:

-A gente ouve principalmente o que não quer, Michele.

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