domingo, 28 de setembro de 2025

O guardião do milharal


 


Todo mundo elogiava o milharal do seu Totonho, que sempre rendia uma boa colheita e dava belíssimas espigas. As pessoas também falavam histórias estranhas sobre o velho, que era uma pessoa muito reservada e não falava com quase ninguém. Seu filho, um rapaz calado que ajudava o pai a cuidar do milharal, também não era de muita conversa, o que desencorajava qualquer um a perguntar o segredo da plantação de milho nunca ter problemas.

Um outro detalhe que chamava a atenção era o espantalho, o que intrigava os moradores da pequena cidade. Ninguém via pássaros na plantação  e o espantalho parecia não ter nenhuma utilidade, o que os fazia supor que o velho o mantinha apenas como enfeite. Porém, às vezes, pessoas passavam por perto e podiam ver o boneco, que era estranho. Ele tinha a típica cabeça de abóbora, era vestido com trapos desbotados e cheios de remendos que lhe davam a aparência de um mendigo e um chapéu largo que lhe escondia quase por completo a cabeça. Entretanto, muitos eram os que comentavam que o espantalho parecia vivo. Diziam que houvera vezes em que dava para ver os buracos que ele tinha no lugar dos olhos e comentavam que os olhos dele pareciam estar observando quem passava. 

-Sinceramente, não gosto do espantalho que aquele velho e o filho dele guardam. O boneco parece vivo. Dizia a Marizinha. 

-Bobagem mulher. Respondia Juvenal, marido da boa mulher.

O velho Totonho saía pouco e, nas poucas vezes em que saía, ia à venda comprar mantimentos. As pessoas o cumprimentavam à distância porque tinham medo do velho sobre quem se contavam estranhas histórias. Sabia-se que um empregado dele sumira misteriosamente, mas tudo que ele dissera fora que o empregado decidira ir embora e há anos ele era viúvo. A mulher, dona Zefinha, morrera de um ataque cardíaco que deixara todos surpresos, pois sempre gozara de boa saúde. O médico, ao examinar o cadáver, dissera, pasmo, que  a expressão de dona Zefinha era de puro pavor, como se ela tivesse morrido de susto. Depois da morte da esposa, o velho Totonho se tornara mais calado e o filho, que nunca fora um rapaz simpático, ficara sorumbático. Ele casara há pouco tempo, a esposa, Mariluce, estava grávida do primeiro filho e dois empregados os ajudavam. Mas os empregados nada falavam sobre o dono da fazenda, o que aumentou o mistério sobre o milharal e o espantalho.

Naquele momento, dois meninos olhavam o milharal de longe. Eram Chiquinho e Zezinho, dois garotos de doze e quatorze anos que eram muito curiosos.

-Vejam só. O tal espantalho é feio demais. Não é de espantar que nenhum pássaro apareça aqui. Dizia Zezinho.

Chiquinho olhou para o boneco, que achava horroroso. E, de repente, ao fixar seus olhos naqueles olhos vazios, sentiu algo estranho. Podia jurar que os olhos do boneco o observavam. E que o espantalho sorria.

-Zezinho, vamos sair daqui. Esse espantalho tem algo errado. Eu sempre achei que o velho tinha algo errado.

Zezinho não ligou e pulou a cerca, aproximando-se. Chiquinho, apavorado, observava. Zezinho chegou perto do espantalho e ficou a olhá-lo com atenção. Era o espantalho mais feio que já vira.  Feio, velho e vestido com trajes remendados e que apodreciam devagar, dando uma aparência de decrepitude.

O menino mostrou a língua para o espantalho.

-Não tenho medo de você, seu bicho feio. 

Então, de repente, algo aconteceu. O espantalho parecia ter movido a cabeça e Zezinho teve a impressão de que o boneco olhava diretamente para ele, o que o deixou morto de medo ao encarar aqueles olhos vazios e mal-feitos. Correu, mas ouviu passos sutis de algo andando atrás dele, se aliviando ao conseguir pular a cerca.  Chiquinho o esperava.

-Vamos embora daqui, esse espantalho parece estar vivo!

-Sim, vamos!

Mais tarde, os dois amigos comentavam embaixo de uma árvore:

-Há alguma coisa errada naquela fazenda, há sim! Lembra que minha avó dizia que antes a plantação do velho estava com problemas por causa de pragas? Segundo ela, o empregado uma vez falou demais na venda, dizendo que iria embora porque o velho era um péssimo patrão e se trancava no quarto por horas, falando com não sei quem. Ele estava com medo E depois que o empregado sumiu, a plantação de milho se livrou das pragas de repente? Mas segundo minha avó, a dona Zefinha foi ficando triste. Ela costumava ser uma senhora alegre mas foi ficando triste até que um dia o filho foi chamar o médico e ele viu que ela estava morta. Ninguém entendeu. Zezinho lembrou.

-Será que o velho tem parte com o diabo? Talvez seja por isso que a plantação começou a dar certo. Já ouvi muitos falarem que há tempos o velho não vai a uma missa.  Sugeriu Chiquinho.

