domingo, 29 de março de 2026

O fantasma da velha escola - 9





A mãe de Alfredinho o sacudia. Seu rosto mostrava uma séria preocupação. Ele acordou, perguntando-se se o pesadelo realmente acabara.

-M-mãe?!

-Meu filho, o que aconteceu?

-N-nada, mãe.

-Nada? Você gritava a plenos pulmões!

-Foi só um pesadelo.

-Por que você falou o nome do José Afonso?

-Fa-falei?

-Sim.

-Não sei.

-Bem, quer um chá?

-Não, mãe, voltarei a dormir. Não precisa se preocupar.

-Tem certeza?

-Tenho.

Recostou-se no travesseiro, sabendo que não voltaria a dormir. A mãe o beijou antes de sair do quarto.

"Meu Deus, será que foi só um pesadelo mesmo?"

No outro dia, viu Marcão no pátio. Perguntou:

-Marcão, não vai entrar na sala?

-Não sei, Alfredinho. Mal consegui dormir a noite passada.

-O que foi? sentou-se ao seu lado.

-Eu sonhei com o José Afonso.

-Mesmo? - Alfredinho se colocou em alerta - Sonhou mesmo com ele?

-Sim, e foi muito nítido.

-Conte-me!

-Por que o interesse?

-P-por n-nada. Só me conte.

-Não foi apenas nítido. Foi horrível. Eu estava na velha escola, no pátio, onde nós dois ouvimos o José Afonso gritar e cair da escada. Estava escuro e eu me perguntava: "Que estou fazendo aqui? Eu nunca mais vim aqui" Foi aqui que meu melhor amigo morreu!" Então, eu escutei a voz dele dizer:" Precisei morrer para descobrir que você não é, aliás, nunca foi realmente meu amigo, seu covarde!" Eu me ajoelhava e gritava: "José Afonso, eu sei que fui covarde, mas eu estava com muito medo! Você precisa me perdoar, por favor!" A resposta dele era: " Ah, e você vai ficar vivinho, enquanto eu estou aqui, morto? O Alfredinho e você vão seguir com suas vidas e eu passarei a eternidade aturando esta menina chata? A nojentinha quer mais companhia, sabia?" Meu Deus, Alfredinho, eu comecei a sentir um fedor insuportável! E a ouvir passos se aproximando. Eu caía de joelhos e tentava não chorar porque, Alfredinho, a minha vontade era a de chorar como um menininho com medo do escuro. Além de cair de joelhos, eu fechava os olhos e tapava o nariz, porque o fedor ia ficando mais forte. De repente, eu ouvia bem em cima de mim: "Abra os olhos, covarde! Veja seu melhor amigo! Deixa de ser molenga!" Mas eu não abira. Foi aí que duas mãos agarraram meu pescoço, Alfredinho! Duas mãos frias e podres! E o fedor, minha nossa, o fedor! Eu abria os olhos e via o José Afonso com o rosto decomposto, quase virando uma caveira, e gargalhando! Mas o pior foi que, junto com a gargalhada dele, começou a ecoar uma gargalhada de menina! Meu Deus, como eu gritei! Meus pais acordaram e quiseram saber o que era.

De olhos arregalados, Alfredinho pensava no seu pesadelo. Contaria ou não a Marcão? Ia dizer algo e viu Lilith se encaminhando em direção à sala de aula e falou:

-Acho que a Lilith pode nos dizer algo.

-...

-No velório do José Afonso, ela veio nos dizer que ele não nos queria lá.

-Será que ele...

-Óbvio que ele estava lá, vendo tudo.

-Mas só ela o via.

-O que ele não deve ter dito da gente. Ele está com muita raiva!

-O pior é que ele tem razão.

-Mas Alfredinho, ele não pode nos perdoar? A gente não queria isso? Foi tudo um acidente! E não fomos nós que o matamos! Nem estávamos perto dele na hora!

-Será que a menina que morreu foi empurrada ou caiu sozinha?

-Nunca souberam. Meu pai contou que apenas a encontraram morta, com o pescoço quebrado. Houve um boato de que abafaram o caso e os pais dela ficaram revoltados, pois ela era filha única.

-Nossa! Será que a Lilith sabe?

-Isso faz diferença agora?

-Não sei. O que sei é que estou com medo, Marcão. Alfredinho decidira não contar seu sonho a Marcão.

-Vamos assistir à aula, Marcão?

-É, vamos.

Lilith, sentada na sua carteira, lia um livro. Marcão e Alfredinho notaram que ela parecia mais abatida e com o rosto mais fino.

-Será que o José Afonso continua aparecendo para ela?

-Tenho certeza que sim, Alfredinho.

 

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