domingo, 6 de setembro de 2026

Eu sei que foi você - 7

 


Os pais de Virgínia foram à escola dizendo que haviam visto um vídeo gravado pela filha, no qual ela revelava que não aguentava mais ser perseguida na escola e redes sociais.

-A minha filhinha estava sendo perseguida e vocês não fizeram nada! o pai de Virgínia apontou o dedo para a diretora.

-Calma, o senhor já foi adolescente, sabe como eles são. Eles adoram chatear os colegas.

-Isso não foi chateação, sua negligente! Por causa desses nojentos que humilharam nossa filha, e da inércia de todos vocês, ela deu um tiro no peito e está debaixo da terra! Eles a perseguiram até que ela não aguentou mais! E ela deixou uma lista com os nomes deles, dizendo-nos os nomes obscenos e grosseiros com que a chamavam!a mãe de Virgínia estava à beira da histeria.

-Nós vamos processar essa maldita escola e os pais dos miseráveis que a perseguiram!-prometeu o pai - É por culpa deles e de vocês que nunca mais veremos a nossa filha!

-Senhores - a diretora ainda tentou acalmá-los - eu entendo a dor imensa que sentem.

-Não, você não entende nada da dor que sentimos! Não entende o que é ver sua filha numa poça de sangue e saber que nunca mais a abraçará, não a verá realizar seus sonhos, viver a vida, ter filhos e seguir uma carreira, ao passo que os nojentos que, como você diz, só a estavam chateando, estão confortáveis, sem nem pensar no mal que fizeram a ela! Oh, minha filha, eu preferia estar morto! Minha menina estava se sentindo abandonada e odiada e nós fomos incapazes de ajudá-la e protegê-la! Você não entende esta dor, com a qual teremos que viver o resto da vida!Uma parte nossa morreu com ela e nós lutaremos por justiça!

Enlouquecidos, os pais de Virgínia deixaram a escola e a visita deles não tardou a virar notícia.

-Eles saíram daqui com as caras mais feias do mundo!informou um rapaz, colega de turma de Cassandra.

-Por que será?uma moça ficou curiosa.

-Pergunta mais besta! A Virgínia não se matou? Ela fez isso porque quase todo mundo a estava chamando de piranha depois daquilo que saiu no Facebook dela.

-Ora, se ela não era piranha, por que, então, ela se matou?Michele maquiava os olhos.

Marcelo falou:

-Penso que os pais dela têm razão de estar com raiva. O que fizeram com a Virgínia foi uma sujeira.

-Pois, se ela se matou, é porque era uma fraca.

-Michele - Marcelo a olhou bem nos olhos - você teria aguentado se estivesse no lugar dela?

Narciso era o único que não falava. Ele nunca mais citara o nome de Virgínia após o suicídio da garota. E o constante olhar de Cassandra sobre ele o estava incomodando mais do que ele queria admitir.

"Se ela sabe, como ela descobriu?"

Cassandra, sentada no fundo da sala, lia um livro. Volta e meia, levava a mão à cabeça e franzia as sobrancelhas como se algo a incomodasse.

Após um tempo, Cassandra se levantou, levando muito a mão à cabeça e, de repente, caiu no chão, desmaiada.

Marcelo foi o primeiro a ir até ela, apoiando-lhe a cabeça.

-Cassandra?

Ela abriu os olhos e começou a balbuciar:

-Vozes demais... tantas vozes ao mesmo tempo.

A professora de História entrou na sala e perguntou:

-Que aconteceu?

-A Cassandra desmaiou.

Gentilmente, a professora de História deu água a Cassandra, que continuou balbuciando:

-Eu não aguento...são tantas vozes.

-Calma, querida. Está tudo bem? Alguém chamou a ambulância?

-Não preciso de ambulância...quero ir para casa...só ir para casa, por favor.

-Tudo bem. Vamos à diretoria e a diretora vai chamar seus pais.

Marcelo perguntou se Cassandra podia andar e ela disse que sim.

-Eu vou com você à diretoria, Cassandra.

Marcelo e a professora ajudaram Cassandra a se colocar em pé e a ampararam até à sala da diretoria. Marcelo, que carregava a mochila de Cassandra, sentou ao seu lado. A professora explicou à diretora o que ocorrera e esta ligou para o pai de Cassandra, informando-o do desmaio da filha.

-Pode ficar tranquila, Cassandra. Marcelo lhe deu mais água.

A menina o olhou um pouco, dando um sorriso débil e Marcelo falou sem querer:

-Você tem um sorriso bonito, Cassandra.

-Obrigada por ter me ajudado.

-De nada.

-Sabe, poucos foram tão legais comigo assim como você está sendo.

Ele queria perguntar sobre as vozes a que ela se referira, mas achou melhor se calar. Nunca estivera tão perto dela antes e percebeu que gostava de estar ao seu lado.

O pai de Cassandra não demorou a aparecer. Ao ver a filha, foi logo abraçá-la.

-Estou aqui, querida.

-Pai, este é o Marcelo, meu colega. Ele me ajudou.

-Muito prazer, rapaz. Obrigado.

-De nada, senhor.

-Vamos, querida. Pode andar?

-Posso, pai.

Marcelo permaneceu um longo tempo olhando para Cassandra abraçada ao pai, homem de olhos castanhos muito escuros e voz grave. Ambos saíram e Marcelo, pensando no seu pai, voltou para a sala. Um colega o cutucou:

-A Cassandra é estranha mesmo, hein, cara. Que desmaio!

-Não, ela não é estranha. E qualquer um pode desmaiar.

-Eu a escutei falando sobre vozes.

-Talvez fosse tanta gente conversando.

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