Zezinho, que estava morto de medo, apenas disse:

-Eu não sei, só sei que nunca mais quero saber nem de passar perto daquela fazenda. Você pode ver que nem o velho nem o filho dele falam com ninguém. E aquele espantalho realmente parece vivo. É como se ele guardasse o milharal.

Os dois combinaram de nunca mais aparecer por lá e cada um foi para sua casa dormir.

No dia seguinte, Chiquinho, passando pela casa de Zezinho, encontrou o amigo com os olhos arregalados de medo. Perguntou o que tinha acontecido e Zezinho contou:

-Chiquinho, eu não sei se foi um pesadelo, mas eu estava  na cama e ouvi baterem na janela. Levantei e fui abrir a janela e.. quando abri... pude ver o espantalho a alguns metros de distância. Meu Deus, que coisa medonha! Eu nem consegui gritar! A coisa olhava para mim com aqueles olhos vazios, havia fogo nos olhos dele e eu podia jurar que a coisa estava rindo, embora aquela boca arreganhada não se mexesse! Ele então começou a falar que eu tinha invadido o milharal! E que como eu tinha entrado em terreno proibido, eu iria ser castigado!

Chiquinho ficou impressionado mas tentou acalmar o amigo:

-Foi um pesadelo.

Zezinho então protestou:

-Eu só sei que eu não vi mais nada e quando acordei estava caído no chão! Isso foi pesadelo! Nunca vi coisa tão horrorosa! Ele tinha os olhos vazios cheios de maldade! Lembro que ele vinha andando devagar na minha direção!

Apavorado, Chiquinho tentou convencer Zezinho que tinha sido só um sonho e que era melhor não contarem a ninguém nem voltarem à fazenda do seu Totonho, o que não seria difícil.

O problema foi que, com o tempo, Zezinho, antes um menino arteiro e curioso, foi ficando medroso e ansioso. Vivia em constante estado de alerta. Chiquinho chegou a dizer que poderiam conversar com seus pais mas Zezinho descartou logo a ideia porque seus pais com certeza lhes dariam uma bela surra por terem ido à fazenda do velho e para Zezinho uma surra do pai assustava mais do que o espantalho.

Pouco a pouco, Zezinho foi emagrecendo e Chiquinho se preocupou ao ver o amigo ficando com um ar doente, dizendo-lhe que tinha pesadelos horríveis com o espantalho aparecendo e dizendo:

-Abra a porta, menino. Você não tem como escapar. Eu vou lhe pegar de todo jeito. 

Para Chiquinho, o pior foi quando Zezinho contou que sonhara que andava pelo milharal e via o espantalho, preso em seu lugar, olhando para ele e sorrindo e então Zezinho sentia algo pegajoso sob seus pés e via que havia sangue brotando da terra e ficava louco. O espantalho falava com sua voz grave:

-Essas são as pessoas que foram sacrificadas, menino. O dono do milharal fez sacrifícios e regou essa terra com sangue para que a plantação de milho prosperasse. Sabe quantas pessoas foram enterradas aqui além do empregado que sumiu? E não fale nada, entendeu? O empregado foi sacrificado porque falou demais. Se não quer ser sacrificado, não fale.

Chiquinho sentiu o coração pular no peito ao mesmo tempo em que começou a suar frio. Então o velho Totonho matara o empregado e outras pessoas e as enterrara no milharal? E regara a terra com sangue? Aquilo era horrível! Insistiu:

-Vamos falar com alguém, Zezinho! 

-Não adianta, Chiquinho. Tudo que vamos ganhar é uma bela surra de cinto dos nossos pais. E quem vai acreditar na gente? Seremos chamados de mentirosos. Mas com certeza o velho matou gente e regou a terra com sangue!

Infelizmente, Zezinho foi piorando, ficando doente, o que preocupou seus pais. O médico não achou nada errado embora a magreza do menino o assustasse. Recomendou repouso e boa alimentação mas não adiantou. E Chiquinho foi vendo o amigo piorar até que, após sair da escola, resolveu passar pelo amigo antes de voltar para casa e encontrou os pais de Zezinho chorando desesperados. Temendo pelo pior, perguntou o que acontecera e o irmão mais velho de Zezinho, que estava surpreendentemente calmo, revelou:

-Nós encontramos o Zezinho morto no quarto esta manhã. Ele estava caído ao lado da janela, os olhos arregalados. E é estranho porque a expressão dele era de puro medo.

Chiquinho sentiu as lágrimas correndo. Chorava de tristeza e raiva.

Maldito espantalho. Com certeza foi o espantalho. Aquele velho nojento matou pessoas. Ele tem parte com o diabo! Aquela terra dele é amaldiçoada! Velho maldito! Mas eu vou fazer o velho pagar! Ele vai pagar por todas as maldades dele!

Mais tarde, no velório de Zezinho, Chiquinho viu que o velho Totonho, junto com o filho e a nora grávida, apareceu prestando condolências. O menino, com ódio, encarou o velho, que o encarou de volta com um olhar zombeteiro e cheio de maldade.

O menino entendeu muito bem que o velho era implacável e puniria qualquer um que se atrevesse a invadir seu milharal. Mas jurou para si mesmo que descobriria um jeito de se vingar pela morte de Zezinho. 

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