domingo, 15 de março de 2026

O fantasma da velha escola - 8


 


Alfredinho andava à beira de um rio, cansado e resfolegando como um cavalo. Sentou sobre uma pedra, indagando-se quanto tempo demoraria até chegar ao local que pretendia.

-Logo será o pôr-do-sol. Não aguento mais andar.

Uma pessoa usando roupas muito gastas e um agasalho com capuz apareceu, perguntando:

-Cansado, amigo?

-Sim. Andei demais.

-Gostaria de ir à outra margem do rio para encurtar o caminho?

-Como? O rio é muito largo. Se eu for, vou me molhar todo. E não sei nadar. Tenho medo d'água.

-Logo, passa um barqueiro. Ele leva você.

Realmente, não demorou a aparecer um barco que vinha muito devagar, conduzido por uma pessoa em roupas escuras e que usava imenso chapéu de palha. A pessoa parou de remar e Alfredinho pediu:

-Por favor, leve-me à outra margem.

Quando Alfredinho se levantou da pedra, a pessoa junto dele disse:

-Abra a mão.

Alfredinho a abriu e a pessoa colocou uma moeda em sua mão.

-Leve, você vai precisar.

-Obrigado.

Com cuidado, Alfredinho foi até o barco e falou:

-Por favor, quero ir à outra margem.

O barqueiro fez o gesto de levantar a mão e a cabeça e Alfredinho ficou paralisado ao ver que a mão que se estendia para receber a moeda era a mão de um esqueleto. Atônito, Alfredinho olhou para o rosto do barqueiro. Diante dele, estava uma caveira de olhos vazios e sem o menor resquício de carne.

Alfredinho tremeu, mas a caveira permaneceu imóvel esperando pela moeda. Após algum tempo, o rapaz conseguiu correr,o medo fazendo o suor escorrer pela sua testa.

Não chegou muito longe quando dois braços o agarraram. Era a mesma pessoa que lhe dera a moeda.

-O que foi, rapaz?

-O-o-o ba-barqueiro! E-e-ele é-é u-uma ca-caveira!

-E você correu por causa disso, seu covarde? Alfredinho, você não muda mesmo!

A pessoa sabia seu nome? Como podia ser?

-Ei, você....?!

A pessoa desceu o capuz. Era José Afonso, com a pele pálida e acinzentada dos mortos, os olhos vidrados, inexpressivos e cercados de marcas roxas e um ferimento na testa, do qual descia um filete de sangue coagulado. O sorriso era desprovido de calor, as mãos que o seguravam eram frias, repugnantes e secas como papel apergaminhado.

-Jo-José Afonso?!Alfredinho tremeu.

José Afonso o encarou com olhos que lembravam os de um animal morto.

-Sou eu mesmo, covardão. Puxa, quando eu caí da escada, você e o Marcão correram como duas menininhas. a voz era sardônica.

Quase chorando, Alfredinho disse:

-José Afonso, eu sei que o Marcão e eu fomos dois covardes e o abandonamos.

-É, seu mariquinha, você foi covarde. Mas eu não esperava nada de você além disso. O que me doeu foi o Marcão ter fugido e me largado ali. A gente era amigo de infância. Eu fiquei mais de um dia ali, vendo meu corpo caído e apodrecendo, aguentando aquela fantasma chata! Ela me matou e ficou mangando de mim!

-Por favor, José Afonso...

-Ela não para de rir, a fedelha! Ri como uma demente! Ah, o Marcão e você vão pagar, vão sim! Vocês são dois bostas, dois bostas...cantarolou.

O medo de Alfredinho foi se intensificando porque, enquanto José Afonso cantava e gargalhava, sua pele ia se tornando esverdeada e flácida, inchando e se rompendo, exalando um cheiro de carne podre.

-Está com medo, Alfredinho? empurrou-o e Alfredinho caiu, olhando para ele.

-N-não!

-Alfredinho, eu já atravessei esse rio! - a gargalhada era triste e funesta - Agora, chegou sua vez!

-N-n-nãaaaaaooooooooo!

José Afonso foi se decompondo até sobrar apenas o esqueleto que, no entanto, continuava rindo e cantando:

-Logo logo

Alfredinho

virará uma

caveirinha,

e de sua carne

não sobrará nadinha...

-N-não, n-nãooooooo!

-Alfredinho!

-Não, não!

-Alfredinho!

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